Pegadas no arenito do Sul do Brasil revelam mamífero do tamanho de uma capivara que andava entre dinossauros há 130 milhões de anos

Pegadas no arenito do Sul do Brasil revelam mamífero do tamanho de uma capivara que andava entre dinossauros há 130 milhões de anos
Capivara no Pantanal: o mamífero das pegadas teria porte comparável. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Quando os dinossauros dominavam os continentes, os mamíferos costumavam ser pequenos, ariscos e noturnos. Um animal que atravessou as dunas do que hoje é o Sul do Brasil há cerca de 130 milhões de anos fugia à regra. Suas pegadas, preservadas no arenito, têm mais de 10 centímetros de comprimento e 13 de largura, e indicam um mamífero do tamanho de uma capivara.

Segundo os pesquisadores, ele pode ter sido o maior mamífero a conviver com os dinossauros. O estudo foi publicado no Journal of South American Earth Sciences e tem entre os autores a paleontóloga Aline Ghilardi, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Um deserto entre o Brasil e a África

As pegadas foram encontradas na Formação Botucatu, na Bacia do Paraná. Há mais de 130 milhões de anos, a região fazia parte de um imenso deserto de dunas que se estendia pelo Brasil e por parte do sudoeste da África, áreas vizinhas no supercontinente Gondwana, antes da abertura do oceano Atlântico.

O arenito da Botucatu é rico em rastros fossilizados e pobre em esqueletos. Nele ficaram marcas de dinossauros, mamíferos, lagartos, pterossauros e até artrópodes. As pegadas de mamíferos encontradas até agora, porém, eram pequenas: as maiores tinham cerca de 4,5 a 5 centímetros de comprimento e pouco mais de 6 de largura.

Quase o dobro do tamanho

As novas pegadas quebram esse padrão. Com base no formato e nas proporções de outros mamíferos do período, os pesquisadores estimam que o animal teria até 1,55 metro de comprimento, porte comparável ao de uma capivara ou de um leopardo.

Para comparação, um dos maiores mamíferos conhecidos da era dos dinossauros, o Repenomamus, da China, tinha cerca de um metro e é famoso por ter sido encontrado com restos de um filhote de dinossauro no estômago.

Como saber que foi um mamífero

Sem ossos, a identificação depende das próprias marcas e da forma como estão organizadas na trilha. Os autores apontam que as pegadas são mais largas do que compridas, têm quatro dedos curtos com pontas arredondadas e formam trilhas estreitas, compatíveis com um animal que andava sobre quatro patas.

Essas características são típicas dos mamaliaformes, grupo que inclui os mamíferos atuais e seus parentes mais antigos. A combinação de traços, e não um detalhe isolado, é o que sustenta a interpretação.

Um mistério ainda sem nome

Descobrir exatamente qual animal deixou as pegadas é bem mais difícil. Pegadas não funcionam como impressão digital de uma espécie. Sem um esqueleto da mesma época e do mesmo lugar, o dono das marcas continua desconhecido.

A pergunta que intriga os paleontólogos é por que esse mamífero era tão grande num ambiente dominado por dinossauros. A resposta depende de novos achados, de preferência com ossos.

O valor das pegadas brasileiras

A Formação Botucatu aflora em vários estados do Sul e do Sudeste e é a mesma rocha que forma boa parte do Aquífero Guarani. Pedreiras de arenito no interior paulista já revelaram muitas pegadas, parte delas hoje exposta em museus como o de Araraquara. Cada nova trilha ajuda a reconstituir a fauna de um deserto que não deixou ossos, mas deixou passos.

Perguntas frequentes

Mamíferos viveram com os dinossauros?

Sim. Os mamíferos surgiram há mais de 200 milhões de anos e conviveram com os dinossauros durante todo o Mesozoico, em geral com porte pequeno.

Qual o tamanho do mamífero das pegadas?

Os pesquisadores estimam até 1,55 metro de comprimento, porte parecido com o de uma capivara.

Com informações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do estudo publicado no Journal of South American Earth Sciences.

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