
Pesquisa da Universidade de Viena transforma resíduos plásticos em materiais reutilizáveis para colher umidade com calor moderado.
Uma embalagem plástica descartada pode ganhar uma segunda função antes de chegar ao aterro ou ao ambiente: retirar umidade do ar. Pesquisadores da Universidade de Viena transformaram embalagens de poliestireno, CDs antigos e peças de LEGO em redes poliméricas capazes de capturar água, inclusive em condições semelhantes às de regiões desérticas. O material libera o líquido novamente quando recebe aquecimento moderado, em um processo que pode ser alimentado pela luz solar.
O resultado, divulgado em 15 de outubro de 2026, foi obtido por Anastasiia Naryshkina, Paul Schweng e Robert Woodward, pesquisadores da área de química de materiais. O estudo será publicado na revista científica Chem Circularity e propõe combinar dois problemas ambientais: o acúmulo de resíduos plásticos e a dificuldade de obter água em locais onde a infraestrutura de abastecimento é limitada.
O resíduo muda de função dentro do laboratório
A equipe partiu de plásticos que contêm polímeros aromáticos. Em linguagem simples, são materiais cuja estrutura molecular possui anéis formados por seis átomos de carbono. Esses anéis funcionam como pontos de ligação para unir as cadeias do polímero e criar uma espécie de malha cheia de espaços microscópicos.
Depois, os cientistas trataram essa estrutura com ácido sulfúrico. A reação acrescentou grupos chamados ácidos sulfônicos à rede. Essas partes da molécula atraem água, permitindo que o material retenha vapor mesmo quando o ar apresenta pouca umidade.
Segundo a Universidade de Viena, o processo foi testado com diferentes resíduos de poliestireno, policarbonato e acrilonitrila butadieno estireno, conhecido pela sigla ABS. O primeiro aparece em itens como talheres descartáveis e estojos de CDs. O policarbonato compõe os discos antigos, enquanto o ABS é usado em peças de LEGO. A equipe também conseguiu tratar uma mistura selecionada desses plásticos.
Quanto de água o material consegue segurar
O melhor exemplo apresentado pelos pesquisadores foi uma esponja produzida a partir de poliestireno de uso geral. Em ar úmido, ela adsorveu quase 60% do próprio peso em água. Em uma condição seca, semelhante à de um deserto, reteve 20% do peso.
Adsorver significa prender moléculas na superfície e nos espaços internos do material, sem que elas necessariamente penetrem em toda a estrutura como acontece em uma absorção comum. Essa diferença ajuda a explicar por que a água pode ser liberada depois com aquecimento relativamente baixo.
Segundo a Universidade de Viena, os testes de captura e liberação indicaram que a maior parte do processo ocorreu em aproximadamente uma hora. A fonte de calor pode ser moderada, como a radiação solar, o que abre a possibilidade de uso em equipamentos descentralizados, sem ligação direta a uma rede elétrica ou de abastecimento.
Como a água sai da esponja
O funcionamento depende de um ciclo. Primeiro, o material fica exposto ao ar e os grupos químicos hidrofílicos, ou seja, que têm afinidade com a água, retêm o vapor disponível. Depois, a rede é aquecida. O calor reduz a força que mantém as moléculas de água presas e permite que elas sejam condensadas e recolhidas em outro recipiente.

Os experimentos também mostraram que as esponjas suportaram a repetição desse processo. Isso é importante porque um material de uso único apenas deslocaria o problema dos resíduos. Ainda assim, a resistência observada em laboratório não equivale, por si só, à comprovação de desempenho durante anos de funcionamento em campo.
O estudo sugere uma rota de reaproveitamento para plásticos que nem sempre são simples de reciclar pelos métodos convencionais. Em vez de tentar recuperar o material para fabricar novamente o mesmo produto, a proposta altera sua estrutura química e cria um adsorvente para água atmosférica.
O que a pesquisa ainda não responde
A descoberta não significa que qualquer plástico possa ser convertido automaticamente em água potável. O trabalho trata da captura e da liberação de umidade, não de uma etapa completa de purificação. Também não estabelece, neste momento, se a água obtida estaria adequada para consumo humano ou para outras finalidades específicas.
Há outras perguntas práticas. O tratamento químico precisa ser avaliado quanto ao consumo de recursos, à segurança da operação e à destinação dos materiais ao fim da vida útil. A própria equipe informa que estudos sobre o desempenho de longo prazo e sobre os requisitos gerais do processo ainda estão em andamento.
Por que a proposta interessa à Amazônia
Na Amazônia, a relação com a água tem duas faces. A região concentra grandes rios e elevados volumes de chuva, mas comunidades isoladas, áreas rurais e localidades distantes dos centros urbanos podem enfrentar dificuldades para manter sistemas regulares de abastecimento, armazenamento e tratamento. A existência de água no ambiente, portanto, não elimina o desafio de fazê-la chegar com segurança a cada moradia.
Um sistema capaz de capturar vapor do ar poderia ser estudado como complemento para pontos fora da rede, especialmente quando combinado a energia solar. Isso não é uma demonstração de que a tecnologia já esteja pronta para uso no Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins ou Maranhão. É uma possibilidade que dependeria de testes locais de umidade, temperatura, logística, manutenção e qualidade da água recolhida.
A matéria-prima também apresenta um aspecto regional. Embalagens e outros plásticos descartados circulam por cidades, estradas, rios e áreas de difícil coleta. Transformá-los em um material de maior duração poderia reduzir parte da pressão sobre a destinação de resíduos, mas somente se a fabricação for controlada e se o processo não criar novos contaminantes.
Da reciclagem ao uso repetido
A principal contribuição do trabalho está em mostrar que resíduos plásticos de origens diferentes, inclusive misturados em determinados testes, podem servir de base para redes químicas que capturam umidade. A combinação entre reaproveitamento e produção descentralizada de água ainda está em uma etapa experimental, mas oferece um caminho diferente da reciclagem mecânica tradicional.
Os próximos passos são medir por quanto tempo as esponjas mantêm a capacidade de capturar e liberar água, calcular os recursos necessários para produzi-las e avaliar seu desempenho fora das condições controladas do laboratório.
Com informações da Universidade de Viena.
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