Peste Negra matou um terço dos europeus, esvaziou lavouras por gerações e fez a diversidade de plantas locais cair 40%

Peste Negra matou um terço dos europeus, esvaziou lavouras por gerações e fez a diversidade de plantas locais cair 40%
Foto: Divulgação

Estudo com mais de 100 registros de pólen mostra que a ausência de agricultores empobreceu a flora, em vez de devolvê-la à natureza intocada.

Quando os campos de trigo, cevada e centeio ficaram sem ninguém para cuidar deles, no século 14, a vegetação europeia não ganhou uma segunda chance. Perdeu variedade. Um estudo publicado na Ecology Letters indica que o abandono das terras agrícolas após a Peste Negra provocou queda de 40% na diversidade local de plantas em áreas da Europa Ocidental.

O resultado contraria a ideia comum de que a natureza se regenera melhor quando os humanos saem de cena. Nesse caso, a saída dos agricultores levou a um declínio ecológico em várias regiões, incluindo o sudoeste da Grã-Bretanha.

O que o pólen guardado no solo revelou

No século 14, a pandemia causada pela bactéria Yersinia pestis matou mais de um terço da população europeia. Aldeias rurais inteiras desapareceram, e grandes extensões de terra cultivável ficaram sem lavoura por gerações, até que o número de pessoas voltasse a crescer, a partir do século 16.

Para saber como a vegetação reagiu, uma equipe internacional examinou mais de 100 registros de pólen, que somam cerca de 4.600 amostras individuais. O pólen fica preservado em camadas de sedimento e funciona como um arquivo do que crescia em cada época. A área estudada vai das terras altas do sudoeste da Grã-Bretanha às planícies da França e aos Alpes suíços.

Como os cereais serviram de termômetro

Os pesquisadores usaram o pólen de trigo, cevada e centeio como indicador direto de manejo ativo da terra. Com base nele, classificaram as áreas em três grupos: as que tiveram queda importante na produção agrícola, as que registraram expansão gradual e as que não mostravam sinal de cultivo de cereais.

Segundo o paleoecólogo Jonathan Gordon, da Universidade de York, primeiro autor do estudo, a queda geral de biodiversidade foi impulsionada principalmente pelas paisagens em que a produção agrícola diminuiu.

Por que a ausência do arado empobreceu a paisagem

A explicação está no tipo de paisagem que a agricultura medieval criava. Em vez de monoculturas, os sistemas da época formavam mosaicos: campos abertos de cultivo combinados com manchas de floresta, charnecas, vegetação secundária e lagoas para o gado. Esse conjunto oferecia microclimas e solos variados, e espécies diferentes conviviam lado a lado.

Com o fim do manejo, plantas pioneiras agressivas e arbustos densos avançaram sem controle. Sem pastoreio, limpeza do terreno e rotação de culturas, sumiram as zonas de borda e o solo revolvido de que dependem espécies anuais. Plantas pequenas, que precisam de luz, foram sufocadas.

  • Mosaico agrícola: bordas variadas entre charneca, mata e campo aberto, culturas rotativas e convivência de flora silvestre e cultivada.
  • Após o abandono: vegetação arbustiva homogênea, perda do solo perturbado e queda de 40% na riqueza de plantas.

A recuperação levou cerca de 150 anos

A perda não foi definitiva. Quando a população voltou a crescer, aproximadamente 150 anos depois, o cultivo e o manejo da terra retornaram e a flora se regenerou. Segundo o estudo, a variedade botânica chegou a ficar um pouco acima dos níveis anteriores à peste.

O que isso diz para a Amazônia

O achado não se transfere automaticamente para a floresta tropical, e o estudo trata apenas da Europa Ocidental. Ainda assim, a lógica dialoga com debates da região amazônica, onde roçados itinerantes, quintais agroflorestais e áreas de manejo tradicional de comunidades ribeirinhas e indígenas formam paisagens diversificadas. A pesquisa europeia reforça a ideia de que sistemas tradicionais de uso da terra podem sustentar variedade biológica, algo que a conservação baseada apenas em isolar áreas nem sempre considera. Qualquer paralelo, porém, exige estudos específicos para os ecossistemas amazônicos.

Lições para a conservação hoje

Os pesquisadores sugerem que o entendimento de como agricultores do passado manejavam mosaicos de campos pode orientar políticas de restauração e de agricultura. A agricultura comercial atual depende em grande parte de vastas monoculturas, que reduzem os hábitats silvestres. Ecólogos apontam que reavaliar estratégias antigas de uso da terra pode mostrar como produção agrícola sustentável e ecossistemas ricos podem coexistir.

O próximo passo da discussão será testar se o manejo em mosaico pode ser recriado em escala moderna, algo que ainda depende de novos estudos e de decisões de política agrícola e de restauração ecológica.

Com informações de Universidade de York e Ecology Letters.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA