
Base global revela que o desafio não é usar mais ou menos adubo, mas corrigir excessos e carências em cada região.
Uma mesma recomendação de adubo não serve para todos os campos do planeta. Enquanto algumas regiões aplicam nutrientes em excesso, outras ainda usam tão pouco que deixam de alcançar parte do potencial de suas lavouras. Essa diferença está no centro de uma nova base de dados da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, que reúne informações sobre fertilizantes agrícolas em todos os países entre 1980 e 2022.
O levantamento foi desenvolvido ao longo de seis anos por Deepak Ray, professor de pesquisa do Institute on the Environment, em colaboração com Tek Sapkota, do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, e Achim Dobermann, da International Fertilizer Association. A análise foi publicada na revista Environmental Research Letters em 14 de setembro de 2026.
Um mapa mais detalhado do que chega ao solo
A equipe organizou cerca de 800 mil pontos de dados e criou um software de imputação para preencher lacunas nas séries históricas. Em termos simples, o programa estimou valores ausentes a partir das informações disponíveis, como quem recompõe um mapa usando vários fragmentos de diferentes períodos.
O resultado é uma série contínua com taxas de aplicação de nitrogênio, fósforo e potássio, os três principais nutrientes usados na fertilização agrícola. O conjunto cobre 156 culturas, além de pastagens e florestas, com recortes específicos por país e por tipo de cultivo.
Segundo a Universidade de Minnesota, a base global registra a evolução da aplicação de nitrogênio, fósforo e potássio em 156 culturas, pastagens e florestas entre 1980 e 2022. Antes desse trabalho, as informações existiam principalmente em levantamentos parciais ou retratos de determinados anos.
O problema muda conforme o lugar
O consumo mundial de fertilizantes pelo menos dobrou desde 1980. Esse crescimento, porém, não ocorreu de maneira uniforme. As taxas de aplicação de nitrogênio apresentam diferenças superiores a dez vezes entre as regiões que mais usam e aquelas que menos utilizam o nutriente.
O nitrogênio favorece o crescimento das plantas, o fósforo participa do desenvolvimento das raízes e o potássio ajuda em funções como o equilíbrio hídrico e a resistência dos vegetais. A necessidade de cada elemento varia conforme a cultura, o tipo de solo, o clima e a produtividade esperada.
Na prática, pouco fertilizante pode reduzir a colheita e a renda do produtor. Já o excesso não se transforma automaticamente em mais alimento. Parte dos nutrientes pode acidificar o solo, dificultar a absorção pelas plantas e ser carregada pela chuva para rios e lagos.
Quando o excesso também vira poluição
O escoamento de nutrientes para a água pode estimular a proliferação de algas. Quando esses organismos morrem e se decompõem, o oxigênio disponível diminui, criando áreas sem condições para a sobrevivência de peixes e outros seres aquáticos. Esse processo também pode contribuir para a formação de zonas mortas no oceano.
Outra parcela do nitrogênio aplicado pode se transformar em óxido nitroso. Esse gás de efeito estufa tem um potencial de aquecimento aproximadamente 300 vezes maior que o do dióxido de carbono, segundo os dados apresentados pela pesquisa.
A conclusão central do estudo é que o caminho mais eficiente não está em reduzir o uso de fertilizantes de forma generalizada. O objetivo é aproximar a quantidade aplicada da necessidade real de cada lavoura. A estratégia pode elevar a produção onde há carência e diminuir custos e emissões onde existe excesso.
China, Europa, Etiópia e Vietnã mostram movimentos opostos
O histórico reunido pelos pesquisadores identifica mudanças importantes em diferentes partes do mundo. Regiões da Europa que apresentavam aplicação elevada, e muitas vezes excessiva, no início dos anos 1980 passaram a reduzir as taxas. Partes da China, que estavam entre as áreas de uso intenso no começo dos anos 2000, também avançaram nessa direção.
O movimento foi diferente em países que partiam de níveis muito baixos. Etiópia e Vietnã aumentaram a utilização de fertilizantes ao longo das últimas quatro décadas. Na África Subsaariana, o uso continua mínimo em várias áreas, o que indica espaço para ampliar a produtividade por meio de uma nutrição mais adequada das plantas.
Esses exemplos ajudam a evitar uma leitura simplista dos números. Uma política que determine redução uniforme pode agravar a falta de nutrientes em comunidades agrícolas de baixa produtividade. Da mesma forma, ampliar indiscriminadamente o consumo em regiões que já aplicam muito pode aumentar despesas e danos ambientais sem entregar colheitas proporcionais.
O que a descoberta significa para a Amazônia
Para os estados da Amazônia Legal, o estudo oferece uma ferramenta de comparação, mas não uma receita pronta. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins têm combinações distintas de solos, chuvas, culturas e sistemas de produção. A recomendação adequada para uma área de grãos não necessariamente serve para pastagens ou para cultivos conduzidos por agricultores familiares.
A base também pode ajudar a discutir um dilema regional: como aumentar a produção em áreas já abertas sem ampliar a pressão sobre a floresta. O uso mais preciso de nutrientes pode ser parte dessa resposta, desde que venha acompanhado de análise de solo, assistência técnica e acompanhamento dos efeitos sobre rios e igarapés.
Esse ponto é especialmente relevante na Amazônia porque a chuva intensa pode transportar nutrientes pela paisagem, enquanto a distância até centros de comercialização encarece a compra de insumos. A pesquisa não apresenta uma taxa única para a região, mas permite que estudos locais comparem padrões e identifiquem onde existe desperdício ou falta de fertilização.
Dados abertos para orientar decisões
O conjunto completo de dados e o software usado para completar as informações estão disponíveis gratuitamente para pesquisas acadêmicas por meio da área de comercialização tecnológica da Universidade de Minnesota. Uma versão resumida, com dados próximos de 2020, também foi arquivada em acesso aberto na plataforma Dryad.
Para governos, pesquisadores e organizações agrícolas, o valor do material está na possibilidade de cruzar o uso de fertilizantes com produtividade, emissões e qualidade da água. Para o produtor, a aplicação prática depende de transformar esse panorama global em recomendações locais, baseadas em análise do solo e nas exigências de cada cultura.
Os próximos passos são usar a base para formular estratégias específicas de manejo, reduzir importações e emissões onde houver excesso e ampliar o acesso à nutrição vegetal onde a falta de fertilizantes limita as colheitas.
Com informações da Universidade de Minnesota.
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