
De Belém a Primavera, o que antes era problema ambiental virou oportunidade de negócio. As pilhas de caroço de açaí largadas em ruas, igarapés e lixões agora movem fornos industriais, ajudam a reduzir emissões de carbono e ainda abrem espaço para exportações.
O Pará é, de longe, o coração do açaí no Brasil. Só em 2024, foram 1,7 milhão de toneladas colhidas, segundo a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa). Mas o que muitos celebram como riqueza da floresta trazia um desafio: 80% a 85% do fruto vira resíduo após o processamento. O caroço, sem destino adequado, acumulava-se em montanhas de sacas pelas periferias de Belém.
Agora, esse rejeito está no centro de uma virada sustentável. Uma tonelada de caroço seco vale cerca de R$ 180 e já substitui o carvão mineral em indústrias pesadas.
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Pedro da Mata, fundador da empresa PHS da Mata, organiza a coleta em 50 processadoras da região metropolitana de Belém. São 30 caminhões e 60 funcionários em operação diária. Além das sobras das fábricas, a empresa recolhe as sacas abandonadas nas calçadas.
O material passa por secagem e fermentação natural de três meses antes de ganhar destino improvável: os fornos da Votorantim Cimentos. Na fábrica de Primavera, no nordeste do Pará, o caroço já responde por 64% da matriz energética.
“Antes havia montanhas desse resíduo por todos os lados. Agora, o caroço tem valor”, diz Pedro.
Impacto no clima e nos negócios
A indústria de cimento é um dos maiores emissores globais de CO2: 7% das emissões do planeta. Produzir uma tonelada de cimento gera, em média, 620 kg de dióxido de carbono. Na Votorantim, o índice já caiu para 550 kg/tonelada e a meta é chegar a 475 kg até 2030, validada pela Science Based Target initiative (SBTi), selo internacional que certifica planos corporativos de descarbonização.
O uso da biomassa do açaí ajudou a fábrica de Primavera a reduzir em 22% sua pegada de carbono. Ao todo, são 48 mil toneladas do caroço consumidas por ano.
O gerente global de sustentabilidade da empresa, Fábio Cirilo, explica: “Já conseguimos chegar a 70% de substituição em alguns processos, mas 100% é difícil. O coque de petróleo é homogêneo, enquanto a biomassa varia conforme a umidade. Mesmo assim, cada tonelada de carbono evitada faz diferença, principalmente em mercados onde o carbono tem preço.”
Na União Europeia, o custo para cumprir a regulação chega a 80 euros por tonelada de CO2. Por isso, usar biomassa, mesmo que mais cara, compensa.

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Do Pará para o mundo
O caroço de açaí não fica restrito ao Brasil. A PHS exportou o resíduo pela primeira vez em 2024 para Portugal e já tem embarques programados para a Espanha. Nos dois países, o material substitui combustíveis fósseis em indústrias enquadradas no mercado europeu de carbono.
Com o Brasil avançando na regulamentação de seu próprio sistema de comércio de emissões, a expectativa é de crescimento ainda maior na demanda por essa biomassa amazônica.
Inovação tecnológica e novos usos
Além da indústria cimenteira, pesquisadores da Universidade Federal do Pará vêm testando o uso do caroço de açaí em misturas de asfalto, transformando improviso em tecnologia.
O resíduo também representa alívio para empresas de alimentos, como a EcoFoods, que processa grandes volumes da fruta. “Tínhamos que pagar pelo descarte e muitas vezes os caroços iam parar em lixões ou rios. Hoje, transformamos um problema ambiental em ativo econômico”, afirma Maurício Nunes, diretor operacional da companhia.
Só a EcoFoods gera 150 toneladas de caroços por dia. Agora, tudo é reaproveitado, reduzindo o descarte irregular em Belém — cidade que ainda não cumpre integralmente a Política Nacional de Resíduos Sólidos — e diminuindo o envio para aterros sanitários.
Da Amazônia para a transição energética
O aproveitamento do caroço de açaí simboliza uma tendência maior: transformar passivos ambientais em soluções energéticas e econômicas. A biomassa amazônica não resolve sozinha o desafio das emissões da indústria pesada, mas mostra como cadeias produtivas locais podem se conectar a metas globais de descarbonização.
“O caroço de açaí é só o começo”, resume Cirilo. “A inovação em biomassa vai ser decisiva para a transição da indústria brasileira.”
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