Formato das cobras ajuda a explicar por que algumas provocam medo, outras atração e outras repulsa

Formato das cobras ajuda a explicar por que algumas provocam medo, outras atração e outras repulsa
Foto: Reptiles of Ecuador / Arteaga et al. (2024). Reproduced with

Estudo com 377 pessoas no Brasil e em Portugal relacionou aparência, experiências pessoais e reações emocionais a diferentes espécies.

Uma mesma imagem de cobra pode provocar alerta, curiosidade ou repulsa antes mesmo de a pessoa saber se o animal é venenoso. Essa diferença foi observada em um estudo publicado em 30 de setembro de 2026, conduzido por pesquisadores da Universidade de Aveiro e da Universidade de Brasília com 377 participantes do Brasil e de Portugal.

A pesquisa mostrou que a aparência das cobras está associada ao tipo de reação despertada. Os voluntários avaliaram 92 imagens de serpentes e de répteis alongados sem patas. As respostas se organizaram em três grupos principais: medo, impressões positivas e repulsa.

O olhar identifica perigo antes da espécie

Os participantes não precisavam reconhecer os animais nem saber se eram perigosos. Depois de observar cada fotografia, eles classificaram o nível de medo, repulsa, beleza, impacto emocional, ativação e tamanho percebido. Também responderam sobre o próprio medo de cobras, encontros anteriores com esses animais e contato com ambientes naturais.

Segundo o estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, características visuais das serpentes ajudam a organizar as respostas emocionais em pessoas do Brasil e de Portugal. Leia o artigo científico sobre a pesquisa.

A equipe identificou maior associação entre medo e ativação emocional e as imagens de víboras e de algumas espécies de jiboias. Já serpentes mais delgadas, incluindo vários colubrídeos e dipsadídeos, receberam avaliações mais positivas. Animais pequenos, subterrâneos e alguns répteis sem patas que não eram cobras apareceram com mais frequência no grupo relacionado à repulsa.

Por que a aparência pesa tanto

Para os pesquisadores, o cérebro pode usar o formato do corpo, a cabeça, as escamas e os padrões de coloração como uma espécie de atalho para estimar risco. Esse mecanismo favoreceria uma resposta de cautela diante de um possível predador, ainda que a avaliação não corresponda exatamente ao perigo real.

Isso ajuda a explicar por que uma espécie inofensiva pode ser percebida como ameaçadora quando se parece com outra considerada perigosa. O resultado também separa duas etapas que costumam ser confundidas: perceber rapidamente que há uma cobra por perto e sentir medo dela. A detecção pode ser veloz sem que a reação emocional seja necessariamente negativa.

A pesquisa não encontrou uma relação simples entre medo e beleza. Uma cobra pode ser vista como ameaçadora e, ao mesmo tempo, considerada bonita. Da mesma forma, a repulsa não significa obrigatoriamente que o animal seja avaliado como feio. As respostas variaram conforme a aparência observada e a história de cada participante.

Formato das cobras ajuda a explicar por que algumas provocam medo, outras atração e outras repulsa
Foto: Reptiles of Ecuador / Arteaga et al. (2024). Reproduced with

Experiência pessoal muda a intensidade da resposta

O formato ajudou a diferenciar quais animais eram vistos como mais ameaçadores, mas não explicou sozinho a força das reações. Pessoas que relataram encontros anteriores com cobras ou maior medo geral desses animais tenderam a apresentar respostas mais intensas.

O contato com ambientes naturais apareceu associado a níveis menores de medo declarado. Os autores, porém, ressaltam que o desenho da pesquisa não permite afirmar que passar mais tempo na natureza cause diretamente essa redução. A relação pode envolver outros fatores, como conhecimento sobre os animais, contexto cultural e tipo de experiência vivida.

As fotografias vieram do projeto Reptiles of Ecuador, iniciativa dedicada ao registro de répteis no Equador. A seleção buscou reunir corpos com diferentes formatos e características visuais. A inclusão de animais alongados que não eram serpentes também permitiu testar se as pessoas reagiam à identidade biológica ou apenas à aparência semelhante à de uma cobra.

O que a descoberta significa para a Amazônia

O resultado tem interesse direto para os estados amazônicos, onde encontros com serpentes fazem parte da rotina de comunidades rurais, povos indígenas, trabalhadores florestais, equipes de pesquisa e moradores de áreas próximas a matas e rios. A percepção rápida de risco pode ser útil, mas também pode levar à confusão entre espécies venenosas, não venenosas e animais que apenas se parecem com cobras.

O estudo não mediu quais espécies amazônicas provocam mais medo nem comparou as respostas entre Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Também não avaliou a reação de pessoas que convivem diariamente com uma espécie específica. Por isso, os resultados ajudam a compreender um mecanismo geral de percepção, mas não substituem a identificação feita por especialistas nem orientações locais para situações de acidente.

Essa distinção é importante porque a Amazônia abriga grande diversidade de serpentes, com diferenças marcantes de tamanho, comportamento, padrão corporal e importância médica. Em uma situação real, aproximar-se para fotografar ou tentar capturar o animal pode aumentar o risco. A aparência pode gerar um primeiro julgamento, mas não confirma se a serpente é venenosa.

Próximos testes vão separar forma, textura e padrão

Os pesquisadores planejam testar cada característica de maneira isolada. A ideia é verificar se formato, escamas, textura ou desenho do corpo conseguem alterar a reação quando a pessoa recebe apenas parte da informação visual ou não sabe qual animal está diante dela.

Outra etapa deve acompanhar o intervalo entre a detecção, a atenção e a experiência consciente de medo ou repulsa. Para isso, a equipe pretende combinar experimentos comportamentais com rastreamento do olhar e medidas eletrofisiológicas, como o eletroencefalograma. Também está prevista a comparação das respostas a cobras com as reações a outros predadores, como felinos e aves de rapina.

Os próximos estudos devem indicar quais sinais visuais são específicos das serpentes e quais fazem parte de uma resposta mais ampla a animais potencialmente perigosos.

Com informações da Universidade de Aveiro e da Universidade de Brasília.

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