
Mudança na química do mar ameaça um grupo de algas microscópicas que sustenta a vida oceânica e ajuda a retirar carbono da atmosfera.
O carbono retirado da atmosfera pelo oceano não depende apenas de grandes florestas de algas ou de animais marinhos. Uma parte importante desse trabalho começa com organismos microscópicos chamados diatomáceas. Essas algas vivem na superfície da água, fazem fotossíntese e transformam dióxido de carbono em matéria orgânica. Quando a química do mar muda, a consequência pode chegar ao clima e à alimentação de espécies que vivem muito acima delas na cadeia alimentar.
A acidificação dos oceanos ocorre principalmente porque o mar absorve parte do dióxido de carbono liberado pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e por outras atividades humanas. O gás reage com a água e forma ácido carbônico, reduzindo o pH. A água não se torna necessariamente ácida no sentido comum da palavra, mas fica menos alcalina, o que altera o ambiente onde vivem organismos marinhos.
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As diatomáceas pertencem ao grupo do fitoplâncton, conjunto de organismos que flutua ou permanece próximo à superfície do oceano. Elas usam luz, água, nutrientes e dióxido de carbono para crescer. Nesse processo, incorporam carbono ao próprio corpo e liberam oxigênio, como fazem as plantas terrestres.
Quando morrem, parte dessa matéria orgânica é consumida por outros organismos. Outra parcela afunda lentamente. Esse movimento é conhecido como bomba biológica de carbono, um mecanismo natural que transporta carbono da superfície para camadas profundas do oceano. É como se o mar tivesse uma esteira que leva parte do carbono para longe do contato imediato com a atmosfera.
Nem todo carbono chega ao fundo. Muitos fragmentos são decompostos ou consumidos no caminho, e o carbono pode voltar à água superficial. Mesmo assim, a eficiência desse processo influencia o equilíbrio do clima e a produtividade dos ecossistemas marinhos.
Por que uma mudança química pode alterar a cadeia alimentar
As diatomáceas não são apenas organismos que capturam carbono. Elas também funcionam como alimento para pequenos animais marinhos, incluindo espécies do zooplâncton. Esses animais são consumidos por peixes, crustáceos e outros predadores. Por isso, qualquer alteração na quantidade, no tamanho ou no valor nutricional do fitoplâncton pode se espalhar pela teia alimentar.
O efeito da acidificação não precisa ser uma morte imediata das diatomáceas. A mudança pode aparecer na velocidade de crescimento, na composição química das células, na formação das estruturas de sílica ou na capacidade de competir com outros organismos. Sílica é o material usado por muitas diatomáceas para construir uma espécie de carapaça microscópica, chamada frústula.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a acidificação dos oceanos vem avançando desde a Revolução Industrial em escala global, acompanhando o aumento do dióxido de carbono na atmosfera. Esse processo é diferente do aquecimento da água, embora os dois fenômenos tenham a mesma origem principal e possam ocorrer ao mesmo tempo.
O que pode acontecer com a captura de carbono
A captura de carbono pelas diatomáceas depende de vários fatores. A luz disponível, a temperatura, a quantidade de nutrientes, a presença de predadores e a circulação da água influenciam o resultado. Por isso, não existe uma resposta única para todos os oceanos ou para todas as espécies.
Em algumas condições, determinadas diatomáceas podem tolerar parte da mudança química ou até alterar o metabolismo para continuar crescendo. Em outras, a acidificação pode reduzir a eficiência da fotossíntese, modificar a formação das frústulas e mudar a quantidade de carbono que afunda depois da morte das células.
Essa diferença é importante. Mesmo que a biomassa total do fitoplâncton pareça estável, o funcionamento do ecossistema pode ter mudado. Uma comunidade dominada por organismos menores, por exemplo, pode transferir carbono de maneira diferente e alimentar uma cadeia com menos etapas ou com espécies distintas.
O reflexo possível na costa amazônica
O tema também interessa à Amazônia porque a região possui uma extensa área costeira no Amapá e no Pará, além da influência do grande sistema de rios, manguezais, estuários e zonas de mistura entre água doce e salgada. Esses ambientes apresentam variações naturais de acidez, salinidade, temperatura e nutrientes.
Essa complexidade torna a observação essencial. A descarga de rios leva matéria orgânica e nutrientes ao oceano, enquanto a decomposição dessa matéria pode alterar a química da água. Ao mesmo tempo, manguezais e outros ecossistemas costeiros armazenam carbono e oferecem abrigo e alimento para peixes, crustáceos e moluscos importantes para comunidades locais.
Para os estados amazônicos, a discussão não se limita ao clima global. Mudanças na base microscópica da cadeia alimentar podem repercutir sobre a pesca, a biodiversidade costeira e a segurança alimentar. O impacto, quando existe, dependerá do local, da espécie e da combinação entre acidificação, aquecimento, perda de habitat e poluição.
O que ainda precisa ser compreendido
Uma dificuldade das pesquisas é separar o efeito da acidificação dos demais estressores ambientais. No oceano real, as diatomáceas enfrentam simultaneamente água mais quente, ondas de calor marinhas, redução ou excesso de nutrientes, contaminantes e mudanças na circulação.
Experimentos em laboratório ajudam a identificar mecanismos, mas não reproduzem toda a variedade de um estuário, de uma baía ou do oceano aberto. Por isso, os cientistas combinam testes controlados, observações de campo e modelos capazes de projetar cenários futuros.
A consequência mais importante é que a acidificação pode alterar não apenas quanto carbono as diatomáceas retiram da superfície, mas também para onde esse carbono vai e por quanto tempo permanece armazenado. Monitorar o litoral amazônico e reduzir as emissões de dióxido de carbono são medidas complementares para entender e limitar esse risco. Novas observações deverão indicar quais espécies são mais vulneráveis e como as cadeias alimentares responderão em diferentes regiões.
Com informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
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