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Plásticos escondem 10.726 substâncias sem avaliação e pressionam ciência por regras antes do próximo descarte

Plásticos escondem 10.726 substâncias sem avaliação e pressionam ciência por regras antes do próximo descarte
Ilustração: Revista Amazônia

Alerta feito em escola internacional de Campinas expõe como a falta de dados dificulta proteger a saúde e regular a cadeia do plástico.

Um produto plástico pode chegar ao consumidor sem que governos, pesquisadores ou órgãos de controle conheçam todos os compostos presentes em sua fabricação. Esse é um dos principais alertas apresentados em 1º de setembro de 2026, em Campinas, durante a abertura da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos, evento que reúne 125 estudantes de 31 países e pesquisadores de diferentes áreas.

O dado que concentra a preocupação está no relatório PlastChem, apresentado pelo pesquisador Martin Wagner, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. A publicação reúne informações sobre mais de 16 mil substâncias associadas aos plásticos. Cerca de um quarto delas já foi classificado como danoso por governos, mas 10.726 não têm qualquer avaliação oficial disponível.

Segundo Martin Wagner, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, o relatório PlastChem lista 10.726 substâncias sem informações que permitam garantir sua segurança. A lacuna atinge materiais usados cotidianamente e desloca para a pesquisa pública uma tarefa que começa na indústria: descobrir o que há dentro dos produtos.

O problema começa antes de a embalagem virar resíduo

A discussão sobre plástico costuma se concentrar no que acontece depois do descarte, como a presença de fragmentos em rios, solos e organismos. Para Wagner, essa abordagem é estreita. Microplásticos e nanoplásticos são apenas uma das cinco formas de poluição relacionadas ao material, que acompanha todo o ciclo produtivo.

Também entram nessa conta as emissões de gases de efeito estufa durante a fabricação e a poluição atmosférica provocada pela queima de resíduos. A consequência prática é que reciclar ou recolher embalagens, embora importante, não encerra o problema. O impacto pode começar na extração de matérias-primas, avançar pelo processamento químico e continuar no uso e na destinação final.

O relatório também ajuda a explicar por que a regulamentação enfrenta obstáculos. A composição dos plásticos varia conforme o produto, o fabricante e a função desejada. Corantes, plastificantes e outros aditivos podem alterar maleabilidade, elasticidade e resistência, enquanto parte dos compostos serve apenas para viabilizar a produção.

Uma lista extensa, mas com pouca transparência

De acordo com os dados apresentados na conferência, apenas metade das substâncias identificadas tem função no produto final. A outra metade é usada no processo de fabricação. Há ainda compostos não adicionados de maneira intencional, como impurezas e subprodutos de reações químicas, cuja presença é difícil de prever e controlar.

Essa combinação transforma cada item plástico em um objeto químico praticamente singular. Sem informações completas fornecidas pela cadeia produtiva, laboratórios precisam recorrer à chamada engenharia reversa, analisando materiais prontos para tentar identificar seus componentes.

“No entanto, mais grave do que isso é o fato de que não existem informações para 10.726 das substâncias listadas, ou seja, nenhum governo avaliou essas substâncias e, portanto, não tem como garantir a segurança de materiais que utilizamos cotidianamente”, alertou Martin Wagner.

Para o pesquisador, estudos já relacionaram a exposição a compostos associados aos plásticos a transtornos reprodutivos e metabólicos, doenças cardiovasculares, malformações congênitas e alguns tipos de câncer. Ele citou ainda pesquisas que indicam possível relação com obesidade e alterações no ritmo circadiano. As estimativas apresentadas por Wagner associam essas exposições a quase 600 mil mortes prematuras por ano.

Quando a cautela vira atraso regulatório

O alerta não questiona a importância de produzir evidências. A crítica é dirigida ao tempo que separa a descoberta científica da decisão pública. Wagner afirmou que pesquisadores podem ficar presos a ciclos de repetição e refinamento de experimentos, enquanto governos e negociadores aguardam respostas completas para agir.

Plásticos escondem 10.726 substâncias sem avaliação e pressionam ciência por regras antes do próximo descarte
Foto: Michele Fernandes

“Nós estamos perdendo tempo”, disse o cientista ao relembrar casos em que materiais demoraram anos para ser reconhecidos como problemáticos. Segundo ele, a pressão da indústria é um dos fatores que interferem nesse processo, mas a própria comunidade científica também precisa melhorar a comunicação dos resultados e participar da formulação de soluções.

Entre os caminhos defendidos estão o compartilhamento de dados entre grupos de pesquisa, a produção de conclusões úteis a partir de grandes bases de informação e o fortalecimento da ponte entre ciência, regulamentação e políticas públicas. A proposta muda o foco: além de medir a poluição, seria necessário definir com maior rapidez quais produtos e substâncias devem ser restringidos.

O impasse internacional e a desigualdade dos dados

O debate ocorre enquanto cerca de 180 países negociam um Tratado Global contra a Poluição Plástica. O processo está travado pela falta de consenso, e a ausência de informações sobre milhares de substâncias torna ainda mais difícil estabelecer regras comuns para fabricação, comércio, uso e descarte.

Wagner também apresentou a Coalizão de Cientistas por um Tratado Efetivo contra a Poluição Plástica, criada para ampliar a participação de especialistas nas negociações. Na avaliação do pesquisador, ainda falta maior envolvimento de cientistas latino-americanos, justamente em uma região que precisa produzir dados sobre seus próprios ambientes e padrões de exposição.

O ponto foi reforçado por Walter Waldman, professor da Universidade Federal de São Carlos e vice-coordenador da escola. Ao abordar os desafios metodológicos dos estudos sobre microplásticos, ele destacou a diferença entre a quantidade de pesquisas produzidas no Norte Global e as lacunas existentes no Sul Global.

A questão tem peso direto para a Amazônia. Estados como Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins dependem de dados locais para avaliar a presença de resíduos em rios, áreas urbanas, cadeias de pesca, alimentos e comunidades distantes dos grandes centros de pesquisa. Sem monitoramento regional, normas construídas com base em informações de outras partes do mundo podem não captar as rotas de exposição e os impactos específicos da região.

Waldman resumiu o desafio ao perguntar se o mundo precisa de “publicações melhores do Norte Global ou de mais dados do Sul Global?”. A resposta influencia não apenas a produção acadêmica, mas a qualidade das políticas que serão aplicadas em cidades, indústrias e territórios amazônicos.

Uma escola para transformar pesquisa em decisão

A Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos é uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade Federal de São Carlos, com apoio da FAPESP. A programação segue até 11 de setembro de 2026, reunindo lideranças nacionais e internacionais e estudantes de 19 Estados brasileiros.

Mais do que formar especialistas, a iniciativa tenta enfrentar um gargalo que aparece nos números do PlastChem: produzir conhecimento não basta quando a informação não chega às normas, aos rótulos, aos sistemas de fiscalização e às decisões diplomáticas.

A programação completa da ESPCA em Microplásticos está disponível no site oficial da escola. As negociações do tratado global e a participação de cientistas devem definir os próximos passos do debate internacional após o encontro em Campinas.

Com informações de Agência FAPESP.

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