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O gás natural nunca foi limpo e a indústria sabia…

Biogás perde espaço para eólica e solar, mas resíduos podem definir onde a tecnologia ainda faz sentido

Biogás perde espaço para eólica e solar, mas resíduos podem definir onde a tecnologia ainda faz sentido
Foto: acervo

Estudo publicado em 2026 aponta que o biometano não deve disputar preço com as fontes renováveis, e sim atuar em funções específicas.

Transformar resíduos orgânicos em energia parece uma solução direta, mas a conta muda quando o biogás precisa competir com parques eólicos e usinas solares. Uma análise internacional publicada em 2026 concluiu que a tecnologia enfrenta custos mais altos, disponibilidade limitada de matéria-prima e dependência de subsídios, embora ainda possa cumprir funções que as fontes renováveis variáveis não desempenham com a mesma facilidade.

O estudo foi elaborado por Mingze Shi e Xinmin Zhan, da University of Galway, na Irlanda, com pesquisadores da Espanha, dos Países Baixos, do Reino Unido, da China e do Japão. O trabalho saiu na revista ENGINEERING Environment e propõe mudar a pergunta central sobre o setor: em vez de perguntar quanto biogás pode ser produzido, governos e empresas deveriam avaliar em quais situações ele entrega um benefício que não pode ser facilmente substituído.

A diferença aparece antes da usina começar a operar

A energia eólica e a solar ganharam escala com equipamentos padronizados e produção em massa. Essa característica ajudou a reduzir os custos das duas tecnologias entre 70% e 90% na última década, segundo os dados analisados pelos autores.

O biogás segue outra lógica. Cada planta depende do local, do tipo de resíduo disponível, da distância até os fornecedores e da estrutura necessária para tratar e transportar a matéria-prima. O biodigestor é apenas uma parte da operação. A compra ou coleta dos insumos, o processamento e o funcionamento contínuo da unidade formam uma despesa recorrente que não desaparece depois da construção.

De acordo com o estudo, a instalação do biodigestor representa entre 20% e 40% do custo total da produção de biometano. O restante está ligado justamente à obtenção da matéria-prima e à operação. Isso reduz a possibilidade de repetir, no biogás, a mesma curva de barateamento observada em painéis solares e turbinas eólicas.

O preço alemão expõe o tamanho do desnível

A comparação de 2024 na Alemanha, um dos países com maior experiência no setor, ajuda a dimensionar o problema. O custo nivelado da eletricidade produzida com biogás variou de 20,2 a 32,5 centavos de euro por quilowatt-hora. Na geração eólica, ficou entre 4,3 e 10,3 centavos. Na solar fotovoltaica de grande porte, variou de 4,1 a 6,9 centavos de euro por quilowatt-hora.

Segundo a análise publicada pela ENGINEERING Environment em 14 de setembro de 2026, o custo do biogás permaneceu praticamente estável na última década, passando de US$ 0,086 para US$ 0,087 por quilowatt-hora, enquanto eólica e solar avançaram em escala e competitividade.

Há ainda um limite físico para a expansão. A Agência Internacional de Energia estima um potencial global de biometano equivalente a cerca de 730 milhões de toneladas de petróleo, mas somente 55 milhões de toneladas poderiam ser desenvolvidas com custo inferior a US$ 10 por milhão de unidades térmicas britânicas.

Quando o combustível disputa espaço com a comida

A experiência alemã também revela o conflito pelo uso da terra. Em 2024, plantações destinadas à produção de biogás ocupavam 1,35 milhão de hectares, e o milho respondia por quase dois terços dessa área. Para acrescentar 1 bilhão de metros cúbicos de biometano obtido de cultivos, seriam necessários aproximadamente 170 mil a 250 mil hectares de terras agrícolas.

O risco é que uma tecnologia apresentada como alternativa de baixo carbono passe a depender de lavouras energéticas, em vez de resíduos que já precisam ser tratados. Alemanha, Itália e Áustria estão entre os países que deslocaram parte da alimentação das plantas, antes baseada em resíduos orgânicos, para culturas produzidas especificamente para gerar energia.

Biogás perde espaço para eólica e solar, mas resíduos podem definir onde a tecnologia ainda faz sentido
Foto: ENGINEERING Environment

Esse movimento pode melhorar a viabilidade financeira das unidades, mas aumenta a disputa entre combustível e produção de alimentos. Por isso, os pesquisadores defendem que metas amplas de expansão sejam substituídas por avaliações caso a caso, considerando a origem da matéria-prima, a distância de transporte e a função efetivamente prestada pela planta.

O valor do biogás pode estar fora da tomada

O estudo não recomenda abandonar a tecnologia. A proposta é retirar o biogás de uma competição direta com a eletricidade eólica e solar e concentrá-lo em tarefas nas quais ele tenha vantagem específica.

Uma delas é usar a infraestrutura de gás para armazenar energia por períodos mais longos e responder rapidamente às oscilações da rede. Baterias podem atender parte dessa necessidade, mas os autores avaliam que ainda não oferecem a mesma combinação de armazenamento sazonal e flexibilidade com custo competitivo em todas as situações.

Outra frente é o tratamento de dejetos animais. A digestão anaeróbia pode inativar mais de 99% dos principais patógenos presentes no esterco, segundo a análise. O aproveitamento integral desse material poderia evitar até 1.000 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano em emissões da agricultura.

O gás também pode servir de insumo para biorrefinarias voltadas à produção de químicos verdes. Nesse modelo, a receita não depende apenas da eletricidade gerada, mas do conjunto de serviços ambientais e industriais associados à unidade.

O que a discussão significa para a Amazônia

Nos estados amazônicos, a escolha do modelo será especialmente dependente da escala e da logística. Uma proposta em Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins precisaria comprovar que há resíduos disponíveis de forma contínua, que o transporte não consome a vantagem ambiental e que existe mercado para o gás, o calor, a eletricidade ou os produtos derivados.

A conclusão do estudo não autoriza tratar toda matéria orgânica como combustível automaticamente vantajoso. Para cidades e cadeias produtivas da Amazônia, a comparação deve incluir a destinação atual dos resíduos, a distância entre os pontos de geração e consumo e o risco de substituir resíduos por cultivos energéticos. Sem essa conta, uma planta pode depender de subsídios permanentes e ainda produzir menos benefício climático do que o esperado.

Na União Europeia, os autores também identificaram uma pressão crescente sobre o financiamento público. Entre 2021 e 2023, os subsídios a combustíveis fósseis aumentaram, enquanto os incentivos às energias renováveis caíram de 83 bilhões para 61 bilhões de euros. Um estudo de caso na Irlanda mostrou que uma unidade de digestão anaeróbia com capacidade de produzir 40 GWh por ano a partir de esterco bovino e silagem de capim precisou de certificados de biometano, subvenções de capital e um auxílio adicional de 893 euros por hectare para permanecer viável.

Os próximos projetos terão de provar sua função

Para os pesquisadores, o futuro do biogás depende menos de grandes metas nacionais e mais de projetos capazes de demonstrar benefícios concretos: tratar resíduos, reduzir emissões, equilibrar a rede ou fornecer matéria-prima para a indústria química. A publicação completa está disponível no artigo científico sobre os custos e os limites do biogás.

O próximo passo recomendado é avaliar cada empreendimento com indicadores de custo, disponibilidade de resíduos, uso da terra e redução real de emissões antes de liberar novos incentivos públicos.

Com informações de ENGINEERING Environment.

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