Drones silenciosos flagram tigre macho cumprimentando filhotes e tigresa cuidando de cria alheia em documentário filmado no Nepal

Drones silenciosos flagram tigre macho cumprimentando filhotes e tigresa cuidando de cria alheia em documentário filmado no Nepal
Foto: THEPALMER via Getty Images

Imagens inéditas de ‘Tiger Island’ sugerem que os grandes felinos têm uma vida familiar mais complexa do que a ciência supunha.

Um tigre macho se aproxima dos filhotes e balança a cabeça, num gesto de cumprimento, enquanto a mãe descansa por perto. A cena, que pouca gente imaginaria ver entre animais conhecidos pela vida solitária, foi registrada no Nepal para o documentário Tiger Island, série em duas partes da PBS Nature que acompanha duas famílias de grandes felinos.

Segundo o biólogo e cineasta Dan O’Neill, que contribuiu com a produção, é a primeira vez que uma “família” de tigres é documentada passando tempo junta. Até agora, acreditava-se que as fêmeas criavam os filhotes por até dois anos sem qualquer ajuda do macho.

“Não sabemos nada sobre eles”

Para O’Neill, a sequência mostra o tamanho da lacuna no conhecimento científico. “It just shows that we really know nothing about them”, disse ele à Live Science, numa fala que pode ser traduzida como “isso só mostra que não sabemos nada sobre eles”. Ele completou: “And they’re so much more complex than people realize.”

O biólogo afirma que as pessoas costumam ter ideias muito rígidas sobre como esses animais vivem. A natureza, segundo ele, é “diverse and ever-changing”, ou seja, diversa e em constante mudança, e os tigres não fogem à regra.

Uma tigresa cuidando da cria de outra

Em outra cena do documentário, uma fêmea cuida dos filhotes de outra tigresa. O comportamento chama atenção por causa de um risco conhecido: machos de tigre, assim como os leões, às vezes matam filhotes, prática chamada de infanticídio, especialmente quando um novo macho assume um território.

O’Neill sugere que permitir que outra fêmea cuide das crias pode ajudar mais filhotes a chegar à vida adulta. Já houve observações anteriores de fêmeas dividindo os cuidados com filhotes de outras, mas o evento é raro.

Como as câmeras chegaram tão perto

A equipe usou drones com lentes de zoom óptico potente e hélices silenciosas, o que permitiu observar os animais em locais de difícil acesso sem incomodá-los. As armadilhas fotográficas tradicionais costumam flagrar bichos apenas ao longo de trilhas, deixando boa parte da vida privada deles fora do quadro.

Segundo O’Neill, as hélices dos drones eram mais silenciosas do que as abelhas locais da região das filmagens. Isso garantiu imagens espontâneas dos tigres em suas rotinas.

Tigres vivem perto de gente

Embora sejam animais solitários, os tigres (Panthera tigris) muitas vezes vivem perto de comunidades humanas ou dividem o habitat com elas. Isso significa que, por vezes, atacam pessoas e matam animais de criação. “It would be absolutely naive and wrong to suggest that they don’t happen”, afirmou O’Neill sobre os ataques, em tradução livre: “seria absolutamente ingênuo e errado sugerir que eles não acontecem”.

Por isso, defende ele, a conservação precisa considerar as situações em que gente e felinos se encontram, em vez de tratar as comunidades humanas como algo separado da vida selvagem.

O que isso diz sobre a Amazônia

O raciocínio vale para outros grandes felinos. O’Neill é pesquisador da organização Panthera, dedicada à conservação de felinos selvagens, e passou anos estudando onças-pintadas, pumas e leopardos-das-neves. A onça-pintada é o maior felino das Américas e habita a Amazônia, onde o convívio com comunidades ribeirinhas, agricultores e pecuaristas também gera conflitos.

Segundo o biólogo, a imagem popular desses animais vivendo em áreas remotas esconde o quanto o território deles se sobrepõe ao das pessoas. Para ele, conservar exige mais do que estudar o comportamento dos bichos ou proteger o habitat: é preciso ajudar quem arca com o custo de viver ao lado desses grandes predadores. “Helping those people is how you help tiger conservation”, disse, ou seja, ajudar essas pessoas é como se ajuda a conservação dos tigres.

Nos Estados Unidos, a segunda parte de Tiger Island vai ao ar na quarta-feira, 28 de outubro, às 0h30, no canal PBS.

Com informações de Live Science.

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