
Documentos revelam como petroleiras fabricaram o mito do gás limpo enquanto escondiam o metano que aquece o planeta.

Toda vez que uma chama azul acende num fogão ou uma usina troca o carvão pelo gás para gerar energia, uma promessa se repete. A de que o gás natural seria a alternativa limpa capaz de conter o aquecimento do planeta. Um relatório do Center for Climate Integrity, divulgado em julho de 2026, mostra que essa promessa é uma fraude construída ao longo de cinco décadas. E que a própria indústria do gás conhecia a verdade enquanto vendia o contrário ao público.
Uma chama que promete o que não pode cumprir
O gás natural é, em sua maior parte, metano. Um gás invisível que escapa por tubulações, poços abandonados e válvulas, além de ser liberado de propósito em operações de ventilação e queima.
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Ondas de calor levam data centers a acionar geradores a diesel e expõem nova pressão sobre a rede elétricaQuando vai para a atmosfera, o metano retém cerca de 80 vezes mais calor que o dióxido de carbono ao longo de 20 anos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. É como aquecer a casa três vezes mais rápido usando o mesmo palito de fósforo.
A queima do gás também produz dióxido de carbono e uma lista de poluentes ligados a doenças do coração, do pulmão e do cérebro. Chamar isso de energia limpa sempre foi uma escolha de marketing, não de ciência.
O incômodo segredo dos campos de petróleo
A indústria não descobriu o problema ontem. Já em 1907, executivos do setor discutiam como a combustão incompleta do gás gerava monóxido de carbono, descrito por eles como um dos venenos mais mortais que se pode inalar.
Décadas depois, o incômodo cresceu. Em um estudo interno de 1966, o chefe de um grupo de pesquisa da Shell registrou que o gás natural era liberado em quantidades embaraçosamente grandes nos campos de petróleo.
Em 1968, um relatório encomendado pela American Petroleum Institute ao Stanford Research Institute já tratava do metano na atmosfera e o associava a vazamentos das operações de óleo e gás. A informação existia. Faltava vontade de agir.
Quando a imagem suja virou um problema de mercado
No início dos anos 1970, pesquisas de opinião assustaram as empresas. Uma sondagem interna de 1970 apontou que 69% das pessoas viam a eletricidade como o combustível do futuro, contra apenas 15% para o gás.

A agência de publicidade J. Walter Thompson resumiu o veredito do público sem meias palavras. Rico ou pobre, jovem ou velho, homens e mulheres em toda parte enxergavam o gás como mais poluente que a eletricidade.
Para reverter a percepção, a American Gas Association, conhecida como AGA, contratou as grandes agências da época, entre elas a J. Walter Thompson e a Hill & Knowlton. A recomendação foi direta. O gás precisava se apresentar como energia limpa.
Havia um detalhe inconveniente. Internamente, os próprios consultores admitiam que faltavam fatos claros e simples sobre os aspectos de poluição do gás para sustentar a campanha.

Mesmo sem provas, a mensagem foi ao ar em 1972 com o tema Gás, energia limpa para hoje e amanhã. Uma lista interna de frases aprovadas pela AGA definia o roteiro da mentira.

O executivo Richard Darrow, da Hill & Knowlton, deu o tom da urgência ao setor. No clima de hoje, não há lugar para o empresário americano se esconder.
Um instituto de pesquisa feito sob medida
Para dar aparência de ciência à campanha, o setor criou em 1976 o Gas Research Institute, o GRI. A ideia era ter uma fonte que parecesse objetiva e confiável.
Nos bastidores, a função era outra. Uma publicação do próprio GRI descreveu o instituto como parte ativa do braço de marketing da indústria do gás. Os 24 membros do conselho vinham todos do setor.
A ciência do clima bate à porta e a indústria fecha a janela
Enquanto a propaganda avançava, a ciência apertava o cerco. Em 1976, uma equipe da NASA liderada pelo cientista Wei-Chung Wang calculou que o aumento do metano na atmosfera representava um risco climático significativo.
Em 1985, um estudo do cientista Veerabhadran Ramanathan, da NASA e do centro NCAR, estimou que gases traço como o metano poderiam responder por até 40% do aquecimento futuro do planeta.
A indústria também media o próprio rombo. Um estudo financiado pelo GRI em 1979 revelou que a quantidade de gás queimado ou ventilado era, na prática, de duas a quatro vezes maior que os números oficiais.

O problema não era abstrato. Em 1986, o prefeito de Westlake, na Louisiana, contou que após grandes chuvas as poças borbulhavam com o gás que vazava dos canos enterrados.
Do gás limpo ao combustível ponte
No fim dos anos 1980, o setor deu um passo esperto. Em vez de negar o clima, passou a vender o gás como um combustível ponte, uma transição rumo às energias renováveis.
O termo apareceu em 1988, atribuído a Michael German, vice-presidente da AGA, em reportagem do Washington Post. A promessa de uma ponte curta escondia um plano de décadas de expansão do gás.

O alerta científico continuava. Em 1990, o pesquisador Irving Mintzer, do World Resources Institute, mostrou que os benefícios de trocar carvão por gás podiam ser anulados por um vazamento de metano tão modesto quanto 3% a 4%.
A indústria ouviu e seguiu vendendo. O presidente da Enron, Kenneth Lay, foi cristalino diante de colegas. Com a crescente preocupação com o efeito estufa, se vendermos nossa história ambiental, seremos a energia da escolha.
O estudo que selou a fraude
A peça central veio em 1996. Um estudo conjunto do GRI e da agência ambiental dos Estados Unidos, a EPA, fixou a taxa de vazamento de metano da rede de gás em apenas 1,4%. Baixo o suficiente para justificar tudo.

Documentos obtidos por acesso à informação mostram como o número foi produzido. Em 1994, o gerente do projeto na EPA, David Kirchgessner, escreveu que a agência simplesmente não tinha a expertise para revisar o trabalho e pediu que a revisão fosse feita pela própria indústria.
Outro dirigente anotou à mão que era improvável encontrar problemas, mesmo que eles existissem. O estudo não usou amostragem aleatória. Analisou apenas instalações de empresas que aceitaram participar.
Anos depois, a própria EPA admitiu que o estudo tinha um alto nível de incerteza. Mas o estrago estava feito. O número virou pedra fundamental das estatísticas oficiais e do discurso do gás como solução climática.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1907 | Executivos do setor discutem que a combustão do gás gera monóxido de carbono, um veneno mortal. |
| 1966 | Estudo interno da Shell admite gás liberado em quantidades embaraçosamente grandes nos campos. |
| 1972 | AGA lança a campanha Gás, energia limpa para hoje e amanhã, sem fatos que a sustentem. |
| 1976 | Indústria cria o Gas Research Institute para dar aparência de ciência à propaganda. |
| 1976 | Estudo da NASA aponta que o aumento do metano é um risco climático significativo. |
| 1988 | Surge o termo combustível ponte, atribuído a um vice-presidente da AGA. |
| 1996 | Estudo GRI/EPA fixa vazamento de metano em 1,4%, sem revisão independente da EPA. |
| 2024-2025 | Satélite MethaneSAT mostra emissões 50% acima do inventário oficial dos EUA. |
O que os satélites mostram agora
A conta atrasada começou a chegar. Em 2011, cientistas da Universidade Cornell, liderados por Robert Howarth, contestaram a taxa oficial de vazamento. Em 2020, um estudo estimou que as emissões de redes locais de distribuição eram cerca de cinco vezes maiores que o inventário do governo.
A visão do espaço foi decisiva. Entre 2024 e 2025, dados da missão MethaneSAT mostraram que as emissões de metano do petróleo e do gás eram 50% maiores que as reportadas no inventário oficial dos Estados Unidos.

Os satélites da NASA agora flagram nuvens invisíveis de metano subindo de campos de gás, como plumas coloridas sobre o deserto.
Os números finais desmontam o mito. Em 2025, a concentração de metano na atmosfera chegou a 1,95 parte por milhão, quase três vezes o nível pré-industrial de 0,7, segundo a NASA.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, os Estados Unidos são hoje o maior emissor de metano do setor de óleo e gás do mundo. Só em 2023, esse metano teve um impacto climático equivalente a 301 usinas de carvão funcionando ao mesmo tempo.
| O que a indústria dizia | O que a indústria sabia |
|---|---|
| O gás natural é energia limpa e queima praticamente sem emissões. | Metano vaza em toda a rede e retém cerca de 80 vezes mais calor que o CO2 em 20 anos. |
| O volume de gás perdido é pequeno. | Estudo próprio de 1979 já indicava perdas de duas a quatro vezes maiores que o oficial. |
| O gás é o combustível ponte para as renováveis. | Vazamento de apenas 3% a 4% anula a vantagem climática sobre o carvão. |
| A taxa de vazamento é de 1,4%, comprovada por estudo com a EPA. | A EPA não tinha expertise para revisar, e o estudo só olhou empresas voluntárias. |
A mesma chama chega à Amazônia
A história parece distante, mas o roteiro é o mesmo que aterrissa no debate energético brasileiro. O gás natural volta a ser apresentado como transição limpa, ponte segura, futuro de baixo carbono.
Enquanto isso, a crise climática que esse combustível ajudou a acelerar já cobra seu preço na região. Secas mais duras, rios mais baixos e queimadas mais intensas atingem quem vive e produz na floresta.
A Amazônia tem outras respostas para oferecer. A bioeconomia, os saberes ancestrais dos povos da floresta e as fontes renováveis apontam para uma transição de verdade, não para uma promessa de marketing repetida por meio século.
Depois de cinco décadas sustentando que o gás era limpo, a indústria conseguiu prender o mundo a mais um combustível fóssil. A pergunta que fica é simples. Quantas vezes ainda vamos comprar a mesma chama azul antes de exigir a energia que a floresta e o clima realmente pedem?
Fonte: Center for Climate Integrity. The Fraud of Clean Natural Gas. How Big Oil and Gas Created the Myth that Natural Gas is a Climate Solution. Autoria de Rebecca John, Rebecca Leber e Davis Allen. Julho de 2026. Dados adicionais atribuídos no corpo do texto ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, à NASA, à missão MethaneSAT e à Agência Internacional de Energia, conforme citados no relatório.
Matéria publicada originalmente na edição 156 da Revista Amazônia.
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