
Levantamento da RAISG analisou Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela e simulou o futuro das reservas de carbono florestal.
As florestas protegidas da Amazônia concentraram a maior parte do carbono capturado pela região em 2023, enquanto uma simulação projetou redução da capacidade de captura até 2030 em um cenário de pouco ou nenhum controle sobre o desmatamento. O levantamento foi divulgado em 23 de outubro de 2025 pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, a RAISG.
A análise considerou Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, embora a rede reúna organizações de todos os países amazônicos. Segundo os dados apresentados, terras indígenas e Áreas Naturais Protegidas responderam por 61% do carbono florestal capturado na Amazônia em 2023. A projeção usada no estudo indica que a região poderia passar de mais de 85 bilhões de toneladas capturadas naquele ano para 82,257 bilhões em 2030. O resultado representa uma redução de 3,5% nesse cenário específico. A estimativa não descreve um destino inevitável, mas mostra como diferentes políticas de proteção podem alterar a função climática das florestas.
Territórios protegidos concentram a captura de carbono
A relação entre conservação territorial e captura de carbono aparece como o ponto central do levantamento. De acordo com a RAISG, os territórios protegidos abrigam as florestas mais conservadas da região amazônica e registram as menores taxas de desmatamento. Por isso, terras indígenas e Áreas Naturais Protegidas concentraram 61% do carbono florestal capturado em 2023 nos cinco países analisados.
O dado coloca esses territórios no centro das políticas de combate às mudanças climáticas. A proteção não é apresentada apenas como uma medida de conservação da biodiversidade, mas também como parte da manutenção de uma função ecológica que alcança toda a região. A rede defende políticas que articulem ciência e conhecimentos dos povos amazônicos, além do reconhecimento do papel de comunidades locais. Para os pesquisadores, preservar áreas que ainda mantêm cobertura florestal contínua ajuda a conservar árvores responsáveis por processos como crescimento, regeneração e fotossíntese, ligados à retenção e à captura de carbono.
Desmatamento reduziu a capacidade climática da floresta
O levantamento também compara a situação de 2023 com o início do período analisado. Segundo a RAISG, as florestas amazônicas deixaram de capturar 5,7 bilhões de toneladas de carbono em 2023 em relação ao ano 2000. A diferença corresponde a uma redução de 6,3% na capacidade de captura indicada pelo estudo.
Outra medida apresentada pela rede mostra a dimensão da transformação territorial ocorrida entre 1985 e 2023. Nesse intervalo, mais de 88 milhões de hectares de florestas que regulavam o clima global foram convertidos em terras agropecuárias, urbanas e mineradoras. A mudança não atingiu apenas as áreas que desapareceram. Conforme a análise, a fragmentação também causou danos às árvores remanescentes, afetando sua mortalidade, sua capacidade de regeneração e seus processos de fotossíntese. Esses efeitos reduzem o funcionamento da floresta como sistema de captura de carbono, mesmo quando parte da cobertura vegetal permanece de pé.
Simulação projeta queda para 82,257 bilhões de toneladas
Para avaliar possíveis trajetórias futuras, a RAISG e o Woodwell Climate Research Center desenvolveram o estudo no projeto Ciência e Saber Indígena pela Amazônia. Os pesquisadores utilizaram a Dinâmica Ego, uma plataforma gratuita de modelagem ambiental, combinada com dados atuais de monitoramento por satélite. A ferramenta foi usada para projetar três cenários para as reservas de carbono.
O cenário detalhado no levantamento considera uma situação em que os governos adotariam pouco ou nenhum controle sobre o desmatamento. Nesse caso, o avanço de agricultura, pecuária, infraestrutura e mineração levaria a Amazônia a capturar 82,257 bilhões de toneladas de carbono em 2030, contra mais de 85 bilhões em 2023. A diferença equivale a uma redução de 3,5%. Como se trata de uma simulação, o número depende das condições definidas no modelo e não representa uma medição já realizada. A consequência indicada pelo título é essa perda projetada de capacidade de captura, associada ao cenário de proteção insuficiente.
Proteção, economia de baixa emissão e participação local
Entre as recomendações, a rede propõe políticas capazes de eliminar o desmatamento, os incêndios florestais e o avanço de atividades ilegais e crimes ambientais no bioma. Também defende modelos econômicos e tecnologias baseados em baixas emissões de gases de efeito estufa, além do uso sustentável das florestas e dos sistemas hídricos.
Renzo Piana, diretor executivo do Instituto do Bem Comum, organização integrante da RAISG, afirmou em nota que o fortalecimento das políticas de proteção e o reconhecimento dos povos indígenas e das comunidades locais são decisivos para manter a Amazônia como aliada climática. A declaração resume a preocupação apresentada no estudo, mas não substitui os resultados da modelagem. O levantamento não afirma que toda a floresta terá o mesmo comportamento nem que a projeção ocorrerá necessariamente. Ele compara condições possíveis e indica que a conservação dos territórios mais preservados pesa sobre a capacidade regional de capturar carbono.
O que o estudo permite interpretar
A análise reúne dados de cinco países e utiliza imagens de satélite com uma ferramenta de simulação ambiental. Esse método permite relacionar mudanças no uso da terra, fragmentação florestal e reservas de carbono em uma escala amazônica. Ao mesmo tempo, a projeção apresentada depende do cenário escolhido e das informações inseridas no modelo. O valor de 82,257 bilhões de toneladas é, portanto, uma estimativa para 2030 sob uma condição específica de baixa proteção contra o desmatamento.
A pesquisa também não reduz a política climática a uma única medida. Suas recomendações combinam fiscalização, proteção territorial, ciência, saberes indígenas, sistemas produtivos de baixa emissão e uso sustentável dos recursos naturais. No Brasil, onde estão extensas áreas da floresta amazônica e grande parte das terras indígenas e unidades de conservação analisadas no contexto regional, o resultado aproxima a discussão climática das decisões sobre território. A floresta aparece, assim, não como um estoque imóvel, mas como uma função que pode ser mantida ou enfraquecida pelas escolhas feitas sobre cada área preservada.
Uma função climática que depende de escolhas presentes
A divulgação do estudo ocorreu em 23 de outubro de 2025, dentro do projeto Ciência e Saber Indígena pela Amazônia. A RAISG, formada por oito organizações da sociedade civil, apresentou os resultados como um alerta sobre a trajetória das reservas de carbono na região. O recorte incluiu Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, enquanto a rede mantém atuação abrangendo os países amazônicos.
O número de 61% mostra o peso atual dos territórios protegidos. A queda de 6,3% desde 2000 e a projeção de redução de 3,5% até 2030, no cenário de controle insuficiente, mostram que a captura de carbono não é uma característica garantida para sempre. Ela depende da permanência das florestas, da regeneração das árvores e das condições que permitem a continuidade da fotossíntese. Proteger a Amazônia, nesse sentido, é também preservar a possibilidade de que suas árvores continuem desempenhando uma função climática que ultrapassa as fronteiras dos países onde estão.
Com informações da Agência Brasil.
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