Após o fechamento de Marineland, 34 cetáceos foram transferidos e o destino dos sobreviventes expôs um dilema

Após o fechamento de Marineland, 34 cetáceos foram transferidos e o destino dos sobreviventes expôs um dilema
Foto: Jason Bruck

A experiência canadense mostra por que trocar tanques por cercados no mar não garante bem-estar aos animais.

Quando um parque marinho fecha, o problema não termina com a retirada dos visitantes. Ele passa a existir todos os dias, na alimentação, no tratamento veterinário e na escolha do ambiente mais seguro para animais que podem nunca ter vivido no oceano. Foi esse o desafio deixado pelo Marineland Canada, em Niagara Falls, depois do encerramento das atividades em setembro de 2024, com 30 belugas e quatro golfinhos ainda sob seus cuidados.

A saída encontrada foi uma operação internacional conduzida pela Association of Zoos and Aquariums, que coordenou a transferência dos animais para instalações nos Estados Unidos e na Espanha. O caso ganhou novo peso em setembro de 2026, quando as últimas belugas deixaram o antigo parque. Nesse intervalo, uma beluga que já estava nos Estados Unidos e outras três transferidas para o país morreram. Uma quinta morreu em uma instalação espanhola.

O fechamento transformou os animais em uma decisão de bem-estar

Sem a receita regular do parque, manter os cetáceos exigia uma solução de longo prazo. A discussão pública se concentrou nos chamados santuários marinhos, grandes áreas cercadas por redes no oceano. A proposta parece intuitiva: oferecer mais espaço, água natural e contato com condições ambientais próximas das encontradas em liberdade.

O problema é que um santuário não equivale a uma soltura. Os animais continuam confinados por redes, dependem de seres humanos para receber alimento e atendimento médico e precisam ser acompanhados diante de doenças, mudanças climáticas, predadores e alterações no grupo social. Em uma área extensa, uma emergência também pode ficar mais difícil de detectar e atender.

O conceito envolve mais do que o local onde o animal nada. As diretrizes internacionais associadas ao modelo costumam incluir a interrupção da reprodução, a redução do contato humano e uma estrutura de financiamento sem fins lucrativos. O guia de padrões para santuários de cetáceos detalha critérios usados para discutir esse tipo de cuidado.

Mais espaço não resolve todos os problemas

Para uma beluga nascida em um tanque, o mar pode representar uma mudança radical. A química da água, as correntes, os sons subaquáticos, o clima e a presença de parasitas são diferentes. A malha de proteção pode permitir a entrada de agentes infecciosos e, em caso de emaranhamento, o resgate pode ser mais demorado.

O atendimento diário também muda de escala. Um cercado de 100 acres, equivalente a cerca de meio quilômetro quadrado, oferece uma área muito maior do que uma piscina, mas torna mais complexos os exames, a observação do comportamento e o controle dos contatos entre os animais.

Segundo The Conversation, em setembro de 2026, as últimas belugas transferidas do Marineland Canada haviam deixado o parque, depois de uma operação internacional iniciada após o fechamento da instalação em 2024. O dado resume a dimensão logística do caso, mas não responde à pergunta principal: qual ambiente atende melhor cada indivíduo?

O que os estudos indicam sobre o ambiente ideal

Uma pesquisa com mais de 200 animais de três espécies, distribuídos em 43 zoológicos e aquários credenciados, avaliou atividade, uso do habitat, diversidade de comportamentos, hormônios relacionados ao estresse e outros indicadores biológicos. Os pesquisadores também analisaram treinamento, enriquecimento, relações sociais e características dos espaços.

Após o fechamento de Marineland, 34 cetáceos foram transferidos e o destino dos sobreviventes expôs um dilema
Foto: Jason Bruck

O resultado contrariou uma associação automática entre área maior e bem-estar melhor. O tamanho do habitat não foi o principal indicador. A companhia de outros cetáceos e de profissionais, além da variedade de estímulos oferecidos, apresentou relação mais forte com o estado dos animais.

Isso não significa que todo animal mantido sob cuidados humanos esteja bem, nem que piscinas sejam sempre superiores a cercados no mar. A conclusão é mais específica: a qualidade de vida depende de várias condições combinadas, e a resposta precisa ser medida individualmente.

Experiências anteriores deixaram alertas

O projeto The Whale Sanctuary Project, na Nova Escócia, ainda buscava financiamento após uma década e não havia construído o cercado oceânico planejado de 100 acres. O National Aquarium, em Baltimore, também anunciava há cerca de dez anos a intenção de transferir seus animais para um santuário, sem concluir a mudança.

Na Islândia, as belugas Little White e Little Grey, vindas de um aquário chinês, tiveram dificuldades de adaptação. Uma revisão publicada em 2025 indicou que elas passaram 92,6% do tempo em uma piscina interna convencional, em vez do cercado marinho. No santuário, foram observados comportamentos associados ao estresse e problemas de alimentação. Uma delas desenvolveu úlceras.

Esses episódios não provam que o modelo seja inviável. Eles indicam que a construção, o financiamento e a operação são difíceis, e que os animais não necessariamente se adaptam ao novo ambiente. O custo também pesa. A tentativa de manter Keiko, a orca conhecida pelo filme Free Willy, em um cercado marítimo custou cerca de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões durante aproximadamente cinco anos.

A decisão também interessa à Amazônia

O debate tem conexão direta com a Amazônia por outro caminho. Nos rios da região vivem botos-cor-de-rosa e tucuxis, enquanto a costa amazônica abriga golfinhos marinhos. Embora essas espécies não sejam equivalentes às belugas canadenses, o princípio é semelhante: resgate, reabilitação e transferência precisam considerar a história, a saúde, o comportamento e as relações sociais de cada animal.

Para instituições de pesquisa, órgãos ambientais e projetos de fauna nos estados amazônicos, a experiência canadense reforça uma cautela importante. Um ambiente mais amplo ou mais próximo da natureza não é automaticamente adequado. A qualidade da água, a possibilidade de monitoramento, a disponibilidade de veterinários, a alimentação e a capacidade de resposta a emergências são partes do bem-estar.

A recomendação defendida pelo biólogo Jason Bruck, autor da análise publicada no The Conversation, é estabelecer uma linha de base antes de qualquer transferência. Saúde, comportamento, vínculos sociais e sinais de estresse devem ser registrados e acompanhados depois da mudança. Se os indicadores piorarem, o plano precisa permitir uma reversão rápida, com piscinas de apoio e recursos financeiros para vários anos.

O próximo passo para futuros santuários será demonstrar, antes da abertura, como os animais serão introduzidos, quais métricas definirão sucesso e de que forma pesquisadores independentes e o público poderão acompanhar os resultados.

Com informações de The Conversation.

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