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Chuva intensa derruba cacau na África, afeta preços do chocolate e pode ser prevista meses antes

Chuva intensa derruba cacau na África, afeta preços do chocolate e pode ser prevista meses antes
Foto: Divulgação

Estudo aponta que o excesso de chuva durante a floração pesa tanto quanto a seca na produção de cacau.

Para uma árvore de cacau, a chuva não precisa faltar para causar prejuízo. Quando chega com força durante a floração ou no começo da formação dos frutos, ela pode danificar flores, favorecer doenças provocadas por fungos e comprometer a colheita da temporada. Um estudo conduzido por pesquisadores da Harvard University e da University of Ghana mostra que esse risco pode ser identificado com meses de antecedência.

A pesquisa, publicada em 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, muda o foco de uma discussão tradicional sobre o futuro do chocolate. A seca continua sendo uma ameaça conhecida, mas o excesso de água em momentos específicos do ciclo da planta também tem peso decisivo. Em Gana, a combinação entre chuvas intensas na estação úmida e pouca chuva no período seco explicou cerca de dois terços das oscilações anuais da produção.

O período mais delicado começa com a floração

As árvores analisadas vivem por décadas, e a produção depende de uma sequência que não pode ser interrompida sem consequências. A floração, a polinização e o desenvolvimento das vagens acontecem em etapas sucessivas. Uma mudança brusca no regime de chuva durante esse intervalo pode afetar o resultado muitos meses depois.

Na região estudada de Gana, os temporais mais prejudiciais aparecem entre abril e junho, justamente quando as árvores florescem e as vagens ainda são jovens. Mais tarde, entre novembro e fevereiro, a falta de água pode reduzir o desenvolvimento dos frutos que continuam na planta.

“A seca é uma ameaça real ao cacau, e isso já está bem estabelecido. O que não foi tão bem articulado é o outro extremo, o excesso de chuva”, afirmou Anna Lea Albright, que liderou a pesquisa como pós-doutoranda no Harvard University Center for the Environment.

Segundo estudo da Harvard University e da University of Ghana, o excesso de chuva na estação úmida, somado à seca na estação seca, explicou cerca de dois terços da variação anual da produção de cacau em Gana.

Como os pesquisadores separaram o clima de outros fatores

Para chegar ao resultado, a equipe reuniu duas décadas de dados distritais fornecidos pelo Ghana Cocoa Board, órgão governamental ligado ao setor. Como a produção havia crescido ao longo dos anos com a expansão das áreas cultivadas, os cientistas retiraram essa tendência de longo prazo. Assim, puderam observar melhor as diferenças entre uma safra e outra.

Depois, compararam essas oscilações com registros meteorológicos diários. Foram avaliados fatores como volume médio de chuva, temporais muito fortes, períodos secos, umidade do solo e extremos de temperatura. O padrão que melhor explicou as perdas foi formado pelas chuvas pesadas na estação úmida e pela escassez de água na estação seca.

O resultado não ficou restrito a um único país. A equipe também analisou dados de Equador e Indonésia, dois grandes produtores de cacau em outros continentes. Nos dois casos, anos com chuvas mais intensas na estação úmida também tenderam a apresentar desempenho pior das lavouras.

O preço na prateleira começa muito antes da fábrica

Quando uma safra importante sofre, o efeito alcança a cadeia inteira. O preço do cacau cru triplicou em 2024, segundo o estudo, movimento que chegou ao consumidor na forma de chocolate mais caro, barras menores ou produtos com fórmulas alteradas.

O impacto não ocorre apenas porque choveu mais em determinado ano. O momento do temporal é decisivo. Grandes gotas podem atingir flores frágeis, enquanto a água lançada do solo para as vagens pode favorecer a transmissão de infecções. Por isso, uma média anual de chuva pode esconder o evento que realmente provocou a perda.

A equipe considera que previsões sazonais associadas a padrões climáticos de grande escala podem oferecer uma janela de preparação. Com aviso antecipado, produtores poderiam programar o controle de doenças para os períodos de maior risco e reforçar medidas de proteção das plantas.

Prevenção depende de previsão e manejo

Entre as possibilidades apontadas pelos pesquisadores estão o aumento da cobertura das copas, capaz de reduzir o impacto direto das gotas sobre as flores, e a conservação de folhas no solo. A camada de matéria vegetal pode ajudar a diminuir os respingos que carregam agentes infecciosos até as vagens.

Peter Huybers, autor sênior do trabalho e chefe do Departamento de Ciências da Terra e Planetárias de Harvard, afirmou que o objetivo é transformar a informação climática em tempo de resposta para os agricultores. A previsão, sozinha, não elimina a chuva, mas pode permitir que o manejo seja feito antes do dano.

Os padrões de chuva associados às perdas estão ligados a fenômenos climáticos maiores, como o El Niño e alterações na temperatura da superfície do Atlântico. O estudo cita que um El Niño forte estava em desenvolvimento no momento da publicação e que esse fenômeno costuma favorecer chuvas intensas no litoral do Equador, além de condições mais secas na África Ocidental e na Indonésia.

O que ainda limita a previsão para o cacau

Os próprios autores destacam que o clima não é o único problema enfrentado pelos produtores ganeses. Árvores envelhecidas, mineração de ouro, contrabando, custo de fertilizantes, pragas e doenças também podem reduzir a produção. Além disso, as bases meteorológicas nem sempre registram adequadamente os temporais mais fortes, justamente os eventos que parecem ter maior influência sobre a lavoura.

As projeções climáticas de longo prazo também enfrentam dificuldades para representar corretamente o regime de chuvas da África Ocidental. Se os modelos ainda têm limitações para descrever o clima atual, estimar como a distribuição das chuvas mudará nas próximas décadas se torna mais complexo.

Para leitores da Amazônia, a pesquisa ajuda a explicar por que a discussão sobre cacau não deve ser reduzida à ideia de um mundo mais quente. A produção tropical depende da combinação entre temperatura, umidade e calendário de chuvas. O trabalho analisou Gana, Equador e Indonésia, portanto não permite transferir diretamente seus resultados para áreas brasileiras, mas oferece um alerta sobre a importância de observar extremos e não apenas médias climáticas.

Os próximos passos dos pesquisadores incluem aprimorar sistemas de previsão capazes de antecipar os períodos de maior risco e transformar esse aviso em recomendações práticas de controle de doenças e proteção das plantas.

Com informações de Harvard University.

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