Com só cerca de 400 na natureza, mico-leão-caiçara é seguido por cinco dias na restinga do Superagui e flagrado espiando do oco de uma árvore

Com só cerca de 400 na natureza, mico-leão-caiçara é seguido por cinco dias na restinga do Superagui e flagrado espiando do oco de uma árvore
Mico-leão-de-cara-preta no Parque Nacional do Superagui (PR). Foto: Gabriel Eloi Marchi, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Na restinga fechada do Parque Nacional do Superagui, no litoral norte do Paraná, um mico-leão-caiçara entrou desajeitado no oco de uma árvore e, segundos depois, pôs a cabeça para fora, como quem confere se ainda estava sendo observado. O registro foi feito pelo fotógrafo de conservação Gabriel Marchi, em outubro de 2026, durante uma expedição de cinco dias para reencontrar um grupo que tinha acabado de fazer história.

Três meses antes, em julho, esses micos-leões-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) se tornaram os primeiros da espécie vacinados contra a febre amarela. A captura, os exames e a vacinação foram conduzidos por pesquisadores da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), em área de restinga de Guaraqueçaba.

De volta ao monitoramento depois de 18 anos

Antes de devolver os animais à mata, a equipe instalou rádio-colares nos pequenos primatas. É a forma de saber por onde andam, como usam o território e se continuam saudáveis. Segundo a SPVS, a espécie não era acompanhada na natureza desde 2008.

Na nova expedição, feita com autorização da SPVS e guiada por dois moradores da região que já tinham orientado o trabalho de julho, o fotógrafo encontrou os micos se alimentando de coquinhos de jerivá e de frutos de guamirim, vocalizando e saltando entre os galhos. Em nenhum momento os animais tentaram arrancar o colar. O equipamento é estudado para não atrapalhar a mobilidade, e os micos seguiam a rotina normalmente depois da vacinação.

Correr para chegar antes deles

Fotografar um mico-leão-caiçara exige estratégia. Os animais se deslocam pela copa e dormem em ocos de árvores. A equipe precisava identificar para qual oco o grupo seguia e chegar antes, porque, assim que entram, desaparecem. Em um dos dias, o grupo andou mais de 15 quilômetros, entre bicicleta, trilha e banhado, enfrentando cipós com espinhos, mosquitos e formigas.

Um primata descoberto só em 1990

O mico-leão-caiçara é uma das quatro espécies de mico-leão, todas exclusivas da Mata Atlântica, e está entre os primatas mais raros do planeta. Só foi descrito pela ciência em 1990, pelas pesquisadoras brasileiras Maria Lúcia Lorini e Vanessa Guerra Persson, no Superagui. Também ocorre no extremo sul de São Paulo, na região de Cananéia e Ariri.

O nome é uma homenagem aos caiçaras, moradores tradicionais do litoral onde ele vive. A pelagem é dourada no corpo, com cabeça, braços e cauda pretos, o que explica o outro nome popular, mico-leão-da-cara-preta.

Em 2011, a população foi estimada em 392 indivíduos, em estudo publicado na revista científica Neotropical Primates. A estimativa usada hoje gira em torno de 400 animais vivendo livres.

Um canal que dividiu a população

A principal ameaça é a fragmentação do habitat. Nos anos 1950 foi aberto o canal do Varadouro, uma hidrovia artificial de cerca de seis quilômetros de extensão e 50 metros de largura que liga a baía de Cananéia, em São Paulo, às baías de Paranaguá e dos Pinheiros, no Paraná.

A obra separou a península do continente e criou a Ilha do Superagui. Os micos, que se deslocam pelas árvores e evitam atravessar água, ficaram divididos em subpopulações. Com o tempo, isso aumenta o cruzamento entre parentes e reduz a variabilidade genética, o que pode diminuir a capacidade da espécie de se adaptar a mudanças no ambiente e no clima.

Por que vacinar contra a febre amarela

Primatas da Mata Atlântica estão entre as maiores vítimas da febre amarela silvestre. Em surtos recentes no Sudeste, populações de bugios e micos-leões foram duramente atingidas. Para uma espécie que soma algumas centenas de indivíduos, um único surto pode ser devastador. Por isso a vacinação e o monitoramento com rádio-colar funcionam juntos: um protege, o outro confirma se a proteção está funcionando na prática.

Perguntas frequentes

Quantos micos-leões-caiçaras existem?

Cerca de 400 vivendo na natureza. A estimativa publicada em 2011 era de 392 indivíduos.

Onde vive o mico-leão-caiçara?

No Parque Nacional do Superagui, em Guaraqueçaba (PR), e no extremo sul de São Paulo, na região de Cananéia e Ariri.

O rádio-colar machuca o animal?

Não. O equipamento é dimensionado para não atrapalhar a mobilidade, e os micos monitorados não tentaram retirá-lo.

Com informações da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

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