Pesquisa encontra microplásticos no trato digestivo de 44 de 47 peixes no litoral do Paraná e leva pesquisadores a investigar efeitos ainda não definidos

Pesquisa encontra microplásticos no trato digestivo de 44 de 47 peixes no litoral do Paraná e leva pesquisadores a investigar efeitos ainda não definidos
Ilustração: Revista Amazônia

Partículas menores que 5 milímetros apareceram principalmente em peixes demersais, enquanto análise com aves também identificou fragmentos em 69% dos indivíduos examinados.

Partículas apareceram em quase todos os peixes analisados

Quarenta e quatro dos 47 peixes examinados em feiras e mercados do litoral do Paraná apresentaram microplásticos no trato digestivo. O resultado corresponde a 93,6% da amostra e mostra que fragmentos muito pequenos de plástico estavam presentes no sistema responsável por receber e processar o alimento dos animais. A análise não avaliou diretamente a presença dessas partículas no músculo, parte normalmente consumida pelas pessoas, nem estabeleceu risco alimentar para quem come peixe.

O levantamento foi conduzido pela pesquisadora Fernanda Possatto, ligada a pesquisas sobre lixo no mar, e divulgado em 27 de maio de 2026. A maior ocorrência foi observada entre peixes demersais, que vivem próximos ou em contato com o fundo do mar. Nessa região ficam sedimentos, restos orgânicos e partículas transportadas pela água, criando um ambiente no qual os animais podem ingerir fragmentos junto com o alimento. A presença no trato digestivo indica ingestão, mas não revela, sozinha, se o material foi absorvido por outros tecidos.

O estudo acompanhou peixes vendidos no litoral paranaense

As amostras foram obtidas em pontos de venda do litoral paranaense, o que aproximou a investigação de uma situação cotidiana. Os peixes analisados haviam chegado ao comércio e foram examinados para verificar partículas no trato digestivo. A estratégia permitiu identificar um sinal de contaminação em animais destinados ao consumo, mas o número de indivíduos estudados ainda é limitado para representar todas as espécies, épocas do ano, áreas de pesca e condições ambientais do litoral.

A pesquisa foi apresentada na sede da Associação Mar Brasil, em Pontal do Paraná, município localizado diante da Ilha do Mel. A organização desenvolve o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, conhecido como Rebimar, iniciativa patrocinada pela Petrobras. O entorno reúne ambientes diferentes, como a Ilha da Cotinga, uma terra indígena, áreas contínuas de manguezal e o Porto de Paranaguá, onde há circulação frequente de navios. Essa combinação cria um cenário com áreas preservadas, zonas urbanizadas e atividades portuárias próximas.

Microplástico é o resultado da fragmentação do plástico

Microplásticos são fragmentos menores que 5 milímetros. Eles podem surgir quando embalagens, garrafas e outros objetos se quebram ao longo do tempo sob a ação da radiação solar, da água e do desgaste físico. Também podem ter origem em pneus, tecidos e revestimentos com tinta. Depois de alcançar o ambiente, as partículas podem permanecer na água, no solo ou no ar e ser transportadas para diferentes áreas antes de entrar em contato com animais.

No mar, um peixe pode ingerir microplásticos ao confundi-los com alimento ou ao capturar organismos e partículas presentes no ambiente. O material chega ao trato digestivo, onde pode permanecer por algum tempo ou ser eliminado. A aparência, o tamanho e a densidade dos fragmentos influenciam sua movimentação na água e a probabilidade de contato com diferentes espécies. A análise realizada no litoral do Paraná identificou o material no trato digestivo, mas não determinou a composição química de cada partícula nem a quantidade absorvida pelos peixes.

Peixes que vivem no fundo tiveram maior ocorrência

A maior contaminação foi observada nos peixes demersais, grupo que ocupa a faixa próxima ao fundo marinho. Esses animais não formam uma categoria única de espécie, mas compartilham uma relação mais estreita com sedimentos e superfícies submersas. Dependendo da alimentação, podem capturar pequenos organismos, restos orgânicos e partículas depositadas ou suspensas junto ao fundo. Essa posição no ambiente ajuda a explicar por que a investigação encontrou maior ocorrência de microplásticos nesse grupo, embora não prove uma causa exclusiva.

O fundo do mar pode funcionar como área de deposição de materiais carregados por rios, drenagens urbanas, correntes e atividades costeiras. Manguezais também retêm sedimentos e matéria orgânica, enquanto portos concentram operações, embarcações e circulação de cargas. Ainda assim, a presença de microplásticos não se restringe a locais com ocupação intensa. Fernanda Possatto destacou que os fragmentos foram encontrados tanto em áreas próximas ao Porto de Paranaguá quanto em regiões ambientalmente preservadas, indicando que o problema pode alcançar ambientes com diferentes níveis de intervenção humana.

Fragmentos também foram identificados em aves marinhas

O programa Rebimar analisou ainda material regurgitado por aves vivas, expelido do estômago ou do papo. Foram observadas gaivotas e corujas-buraqueiras, espécies que têm contato com o ambiente marinho ou costeiro. Em 69% dos indivíduos avaliados foram encontrados fragmentos de microplástico. A proporção significa que, na amostra examinada, aproximadamente sete em cada dez aves apresentaram o material no conteúdo regurgitado, mas não deve ser aplicada automaticamente a todas as aves dessas espécies.

O resultado amplia o quadro observado no litoral paranaense porque mostra a presença de partículas em animais com hábitos e formas de alimentação diferentes. Peixes podem ingerir fragmentos na água ou junto com presas, enquanto aves podem entrar em contato com resíduos durante a captura de alimento ou ao consumir organismos contaminados. A análise do material regurgitado permite investigar o que as aves eliminaram, mas não mede necessariamente a quantidade retida em outros órgãos. Por isso, o dado funciona como indicador ambiental e precisa ser combinado com novas análises.

O próximo passo é avaliar se há efeitos nos tecidos

A presença de microplástico no trato digestivo não significa, por si só, que o peixe esteja impróprio para consumo. A pesquisadora ressaltou que a investigação não avaliou ainda a saúde alimentar e lembrou que, em geral, as pessoas consomem o músculo, não o estômago ou o intestino. A principal questão em aberto é saber se componentes tóxicos associados aos fragmentos podem ser absorvidos pelos tecidos musculares das espécies analisadas.

Estudos anteriores citados pela pesquisadora relacionaram a exposição a microplásticos à liberação de substâncias tóxicas, com possíveis alterações na fecundidade e surgimento de tumores em animais. Essas possibilidades não foram demonstradas pelo levantamento realizado no Paraná. Também não foi estabelecida uma relação entre as partículas encontradas e qualquer efeito específico nos peixes examinados. A Organização Mundial da Saúde reconhece a presença crescente de microplásticos como um problema que exige mais pesquisas sobre impactos na saúde humana. O estudo paranaense acrescenta uma evidência local a uma questão que começa no resíduo, passa pela fauna e termina na necessidade de compreender melhor o caminho dessas partículas pela cadeia alimentar.

Com informações da Agência Brasil.

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