
Relatório registra 105 assassinatos na América do Sul e relaciona a violência à disputa por terra e recursos naturais.
Em regiões onde uma estrada, uma mina ou uma frente de desmatamento pode alterar o destino de uma comunidade inteira, denunciar a destruição ambiental continua sendo uma atividade de alto risco. O relatório mais recente da organização Global Witness contabilizou 124 assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente no mundo, dos quais 105 ocorreram na América do Sul. Colômbia e Brasil aparecem no centro desse mapa de violência.
O levantamento foi divulgado em 16 de setembro de 2026 e mostra que a proteção de florestas, rios e territórios não é apenas uma pauta ecológica. Para pequenos agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais, ela está ligada à permanência no território, à segurança alimentar e ao direito de decidir como a terra será usada.
Dois países concentram mais da metade dos casos
A Colômbia registrou 39 mortes e liderou a estatística pelo quarto ano consecutivo. No Brasil, foram 26 assassinatos, mais que o dobro dos 12 casos contabilizados no período anterior. Somados, os dois países chegaram a 65 mortes, mais da metade do total mundial registrado pela entidade.
Segundo a Global Witness, 105 defensores ambientais foram mortos na América do Sul no período mais recente analisado, incluindo 39 na Colômbia e 26 no Brasil. A concentração regional não significa que o restante do continente esteja fora do problema, mas evidencia a intensidade dos conflitos em áreas onde terras produtivas, florestas e reservas de recursos naturais se sobrepõem.
A queda global do número de assassinatos não elimina o alerta. A organização registrou 142 mortes em 2024, contra 196 no ano anterior, mas ressalvou que os números reais provavelmente são maiores. Mortes em locais isolados, ameaças que não chegam às autoridades e dificuldades de investigação podem deixar casos fora das estatísticas.
A disputa começa antes do crime
Mais da metade dos assassinatos documentados pela Global Witness esteve relacionada a conflitos fundiários. O padrão descrito no relatório aparece em territórios marcados por reivindicações sobrepostas, concentração de propriedades e abertura de novas áreas para atividades econômicas.
Mineração, extração de matérias-primas, exploração madeireira e agricultura são citadas entre os setores presentes nessas disputas. O conflito, portanto, não nasce necessariamente quando ocorre o assassinato. Ele costuma avançar por uma sequência de pressão sobre a comunidade, intimidação, invasão, ameaça e, em alguns casos, violência letal.
A entidade também identificou indícios de ligação com o crime organizado ou com matadores contratados em mais de um terço dos casos mundiais. Essa informação não transforma automaticamente cada ocorrência em crime organizado comprovado, mas aponta para a presença de estruturas capazes de ampliar a capacidade de ameaça contra quem denuncia a ocupação ilegal ou a degradação ambiental.
Quem aparece na linha de frente
Mais de três quartos das vítimas eram pequenos agricultores, integrantes de povos indígenas ou pessoas negras. A composição das vítimas revela uma desigualdade decisiva: os grupos mais expostos são justamente aqueles que dependem diretamente da terra e dos recursos naturais, mas costumam ter menos acesso à proteção estatal, à Justiça e aos meios de comunicação.
Na prática, um defensor ambiental nem sempre é um ativista conhecido ou integrante de uma organização formal. Pode ser uma liderança comunitária que impede a entrada de invasores, um agricultor que contesta a tomada de sua área, uma pessoa indígena que monitora o próprio território ou alguém que denuncia a poluição de um rio.
O relatório descreve essas pessoas como os olhos e ouvidos das comunidades diante da destruição dos ecossistemas. Quando a violência as silencia, desaparece também uma fonte local de informação sobre desmatamento, contaminação e avanço de atividades ilegais.
O impacto para a Amazônia brasileira
A conexão com a Amazônia é direta porque parte importante dos conflitos citados ocorre em áreas de floresta e de expansão de atividades extrativas. No Brasil, isso envolve comunidades que vivem em territórios pressionados por desmatamento, mineração, exploração madeireira e avanço agropecuário. A mesma lógica alcança países amazônicos vizinhos, como Colômbia e Peru, ainda que o levantamento apresentado não detalhe todos os casos por estado ou por bioma.
Para os nove estados da Amazônia Legal, o alerta tem uma consequência concreta: políticas de combate ao desmatamento dependem também da proteção das pessoas que identificam o crime no território. Fiscalização remota, imagens de satélite e operações oficiais são importantes, mas não substituem a informação de quem mora na área afetada.
Essa dependência cria uma contradição. A sociedade precisa de denúncias locais para conhecer a destruição, enquanto os denunciantes podem se tornar alvos justamente por tornar visíveis interesses econômicos e disputas fundiárias. Sem investigação, regularização territorial e proteção, a defesa ambiental fica restrita à promessa de preservação no papel.
O que os números ainda não mostram
A contagem da Global Witness é um registro documentado, não um censo completo da violência. A própria organização afirma que a quantidade efetiva de mortes deve ser maior. Também é preciso separar mortes confirmadas de suspeitas sobre autoria e motivação, especialmente em regiões onde o Estado tem presença limitada.
Outra lacuna está nos efeitos anteriores ao assassinato. Ameaças, deslocamentos forçados, interrupção de atividades comunitárias e abandono de denúncias podem não aparecer na mesma base de dados. Esses episódios reduzem a capacidade de resistência dos moradores e podem favorecer a ocupação de áreas disputadas sem que um novo homicídio seja registrado.
O próximo passo indicado pelos dados é transformar a proteção dos defensores em política permanente, com resposta rápida a ameaças, apuração das mortes e solução das pendências sobre a posse da terra. Sem isso, a queda global observada entre os períodos analisados pode esconder a continuidade de uma violência concentrada nos territórios mais vulneráveis.
O relatório completo da organização pode ser consultado no estudo da Global Witness sobre defensores da terra e do meio ambiente.
Com informações de Global Witness.
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