
Estudo indica que gotículas de gordura nos rins ajudam a preservar a identidade química de cada gato.
Uma careta que parece uma mistura de nojo, surpresa e curiosidade pode estar ajudando a explicar como os gatos deixam uma espécie de assinatura química no ambiente. Ao observar a chamada resposta flehmen, expressão em que o animal abre a boca depois de cheirar algo, cientistas identificaram 13 ácidos graxos ligados à identidade individual da urina e encontraram uma possível explicação para um mistério dos rins felinos conhecido há mais de 100 anos.
O estudo foi realizado por uma equipe internacional e publicado na revista científica Current Biology, em 2026. Os pesquisadores investigaram gatos domésticos para entender como eles reconhecem a urina de indivíduos diferentes, por que alguns cheiros continuam identificáveis por longos períodos e qual pode ser a função das numerosas gotículas de gordura presentes nos rins desses animais.
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O primeiro passo foi confirmar se os gatos realmente conseguem diferenciar a urina de outros indivíduos. Para isso, os animais foram expostos repetidamente à mesma amostra. Com o tempo, passaram menos tempo cheirando aquele material, como se já não houvesse novidade na informação.
Quando os pesquisadores apresentavam urina de outro gato, porém, o interesse voltava. A resposta flehmen também aparecia com mais frequência diante de cheiros desconhecidos do que diante da própria urina. Em alguns casos, a redução da reação após a exposição repetida persistiu por meses, sugerindo que os gatos podem guardar uma memória duradoura dos odores individuais.
“Depois de confirmar que os gatos conseguem distinguir odores individuais da urina, usamos a resposta flehmen como uma pista para identificar moléculas urinárias que podem contribuir para esse reconhecimento”, explicou Masao Miyazaki, pesquisador principal do estudo, em declaração reproduzida no material científico.
Esse comportamento levou a equipe a examinar uma parte específica da composição da urina. Os cientistas encontraram 13 ácidos graxos de cadeia ramificada, conhecidos pela sigla BFA, presentes em uma fração de lipídios, ou gorduras, do líquido.
O que os rins têm a ver com o cheiro?
Para testar se essas moléculas realmente participavam do reconhecimento, os pesquisadores controlaram outros lipídios urinários e alteraram apenas a porção que continha os BFA. Gatos que já haviam se acostumado com uma amostra voltaram a cheirar por mais tempo quando encontraram um perfil químico associado a outro animal.
Segundo Current Biology, o estudo identificou em 2026, em gatos domésticos, 13 ácidos graxos de cadeia ramificada associados a diferenças individuais no odor da urina e também detectou esses compostos nos rins, mas não nos demais tecidos analisados.
A descoberta ganhou importância porque os compostos apareceram nos rins, justamente em um órgão que há mais de um século intriga os cientistas. Os rins dos gatos são repletos de gotículas de gordura, mas a função biológica dessa característica permanecia sem explicação clara.
A hipótese apresentada é que essas gotículas funcionem como um reservatório. Elas poderiam armazenar lipídios que contêm os ácidos graxos e liberá-los gradualmente na urina. Assim, a assinatura química de um gato não mudaria completamente a cada alteração na dieta, no estado de saúde ou em outras condições de curto prazo.
Entenda o caso
Gatos usam sinais químicos para obter informações sobre outros animais, principalmente em marcas de urina e secreções corporais. A resposta flehmen ajuda a levar moléculas odoríferas a uma estrutura especializada ligada à análise de sinais químicos.
No novo estudo, a reação comportamental foi usada como indicador de que os animais perceberam uma mudança no odor. A associação entre o comportamento, os ácidos graxos e os rins sustenta uma hipótese, mas não encerra a investigação sobre o funcionamento dessas gotículas.
Um sistema que pode existir em outros felinos
A equipe também encontrou compostos relacionados na urina de leões, tigres, leopardos, onças-pintadas, linces e gatos-de-Iriomote. A presença em diferentes integrantes da família dos felinos indica que o mecanismo pode ser amplo, embora tenha se diversificado ao longo da evolução de cada espécie.
Essa possibilidade é especialmente interessante para a conservação de animais difíceis de observar. Se os perfis químicos da urina forem estáveis e individuais, pesquisadores poderão acompanhar a presença e o deslocamento de felinos selvagens sem capturá-los ou sequer enxergá-los diretamente.
Na Amazônia, a aplicação mais evidente seria o monitoramento de onças-pintadas e de outros felinos em áreas extensas dos estados do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso. A técnica ainda não está pronta para substituir métodos de campo, mas poderia complementar armadilhas fotográficas, análise genética e rastreamento de marcas.
Também há possíveis aplicações domésticas. O conhecimento sobre os lipídios responsáveis pelo odor pode contribuir, no futuro, para formas mais eficientes de controlar o cheiro da urina de gatos. Além disso, a pesquisa pode ajudar a distinguir quando o armazenamento de gordura nos rins é uma característica normal e quando uma acumulação semelhante pode indicar doença.
O que ainda falta descobrir
Os cientistas ainda precisam explicar exatamente como os lipídios armazenados nos rins chegam à urina e se os perfis de ácidos graxos permanecem estáveis durante toda a vida de um animal. Também será necessário testar um número maior de indivíduos, diferentes condições de saúde, dietas variadas e populações selvagens.
O estudo não demonstra que os rins sejam a única origem da identidade química da urina. Ele apresenta evidências de que podem atuar como um reservatório importante, ajudando a manter relativamente constante o conjunto de moléculas que cada gato deixa no ambiente.
O comunicado relacionado à pesquisa está disponível no material sobre o estudo publicado pela equipe científica. Os próximos trabalhos devem investigar a estabilidade desses perfis químicos ao longo do tempo e avaliar se eles podem apoiar o monitoramento não invasivo de felinos ameaçados.
Perguntas frequentes
O que é a resposta flehmen?
É a expressão em que o gato abre a boca, geralmente depois de cheirar algo. O comportamento ajuda o animal a analisar sinais químicos presentes no odor.
Por que a urina de cada gato pode ter um cheiro diferente?
O estudo relacionou essa diferença a 13 ácidos graxos de cadeia ramificada. Esses compostos variam entre indivíduos e podem permanecer relativamente estáveis no mesmo animal.
A descoberta já pode ser usada para proteger onças na Amazônia?
Ainda não. A pesquisa aponta uma possibilidade para o futuro, mas são necessários novos estudos com felinos selvagens e em condições naturais.
Com informações de Current Biology.
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