
Vídeo de Heidi e estudo de 2023 mostram que o sono ativo dos polvos envolve cérebro, pele e movimentos complexos.
Uma polvo pode parecer adormecida e, ainda assim, transformar o próprio corpo em uma pequena tela em movimento. Foi o que aconteceu com Heidi, uma polvo-de-dia filmada durante o sono: seu corpo passou do claro ao escuro, exibiu desenhos na pele e alterou a textura sem que ela despertasse. A cena, registrada no documentário da PBS Nature de 2019, ganhou uma nova camada depois que pesquisas sobre o cérebro desses animais mostraram que o sono dos polvos pode incluir períodos de intensa atividade.
Heidi parecia caçar sem sair do lugar
Na gravação, a bióloga marinha David Scheel narra as mudanças como se Heidi estivesse reconstruindo uma caçada. A interpretação imaginada é cinematográfica: a polvo teria localizado um caranguejo, avançado sobre ele, capturado a presa e depois se camuflado para comer.
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Sorriso de cães, gatos e chimpanzés pode esconder medo, alerta ou cansaço, e não apenas felicidadeEssa leitura não pode ser tratada como prova de um sonho. Não existe, até agora, uma maneira de observar um padrão de cor e afirmar qual imagem ou experiência está passando pela mente de um polvo. O que a cena revela, porém, é que o animal continua produzindo sinais corporais complexos mesmo durante o descanso.
O sono ativo muda a leitura do comportamento
Pesquisadores identificam pelo menos dois estados de sono nesses animais. No sono considerado tranquilo, os polvos costumam ficar mais pálidos e imóveis. Já durante breves períodos de sono ativo, podem mudar rapidamente de cor e de textura, movimentar os olhos, contrair o corpo e apresentar desenhos semelhantes aos usados quando estão acordados.
Segundo a pesquisa cerebral publicada em 2023, polvos apresentam atividade no cérebro durante o sono ativo semelhante à observada quando estão despertos, inclusive em regiões ligadas à aprendizagem e à memória. Esse dado torna plausível a existência de experiências parecidas com sonhos, mas não permite dizer que os animais sonham da mesma forma que os seres humanos.

A frase mais segura, portanto, é esta: segundo o estudo de 2023, o sono ativo dos polvos envolve atividade cerebral relacionada à aprendizagem e à memória, além de mudanças rápidas de cor e textura observadas durante o descanso.
Como a pele produz tantas cores
A transformação acontece graças a estruturas especializadas da pele chamadas cromatóforos. Cada uma funciona como uma pequena bolsa elástica cheia de pigmento, ligada a músculos e nervos. Quando os músculos se contraem, a bolsa se expande e o pigmento fica mais visível. Quando relaxam, ela diminui.
O efeito final não depende apenas dos cromatóforos. Iridóforos e leucóforos ajudam a refletir a luz e acrescentam outras tonalidades. O polvo também consegue erguer ou achatar pequenas saliências chamadas papilas, modificando a superfície do corpo. Assim, uma pele lisa pode ganhar a aparência irregular de uma rocha, de um pedaço de coral ou do fundo arenoso.
O mecanismo é explicado em detalhes neste guia sobre cromatóforos e mudança de cor em polvos e lulas.
Camuflagem, ameaça e comunicação no fundo do mar
Durante a vigília, a mudança de aparência serve a mais de uma finalidade. Como são animais de corpo mole e não possuem uma concha externa rígida, muitos polvos dependem da camuflagem para se esconder entre pedras, corais e sedimentos. A cor pode acompanhar o ambiente, enquanto a textura ajuda a quebrar o contorno do corpo.

A pele também pode produzir sinais mais visíveis. Mudanças rápidas aparecem em situações de ameaça, durante a caça ou nas interações com outros animais. Algumas espécies levam essa estratégia a outro nível. O polvo-mímico, por exemplo, altera cor, postura e movimento para assumir a aparência de animais como peixe-leão, linguado e serpente-marinha.
O caranguejo combina com a dieta de Heidi
Existem aproximadamente 300 espécies conhecidas de polvo, distribuídas em ambientes marinhos que vão de poças de maré e recifes rasos às regiões profundas do oceano. O tamanho também varia muito: há espécies pequenas o bastante para caber na ponta de um dedo, enquanto o polvo-gigante-do-Pacífico pode ultrapassar 4 metros de envergadura dos braços.
Esses animais são predadores, mas a alimentação muda conforme a espécie, o tamanho e o habitat. Caranguejos e outros crustáceos estão entre as presas comuns, ao lado de camarões, lagostas, mariscos, caracóis, peixes e, em alguns casos, outros cefalópodes. Por isso, a hipótese de uma caçada a caranguejo no possível sonho de Heidi não foi escolhida ao acaso. Ainda assim, continua sendo uma hipótese.
O que isso representa para a Amazônia
Para os leitores da Amazônia, a descoberta ajuda a lembrar que a biodiversidade regional não termina na floresta. Pará e Amapá têm litoral amazônico e ambientes costeiros conectados ao funcionamento do oceano, onde mudanças de habitat, pesca e disponibilidade de presas influenciam a vida marinha.
O caso também reforça por que observar apenas a aparência de um animal pode ser insuficiente. Uma mudança de cor pode significar camuflagem, ameaça, comunicação ou, durante o sono, uma atividade que ainda não sabemos interpretar. Em áreas costeiras amazônicas, reconhecer esses sinais contribui para valorizar a fauna marinha e evitar que comportamentos pouco compreendidos sejam tratados como simples curiosidade.
O que a ciência ainda precisa descobrir
A principal dúvida permanece aberta: os polvos sonham? A atividade cerebral registrada durante o sono ativo é compatível com essa possibilidade, mas não confirma o conteúdo de nenhuma experiência interna. Também não é possível afirmar que Heidi estava lembrando de um caranguejo, reproduzindo uma caçada ou apenas ativando circuitos ligados à pele e ao movimento.
Novos estudos deverão comparar os sinais cerebrais, as mudanças corporais e os comportamentos apresentados antes e depois do sono. Até lá, o vídeo de Heidi funciona como uma janela para um fenômeno real: mesmo aparentemente adormecido, um polvo pode reorganizar cores, texturas e movimentos em poucos instantes.
Com informações de A-Z Animals.
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