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Baleia-jubarte fica dois dias junto ao filhote natimorto e levanta pistas sobre comportamento parecido com luto

Baleia-jubarte fica dois dias junto ao filhote natimorto e levanta pistas sobre comportamento parecido com luto
Foto: James Woodford

Registro inédito na costa australiana mostra a mãe tocando e acompanhando o filhote, mas pesquisadores evitam chamar a reação de luto.

Durante dois dias, uma baleia-jubarte permaneceu rondando o corpo do próprio filhote no fundo do mar, em uma cena que os pesquisadores nunca tinham conseguido registrar nessa espécie. O episódio ocorreu em 17 de julho de 2025, a cerca de um quilômetro da costa de Gold Coast, em Queensland, na Austrália, e envolveu uma fêmea que havia acabado de dar à luz um filhote natimorto.

O comportamento chamou atenção porque a mãe mergulhava repetidamente até o animal, encarava o corpo e o tocava com a cabeça e a nadadeira peitoral. Um segundo adulto também ficou nas proximidades durante a observação inicial. A equipe descreveu a reação como semelhante a comportamentos já vistos em elefantes e em algumas baleias dentadas, mas ressaltou que não é possível afirmar que o animal tenha experimentado luto no sentido humano.

Uma cena registrada desde o início

Andrew Mulville, da Sea World Foundation, estava em uma embarcação quando percebeu duas baleias adultas circulando no mesmo ponto, mergulhando, vocalizando e voltando à superfície. Pouco depois, por volta das 8h30, ele identificou uma membrana amniótica flutuando na água, sinal de que um nascimento havia ocorrido.

O detalhe que preocupou o observador foi a ausência de sangue e placenta. Com uma câmera subaquática, Mulville localizou o filhote sobre o leito arenoso. O animal tinha menos de quatro metros de comprimento e estava morto. A mãe se aproximava, descia até ele e mantinha contato físico, mas não tentava empurrá-lo para a superfície.

Em partos bem-sucedidos, a baleia-jubarte costuma ajudar o recém-nascido a respirar, mantendo-o próximo à superfície. A falta dessa tentativa pode indicar que a fêmea percebeu que o filhote não estava vivo, embora essa interpretação ainda seja uma hipótese baseada no comportamento observado.

Por que o registro é raro

Casos de mães que permanecem junto a filhotes mortos já foram relatados entre baleias dentadas, como orcas e golfinhos. Nas baleias de barbatanas, grupo que inclui as jubartes, esse tipo de observação é muito menos comum. Segundo o estudo publicado na revista Discover Animals, o episódio é o primeiro registro conhecido de uma baleia-jubarte interagindo com um filhote natimorto logo após o nascimento.

Olaf Meynecke, da Griffith University, participou da análise e pediu cautela na interpretação. Para ele, o caso não permite transformar automaticamente a reação em uma prova de luto, mas mostra uma mudança de comportamento intensa depois da perda, algo que também aparece em outros mamíferos sociais.

“É realmente importante não humanizar um encontro como esse”, afirmou Meynecke. “Mas também é preciso entender que se trata de um mamífero e que temos evidências de uma mudança dramática de comportamento.”

Segundo a revista Discover Animals, a baleia-jubarte foi observada junto ao filhote natimorto em 17 de julho de 2025, na costa de Gold Coast, Queensland, Austrália.

O que aconteceu nos dias seguintes

Mulville acompanhou os dois adultos durante cerca de duas horas. Nesse intervalo, a mãe continuou mergulhando até o corpo e permaneceu na área imediata. Nos dois dias seguintes, pessoas que estavam em terra relataram ter visto as duas baleias no mesmo local.

A permanência prolongada é um dos pontos que sustentam a comparação com comportamentos de cuidado e perda observados em outros animais. Ainda assim, uma única ocorrência não permite saber se a fêmea estava demonstrando uma emoção específica, tentando compreender o que havia acontecido ou simplesmente respondendo a estímulos físicos e sociais do ambiente.

Rebecca Dunlop, da University of Queensland, também alertou que relatos de caso podem levar à antropomorfização, quando sentimentos humanos são atribuídos a animais sem evidência suficiente. Para testar a hipótese de uma resposta emocional, seriam necessários mais registros e uma base de comparação maior.

Sete filhotes mortos na mesma região

O episódio ganhou peso porque outros animais mortos foram encontrados em Queensland no mesmo mês. Em julho de 2025, foram observados sete filhotes recém-nascidos mortos e uma baleia jovem de idade não confirmada. Nenhum deles parecia ser o filhote visto pela equipe, mas a concentração de ocorrências levantou dúvidas sobre as condições enfrentadas pelas jubartes na região.

Também não está claro por que um número crescente de fêmeas passou a dar à luz centenas de quilômetros ao sul das áreas tradicionais de reprodução próximas à Grande Barreira de Corais. O aumento de nascimentos no sul de Queensland acompanha o crescimento da população local, mas as razões da mudança de rota e de escolha do local de parto ainda não foram esclarecidas.

A ausência da placenta foi outro sinal considerado incomum pelos pesquisadores. Meynecke avaliou que essa retenção poderia representar risco para a mãe, mas o registro não permite determinar se houve complicações relacionadas ao parto nem qual teria sido a causa da morte do filhote.

O que o caso ensina para quem observa a fauna

As fotografias da nadadeira caudal da fêmea, conhecida como cauda ou fluke, foram incluídas em um banco de dados com 16 mil indivíduos. A expectativa é reconhecer o animal se ele voltar à região em temporadas futuras. Uma nova observação poderia indicar se o comportamento foi isolado ou se faz parte de uma resposta que se repete em situações semelhantes.

Para leitores da Amazônia, o caso ajuda a dimensionar como o monitoramento de animais marinhos depende de registros feitos por pesquisadores, pescadores, turistas e moradores da costa. A cena aconteceu na Austrália e não permite concluir nada sobre as populações que passam pelo litoral brasileiro, mas mostra como fotografias, identificação individual e relatos padronizados podem revelar problemas que não aparecem em levantamentos pontuais.

O estudo completo está disponível no artigo científico publicado pela revista Discover Animals. A identificação futura da baleia e novos registros serão importantes para separar uma ocorrência excepcional de um padrão de comportamento ainda pouco documentado.

Com informações de Discover Animals.

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