
Projeto em Caracaraí transformou a conservação da floresta em alternativa à abertura de área para soja.
Enquanto uma torre procura sinais de fogo no horizonte, famílias de Caracaraí, em Roraima, continuam entrando na floresta para coletar castanha-do-Pará. A cena resume a mudança ocorrida em uma área de 14 mil hectares: em vez de seguir para o desmatamento autorizado e o plantio de soja, o território passou a ser usado em um projeto de conservação financiado pela futura comercialização de estoques de carbono.
A iniciativa foi desenvolvida pela ZEG, empresa de soluções para descarbonização, em uma propriedade pertencente a um produtor rural de Goiás. O projeto começou depois que a empresa soube que havia um pedido de autorização para supressão vegetal no local. A proposta foi apresentada ao proprietário como uma alternativa econômica capaz de manter a floresta amazônica em pé e, ao mesmo tempo, gerar renda por meio do mercado de carbono.
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O caso ganhou contornos particulares por causa das regras ambientais de Roraima. O estado concluiu seu Zoneamento Ecológico-Econômico em 2022. Com isso, propriedades privadas inseridas em determinadas condições passaram a poder reduzir a reserva legal na Amazônia de 80% para 50%, conforme a previsão do Código Florestal para estados com mais de 65% do território formado por unidades de conservação.
Na prática, a regra permitia que o proprietário destinasse metade dos 14 mil hectares ao cultivo de soja. A negociação com a ZEG levou a outro caminho. O produtor cedeu o direito real de superfície da área por 40 anos, período previsto para o contrato de comercialização dos estoques de carbono.
Segundo a ZEG, antes de avançar foi necessário reconstruir a cadeia dominial da propriedade, procedimento que organiza o histórico de posse e propriedade do imóvel. A etapa busca reduzir riscos jurídicos e dar mais segurança a compradores e investidores interessados em projetos de conservação.
O que existe por trás da floresta conservada
Conservar a mata, nesse modelo, não significa apenas deixar a vegetação intocada. A área recebeu uma torre de 60 metros equipada com câmera e um sistema de inteligência artificial que identifica possíveis focos de incêndio. A câmera faz uma varredura completa em cerca de três minutos e envia um relatório com a localização da ocorrência para a equipe de campo.

“A gente consegue saber em tempo recorde, dentro dos três minutos que a câmera leva para dar um giro de 360 graus. Chega para a gente um relatório, que mostra exatamente onde está acontecendo o foco de incêndio, e a gente coloca a equipe de campo para ir até o local”, explicou Cineone Silva, coordenador de operações de campo da ZEG.
O fogo é apontado pela empresa como o principal risco operacional do projeto. Vinte trabalhadores da equipe local foram treinados para atuar na brigada interna. Como o alcance do equipamento também cobre áreas próximas, duas comunidades de assentamento vizinhas atualizaram o treinamento de suas brigadas comunitárias.
Castanha vira parte da conta de conservação
O efeito mais visível para a população do entorno está na continuidade do extrativismo. Cerca de 36 famílias que vivem nos assentamentos vizinhos dependem da coleta da castanha para sua subsistência e puderam manter a atividade. A parceria também apoiou a criação da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí, conhecida como Agrocar.
A organização coletiva alterou uma etapa decisiva da cadeia: a venda. Na safra mais recente, os extrativistas reuniram a produção, fizeram a pesagem conjunta e buscaram melhores condições de negociação. Antes, muitas famílias vendiam diretamente a atravessadores, com menor poder para discutir preços e logística.
“Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor”, afirmou Eliane de Sena, extrativista e secretária da Agrocar.
Para João Inácio Neto, que aprendeu a coletar castanha com o pai, manter a floresta também significa preservar uma forma de vida ameaçada pela expansão da agricultura. “Eu nasci e me criei nesse estado e, nos últimos 15 anos, eu vi a transformação com a entrada do agronegócio aqui na região, com o plantio de soja e mais veneno que a gente não tinha. Quando venderam esse lugar, a gente imaginou também que não ia mais poder coletar”, relatou.

Certificação tenta recuperar confiança no carbono
O empreendimento recebeu investimento total de R$ 20 milhões, incluindo a certificação dos estoques de carbono. O processo utiliza a certificação da Verra e auditoria da Earthwood, empresa indiana, além de uma agência voltada à avaliação da qualidade do projeto.
Segundo a ZEG, o estoque de carbono ainda não foi comercializado, mas a iniciativa recebeu classificação AA da agência BeZero. A empresa afirma que essa foi a primeira nota duplo A atribuída a um projeto de carbono na Amazônia e a um projeto de desmatamento evitado no mundo.
Segundo a ZEG, o projeto em Caracaraí recebeu classificação AA da BeZero em 2026, antes da comercialização dos estoques de carbono.
A cautela com auditorias e documentação está ligada a uma crise de credibilidade que atingiu o segmento entre 2021 e 2023. De acordo com a empresa, o período foi marcado por estimativas de mitigação superdimensionadas e pela venda de estoques associados a áreas sobrepostas a terras públicas. A consequência foi a necessidade de criar salvaguardas mais rigorosas para diferenciar conservação comprovada de promessa ambiental.
Por que o caso importa para a Amazônia
Roraima concentra uma das situações mais delicadas da fronteira amazônica: áreas de floresta convivem com a expansão agropecuária, mudanças nas regras de uso da terra e comunidades que dependem de produtos nativos. O projeto mostra uma possibilidade de conciliar renda, vigilância territorial e permanência da vegetação, mas também evidencia que o carbono sozinho não resolve todos os desafios.
Para os nove estados da Amazônia Legal, a experiência reforça uma questão prática: manter a mata pode exigir infraestrutura, segurança jurídica, organização comunitária e compradores dispostos a pagar por resultados verificáveis. Sem esses elementos, produtos como castanha, óleos e outros bioativos da floresta continuam sujeitos a cadeias de comercialização com pouca remuneração para quem coleta.
Ainda há uma etapa decisiva pela frente em Caracaraí. A certificação e a avaliação já foram realizadas, mas os estoques de carbono dependem da comercialização para que o modelo consiga sustentar seus custos de monitoramento, prevenção de incêndios e apoio às comunidades ao longo dos 40 anos de contrato.
O caso foi apresentado em Caracaraí, em Roraima, e publicado pela Agência Brasil em 2 de setembro de 2026. Com informações de Agência Brasil.
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