
Nenhum furacão se formou até 11 de setembro de 2026, no período que costuma concentrar o pico da temporada.
O Atlântico Norte chegou a 11 de setembro de 2026 sem registrar um único furacão, justamente quando a temporada costuma atingir seu maior ritmo. A combinação entre um El Niño que pode estar entre os mais fortes desde 1950, ventos que desorganizam as tempestades e uma camada de poeira vinda do Saara levou o oceano a uma pausa histórica.
O cenário já produz um recorde na era dos satélites, iniciada na década de 1960. Até agora, cinco tempestades tropicais receberam nome, Arthur, Bertha, Cristobal, Dolly e Edouard, mas nenhuma conseguiu evoluir para furacão.
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Em anos considerados médios, o Atlântico teria alcançado aproximadamente oito tempestades nomeadas e três furacões até este momento do calendário. A diferença entre a média e o resultado de 2026 é um dos sinais de que a atmosfera está bloqueando a organização dos sistemas tropicais.
Os dias 10 e 11 de setembro são usados como referência para o pico climatológico da atividade. Os recordes anteriores de maior atraso sem formação de furacão haviam ocorrido em 11 de setembro de 2002 e 2013. Caso a calmaria continue, 2026 ultrapassará essas marcas.
Segundo o BBC Weather, o Atlântico não havia formado furacões até 11 de setembro de 2026, apesar de a temporada estar no período de maior atividade média e de não haver sinais de desenvolvimento relevante na semana seguinte.
Como o El Niño desmonta as tempestades
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical. O fenômeno altera a circulação da atmosfera e pode modificar padrões de vento, chuva e temperatura em regiões muito distantes da área onde começa.
No Atlântico, uma das principais consequências é o aumento dos ventos em altitude. Quando a velocidade ou a direção do vento muda rapidamente entre a superfície e os níveis mais altos da atmosfera, ocorre o chamado cisalhamento vertical do vento.

Esse cisalhamento inclina e fragmenta as estruturas de tempestade. Com menos organização, os aglomerados de nuvens têm dificuldade para concentrar calor e circulação, dois elementos necessários para que um sistema tropical se transforme em furacão.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, NOAA, indicou que o episódio em curso pode superar a intensidade de eventos anteriores registrados desde 1950. A previsão é de que o fenômeno atinja o pico entre novembro e dezembro, depois do período de maior atividade climatológica do Atlântico.
Poeira africana reforça a barreira no oceano
O El Niño não atua sozinho. Nos últimos dias, ventos sobre o deserto do Saara transportaram poeira e areia por milhares de quilômetros, formando uma camada de ar seco sobre o Atlântico tropical.
O ar seco reduz a umidade disponível para o crescimento das nuvens e dificulta a manutenção das tempestades. Quando essa massa atravessa áreas onde poderiam surgir sistemas tropicais, ela funciona como uma barreira adicional à intensificação.
Imagens de satélite analisadas em 9 de setembro mostraram uma faixa extensa, seca e esbranquiçada avançando em direção aos Estados Unidos. A previsão indicada pelo serviço meteorológico é de que a poeira continue contribuindo para condições pouco favoráveis pelo menos durante a semana seguinte.
O contraste com o Pacífico Oriental
A distribuição da atividade tropical não é uniforme. No Pacífico Oriental, o mesmo El Niño que dificulta o desenvolvimento de furacões no Atlântico tende a favorecer a formação de tempestades.
Até 11 de setembro, a bacia do Pacífico Oriental havia registrado 13 tempestades nomeadas, cinco furacões e três furacões de grande intensidade. Esse volume se aproxima do que normalmente apareceria durante uma temporada inteira considerada média.

O furacão Lowell foi o sistema mais recente a atingir o Havaí. A passagem provocou ventos fortes, chuva intensa, alagamentos e ondas elevadas. O caso mostra que uma temporada fraca em uma bacia não significa ausência de riscos tropicais em todo o planeta.
O que a pausa muda para o Brasil e a Amazônia
O recorde ocorre no Atlântico Norte, longe da maior parte da costa brasileira e dos estados da Amazônia Legal. Por isso, a ausência de furacões nessa área não deve ser interpretada como uma temporada sem extremos para o Brasil.
O ponto de interesse para a região amazônica está no próprio El Niño. Como o fenômeno reorganiza a circulação atmosférica, seus efeitos podem aparecer na distribuição de chuva e temperatura em diferentes partes da América do Sul. A intensidade e o impacto variam conforme o local e a evolução do evento.
Para moradores do Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, o dado mais importante é acompanhar as previsões regionais de chuva, calor, estiagem e risco de incêndios. A calmaria no Atlântico não elimina ameaças associadas a extremos meteorológicos em terra.
Também há uma diferença importante entre tempestade tropical e furacão. Uma tempestade recebe nome quando alcança intensidade suficiente para ser acompanhada oficialmente. Ela só passa à categoria de furacão quando seus ventos sustentados atingem o limite estabelecido pela escala usada na bacia.
A previsão ainda pode mudar
Em maio, o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos projetou uma temporada abaixo da média, com oito a 14 tempestades nomeadas. Desse total, entre três e seis poderiam se tornar furacões, incluindo de um a três furacões de grande intensidade.
A previsão sazonal não impede mudanças rápidas. O Atlântico pode registrar formação de sistemas depois do pico climatológico, e a temporada oficial só termina em 30 de novembro. Ainda assim, a combinação atual de cisalhamento, ar seco e poeira indica que a janela imediata de desenvolvimento permanece limitada.
Os próximos boletins meteorológicos deverão mostrar se o El Niño continuará dominante até o fim da temporada e se o Atlântico manterá o recorde de atraso sem furacões.
Com informações de BBC Weather.
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