Filhote de macaco-prego todo branco aparece no Ceará, primeiro caso de leucismo registrado no gênero; achado acende alerta sobre parentes se cruzando

Filhote de macaco-prego todo branco aparece no Ceará, primeiro caso de leucismo registrado no gênero; achado acende alerta sobre parentes se cruzando
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) adulto de coloração normal. Foto: Tiago Falótico, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Pesquisadores que verificavam gravadores acústicos no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará, se depararam com algo inesperado: um filhote de macaco-prego com os pelos brancos. Era o primeiro registro de leucismo em macacos-prego do gênero Sapajus, que reúne sete espécies. O caso foi descrito em fevereiro de 2026 na revista científica Primates.

O animal é um filhote de Sapajus libidinosus, o macaco-prego mais comum no Nordeste brasileiro, famoso por usar pedras como ferramentas para quebrar cocos e sementes.

Um segundo macaco diferente

Depois de filmar o filhote branco, a equipe encontrou um segundo indivíduo com manchas claras no pelo, uma alteração mais discreta que também pode estar ligada ao leucismo. Segundo o primatólogo Tiago Falótico, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, um dos autores, isso levou os pesquisadores a pensar que a população pode estar fragmentada e com pouca variabilidade genética.

No artigo, os autores ponderam que um único animal leucístico não indica, por si só, risco para a saúde da população. Mas dois indivíduos com padrões anormais de cor no mesmo grupo justificam monitorar se esses casos aumentam, o que poderia sinalizar um gargalo genético ou fragmentação do habitat.

Leucismo não é albinismo

No albinismo, falta melanina no corpo inteiro, inclusive nos olhos. No leucismo, só os pelos ou as penas perdem a cor, e os olhos mantêm a pigmentação normal. A condição é causada por alterações genéticas e pode ficar mais comum quando parentes próximos se reproduzem entre si, a chamada endogamia, algo mais provável em populações pequenas e isoladas.

Uma ilha de floresta no semiárido

O Parque Nacional de Ubajara é o segundo menor do país, com cerca de 6 mil hectares, na Serra da Ibiapaba. Apesar de estar no domínio da Caatinga, abriga florestas úmidas com características da Mata Atlântica, mantidas pela altitude e pela umidade da serra. Para a fauna, funciona como uma ilha cercada de ambientes mais secos e de áreas ocupadas pelo homem.

Essa condição de ilha ajuda a entender o alerta. Se os macacos de Ubajara têm pouco contato com outras populações, a troca de genes diminui, e características raras ligadas a genes recessivos passam a aparecer com mais frequência.

Os macacos que usam ferramentas

Falótico é conhecido por estudar o uso de ferramentas de pedra por macacos-prego no Nordeste, como os da Serra da Capivara, no Piauí, onde os animais usam pedras como martelos e bigornas há pelo menos 3 mil anos, segundo pesquisas arqueológicas. A espécie é uma das mais inteligentes entre os primatas das Américas.

Riscos para o filhote branco

Na natureza, a pelagem branca pode deixar o animal mais visível para predadores, como aves de rapina, e mais sensível ao sol. Também pode afetar a forma como o grupo o trata. Acompanhar o filhote ao longo do tempo pode mostrar como ele se sai.

Perguntas frequentes

O que é leucismo?

É uma alteração genética que deixa pelos ou penas brancos, total ou parcialmente, mas mantém a cor normal dos olhos.

Macaco-prego branco é albino?

No caso de Ubajara, os pesquisadores classificaram o filhote como leucístico, e não albino.

Com informações do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e do estudo publicado na revista Primates.

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