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Caracol registra chuvas de ciclones em concha de 4,5 anos e pode reconstituir tempestades antigas

Caracol registra chuvas de ciclones em concha de 4,5 anos e pode reconstituir tempestades antigas
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo na Austrália mostra que marcas microscópicas em conchas podem guardar sinais de chuvas extremas por milhares de anos.

Uma concha de poucos centímetros pode ter funcionado como uma estação meteorológica natural. Pesquisadores da University of Queensland identificaram, em um caracol terrestre encontrado no sudeste de Queensland, marcas de crescimento associadas às chuvas extremas provocadas por dois ciclones em 2015 e 2017. O resultado, publicado em 14 de setembro de 2026 na revista The Holocene, sugere que conchas preservadas em sedimentos podem ajudar a reconstruir tempestades ocorridas antes da existência dos registros meteorológicos modernos.

O arquivo climático estava no crescimento da concha

O animal analisado foi um Biggenden Banded Snail, espécie identificada pelo nome científico Figuladra bayensis. A concha foi coletada no Coalstoun Lakes National Park, área localizada no sudeste de Queensland, na Austrália.

Em vez de tratar a concha apenas como uma estrutura de proteção, a equipe examinou seus anéis de crescimento. Pequenas amostras foram retiradas em intervalos de milímetros, permitindo comparar diferentes momentos da vida do molusco. A combinação de datação por radiocarbono e análise de isótopos de oxigênio e carbono ajudou a estabelecer quando cada faixa havia se formado e quais condições de chuva estavam associadas a ela.

Segundo a University of Queensland, a concha analisada registrou aproximadamente 4,5 anos de vida do caracol encontrado no Coalstoun Lakes National Park, em Queensland, e apresentou sinais de crescimento acelerado após ciclones ocorridos em 2015 e 2017.

As marcas não seguiram simplesmente os anos mais chuvosos

A expectativa inicial dos cientistas era encontrar uma relação direta entre o crescimento da concha e os anos com maior volume acumulado de chuva. Mais água poderia favorecer o surgimento de alimento e melhorar as condições para o desenvolvimento do animal.

Caracol registra chuvas de ciclones em concha de 4,5 anos e pode reconstituir tempestades antigas
Foto: <i>The Holocene</i> (2026). DOI: 10.1177/0959683

O padrão observado foi mais específico. O caracol não cresceu de maneira contínua. Algumas faixas se formaram rapidamente, enquanto outras indicaram longos períodos de crescimento reduzido ou praticamente interrompido. A resposta parecia estar ligada a episódios isolados de chuva muito intensa, e não apenas ao total registrado ao longo de um ano.

As fases de crescimento acelerado coincidiram com períodos posteriores à passagem do Severe Tropical Cyclone Marcia e do Tropical Cyclone Debbie. Os dois sistemas produziram chuvas extremas dentro do parque onde a concha foi encontrada, criando uma espécie de assinatura climática no material produzido pelo animal.

Como os cientistas transformaram uma concha em calendário

O radiocarbono teve papel central na pesquisa. A concha continha níveis elevados desse elemento associados aos testes nucleares realizados na Austrália durante a década de 1960. Essa marca deixada na atmosfera ajudou os pesquisadores a calibrar a idade das faixas de crescimento e a determinar em que período o caracol viveu.

Já os isótopos estáveis de oxigênio e carbono funcionaram como indicadores das condições ambientais. A proporção entre esses elementos pode guardar informações sobre a água disponível e sobre processos relacionados à alimentação e ao metabolismo do molusco. Em conjunto, as técnicas permitiram aproximar a leitura da concha de uma cronologia climática de alta resolução.

Esse tipo de investigação é conhecido como esclerocronologia, área que analisa marcas de crescimento em estruturas duras de organismos, como conchas. A lógica é parecida com a leitura dos anéis de uma árvore, mas adaptada a animais que incorporam informações do ambiente enquanto crescem.

Caracol registra chuvas de ciclones em concha de 4,5 anos e pode reconstituir tempestades antigas
Foto: <i>The Holocene</i> (2026). DOI: 10.1177/0959683

O próximo passo está enterrado nos sedimentos

Uma única concha fornece uma janela limitada. Por isso, o grupo pretende testar exemplares mais antigos encontrados em diferentes camadas de depósitos sedimentares. Cada camada representa um período distinto de deposição, e a reunião de várias conchas poderia ampliar a série histórica para épocas anteriores aos instrumentos meteorológicos.

A proposta não significa que qualquer concha será capaz de indicar com precisão a trajetória completa de um ciclone. O material precisa ser bem preservado, ter uma cronologia confiável e ser comparado com outros indicadores ambientais. Também será necessário testar a técnica em mais indivíduos e em diferentes locais para separar a resposta a chuvas extremas de outras causas de crescimento ou dormência.

O que a descoberta representa para a Amazônia

O estudo foi realizado na Austrália e não apresenta uma reconstrução de tempestades na Amazônia. Ainda assim, a estratégia interessa à região porque amplia o conjunto de arquivos naturais usados para entender o clima passado. Em áreas amazônicas, onde a cobertura de estações meteorológicas varia bastante no tempo e no espaço, sedimentos, árvores, lagos e organismos podem complementar séries instrumentais mais recentes.

A aplicação direta em estados como Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Mato Grosso dependeria de pesquisas próprias. Seria preciso localizar espécies de moluscos adequadas, verificar se suas conchas preservam sinais de precipitação e comparar os resultados com registros históricos e ambientais disponíveis. A principal contribuição do trabalho australiano é mostrar que episódios extremos podem deixar uma marca mais precisa do que uma simples média anual de chuva.

Essa diferença importa para o planejamento. Uma região pode ter um total anual de precipitação dentro do padrão e, ainda assim, enfrentar eventos concentrados capazes de provocar alagamentos, erosão e perdas agrícolas. Arquivos naturais com resolução mais detalhada podem ajudar a identificar como a frequência e a intensidade desses episódios mudaram ao longo do tempo.

Uma pista pequena para uma história climática maior

O artigo “Evaluating the Biggenden Banded Snail (Figuladra bayensis) as a climate archive for SE Queensland, Australia, using stable isotopes and 14C dating” foi publicado na revista The Holocene em 2026. A pesquisa ainda está em fase de validação, mas apresenta uma possibilidade concreta: usar conchas antigas como registros de chuvas extremas e, a partir de conjuntos encontrados em sedimentos, investigar a atividade de ciclones antes do monitoramento moderno.

Os próximos trabalhos deverão avaliar conchas de diferentes idades e camadas sedimentares para verificar até onde esse calendário natural pode recuar no tempo.

Com informações de University of Queensland.

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