
Biodiversidade, resíduos agrícolas, terras degradadas e energia limpa formam uma base estratégica para substituir insumos fósseis.
Uma enzima encontrada em microrganismos brasileiros pode ajudar a transformar restos de plantas em açúcares, combustíveis e produtos químicos. Em outro estudo, o microbioma da capivara revelou mecanismos capazes de degradar componentes da biomassa vegetal. Esses exemplos mostram por que a bioeconomia de baixo carbono deixou de ser apenas uma promessa ambiental e passou a ser uma disputa por conhecimento, indústria e mercado.
O Brasil reúne cinco condições que podem colocá-lo em posição privilegiada nessa transição: biodiversidade, grande oferta de resíduos agrícolas, terras degradadas disponíveis para recuperação, eletricidade com baixa emissão e décadas de experiência com o etanol. A análise foi apresentada por Mario Tyago Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM.
Da floresta e da fauna para a indústria
Bioeconomia é o conjunto de atividades que usa recursos biológicos, como plantas, microrganismos e resíduos orgânicos, para produzir alimentos, combustíveis, materiais, medicamentos e insumos industriais. A expressão “baixo carbono” indica que esses produtos devem emitir menos gases de efeito estufa ao longo de sua produção e uso.
Nesse modelo, a biodiversidade funciona como uma biblioteca natural. Plantas, animais, fungos, bactérias e seus microbiomas desenvolveram, ao longo de milhões de anos, enzimas e rotas químicas com funções que podem ser aproveitadas pela ciência. O desafio está em identificar essas soluções, reproduzi-las em laboratório e transformá-las em processos economicamente viáveis, sem destruir a própria fonte de biodiversidade.
Pesquisas conduzidas no LNBR identificaram uma nova classe de enzimas associada à degradação da celulose. A celulose é a estrutura que dá rigidez às plantas e está presente em materiais como palha, bagaço e resíduos florestais. Quando quebrada em moléculas menores, pode fornecer açúcares para a produção de biocombustíveis e bioquímicos.
Combinada a coquetéis industriais, a enzima aumentou em 21% a liberação de glicose a partir de resíduos agroindustriais. A pesquisa também se conectou à plataforma biotecnológica brasileira OpEn, desenvolvida para elevar a eficiência de biorrefinarias. Segundo o CNPEM, a tecnologia pode reduzir em até 50% as emissões em comparação com soluções importadas.
O resíduo que pode virar matéria-prima
A segunda vantagem está na quantidade de biomassa que o país já produz. Biomassa residual é o material que sobra de uma atividade agrícola ou industrial, como o bagaço da cana, a palha e resíduos de madeira. Em vez de ser descartado ou usado apenas para gerar energia, esse material pode servir de base para moléculas de maior valor.
O Brasil gera mais de 562 milhões de toneladas de subprodutos agroindustriais, de acordo com os dados reunidos no estudo. A vantagem não está apenas no volume. Esses resíduos surgem em cadeias produtivas existentes, muitas vezes próximas de usinas e unidades de processamento, o que reduz a distância entre a matéria-prima e a fábrica.
Para o consumidor, essa mudança pode aparecer em combustíveis sustentáveis, ingredientes para nutrição animal, embalagens, solventes e outros produtos hoje fabricados a partir do petróleo. Para a indústria, o ganho potencial é diminuir a dependência de insumos fósseis usando materiais que já estão disponíveis no território nacional.
Recuperar o solo antes de expandir a produção
Outra frente está nas pastagens degradadas. O país possui mais de 100 milhões de hectares nessa condição, cerca de 60% da área total de pastagens, segundo dados do MapBiomas citados pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
A recuperação dessas áreas pode combinar bioenergia, florestas plantadas e sistemas integrados de produção. A lógica é ampliar a oferta de matéria-prima sem avançar sobre a vegetação nativa. Solos pobres em matéria orgânica também podem voltar a armazenar carbono quando são restaurados, o que aproxima a bioeconomia de uma atividade que não apenas emite menos, mas ajuda a retirar dióxido de carbono da atmosfera.
Essa possibilidade depende de planejamento. Recuperar uma pastagem exige correção do solo, escolha adequada de espécies, manejo da água e acompanhamento da produtividade. Sem esses cuidados, a expansão de culturas energéticas pode apenas deslocar problemas ambientais de uma área para outra.
Eletricidade limpa amplia o papel do hidrogênio
O hidrogênio de baixo carbono é produzido com emissões reduzidas, mas seu impacto depende da fonte de energia usada no processo. Na eletrólise, por exemplo, a eletricidade separa a molécula de água em hidrogênio e oxigênio. Se essa eletricidade vier de fontes poluentes, o combustível perde parte de sua vantagem climática.
Segundo os dados compilados no estudo, a matriz elétrica brasileira combina hidrelétricas, energia solar, eólica e biomassa em um sistema interligado. Essa composição cria condições favoráveis para a produção de hidrogênio em larga escala, especialmente quando comparada a países cuja geração depende mais de carvão e gás natural.
O hidrogênio pode atender setores difíceis de eletrificar diretamente, como fertilizantes, siderurgia, transporte pesado e combustíveis sintéticos. No Brasil, ele também pode ser combinado com biogás, biometano, etanol, biomassa e dióxido de carbono de origem biológica para produzir metanol, amônia e combustíveis sustentáveis de aviação.
O que a Amazônia pode ganhar nessa transição
Os estados da Amazônia Legal concentram biodiversidade, cadeias florestais, produção agropecuária e diferentes fontes de biomassa. Isso cria oportunidades para desenvolver produtos regionais, desde que a pesquisa avance junto com a proteção dos ecossistemas e a repartição de benefícios com comunidades e produtores.
Na prática, a bioeconomia amazônica não precisa repetir o modelo de exportação de matéria-prima sem processamento. A agregação de valor pode ocorrer por meio de ingredientes, moléculas, bioprodutos e tecnologias desenvolvidos perto das áreas produtoras. O mesmo princípio vale para resíduos agrícolas e florestais, que podem gerar renda adicional sem exigir abertura de novas áreas.
Etanol mostra que a escala é possível
A quinta vantagem brasileira é a experiência acumulada com o etanol de cana-de-açúcar. O setor foi construído ao longo de décadas com políticas públicas, pesquisa agrícola, engenharia, adaptação tecnológica, mercado consumidor e capacidade empresarial.
Essa trajetória não garante automaticamente o sucesso de novas cadeias. Ela, porém, oferece uma infraestrutura de pesquisa, produção, distribuição e consumo que pode acelerar a chegada de outros biocombustíveis e bioprodutos ao mercado.
O principal limite está em transformar potencial em resultados permanentes. Isso exige financiamento científico, segurança regulatória, proteção da biodiversidade, qualificação profissional e mecanismos para impedir que a bioeconomia estimule desmatamento ou concentração de renda.
O próximo passo é conectar laboratórios, empresas, produtores e comunidades em cadeias capazes de transformar biodiversidade e resíduos em produtos competitivos, mantendo a recuperação ambiental como parte central do negócio.
Com informações de CNPEM.
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