
Diomedes Izquierdo levou a formação da Sierra Nevada para a universidade e passou a defender uma arqueologia indígena e não invasiva.
Antes de aprender a interpretar vestígios, Diomedes Izquierdo Mejía aprendeu a ler o território. Aos 10 anos, ele começou a frequentar uma escola distante duas horas de sua casa, na Sierra Nevada de Santa Marta, na Colômbia. O trajeto de ida e volta consumia quatro horas por dia, mas abriu o caminho que mais tarde o levaria à universidade e à arqueologia.
Filho de um mamo, liderança espiritual arhuaca, e de uma mulher que conhece plantas medicinais, Izquierdo cresceu em uma família sem formação acadêmica, mas profundamente ligada aos conhecimentos produzidos no território. Hoje, sua atuação procura aproximar duas formas de compreender o passado e o presente: a ciência ensinada na universidade e a memória mantida pelos povos indígenas.
Leia também
Um verme recolhido entre raízes de mangue na costa amazônica passou pelo microscópio e revelou uma espécie nova num ambiente que muda a cada maré
Duas rãs conhecidas apenas por códigos em relatórios da Guiana Francesa ganharam nomes após DNA, canto e corpo confirmarem espécies exclusivas da Amazônia
Pescadores retiraram uma arraia do rio Xingu e encontraram um candiru preso às brânquias no primeiro registro desse parasitismo na bacia amazônicaO caminho começou entre a finca e a escola
A decisão de estudar partiu do próprio menino. Enquanto cuidava da propriedade da família, ele se matriculou sozinho. Quando os pais voltaram, Izquierdo já frequentava o quarto ano do ensino fundamental. Para comprar cadernos e outros materiais, oferecia aos professores produtos e animais criados na finca.
A escola não era apenas um prédio no fim do caminho. Durante as caminhadas, o futuro arqueólogo observava os sons das aves, o movimento das águas e a passagem do vento. Segundo Izquierdo, os mais velhos ensinavam que ninguém caminha sozinho, porque o entorno também participa da formação de cada pessoa.
Na casa, a educação seguia outra dimensão. As histórias transmitidas pelos maiores estavam relacionadas à lei de origem arhuaca, conjunto de ensinamentos sobre a maneira de cuidar do território, conviver com a natureza e preservar a identidade coletiva. Essa base permaneceu com ele quando deixou a comunidade.
De um território guiado pelo sol para a cidade de Bogotá
Izquierdo foi o primeiro entre os irmãos a chegar ao ensino superior. A escolha pela universidade surgiu da percepção de que os saberes dos mamos e dos anciãos nem sempre eram compreendidos pelos pesquisadores e pelas instituições externas. Para ele, estudar era uma forma de adquirir ferramentas e, ao mesmo tempo, traduzir para o mundo acadêmico linguagens que nasceram dentro do território.
A mudança para Bogotá trouxe um contraste difícil de ignorar. Acostumado a se orientar pelas montanhas e pelo sol, ele passou a viver em uma cidade organizada por ruas, endereços e pavimento. O próprio ambiente urbano lhe pareceu uma espécie de selva, mas feita de concreto.
Também houve incompreensão em torno de elementos da cultura arhuaca, como o poporo e a folha de coca. Em vez de abandonar sua identidade diante de comentários ou julgamentos, Izquierdo escolheu permanecer ligado à língua, à vestimenta e às tradições de seu povo. Essa continuidade foi decisiva para o trabalho que desenvolveria depois.
Quando a arqueologia passou a ser questionada
Na Universidade Externado, Izquierdo encontrou uma disciplina voltada ao estudo do passado por meio de objetos e estruturas materiais. O método, formado principalmente a partir de referências europeias e norte-americanas, inclui práticas como pesquisa de campo, prospecção, monitoramento e registro técnico.

O problema, segundo a reflexão construída por ele, aparece quando um modelo único é aplicado a povos com histórias e relações diferentes com o território. Para os arhuacos, a cultura não está encerrada em um passado distante. Ela permanece viva nas pessoas, nos rituais, nos conhecimentos e na forma de ocupar a Sierra Nevada.
Segundo El Tiempo, Diomedes Izquierdo Mejía é um arqueólogo arhuaco que articula conhecimentos ancestrais e formação universitária na Colômbia, em perfil publicado em 11 de setembro de 2026.
Foi desse encontro que surgiu sua proposta de uma arqueologia indígena e não invasiva. Em vez de considerar a escavação como etapa obrigatória, a abordagem busca observar, registrar e acompanhar o território sem romper sua integridade. Não se trata de rejeitar a universidade, mas de avaliar em que contexto cada ferramenta pode ser utilizada.
O que significa pesquisar sem escavar
Na prática, uma arqueologia sem escavação desloca a atenção para o monitoramento da paisagem, a prospecção e o registro técnico, combinados com a memória dos habitantes e com a dimensão espiritual atribuída ao lugar. Essa combinação pode impedir que um sítio seja tratado apenas como depósito de objetos ou como fonte de informação separada das pessoas que vivem ali.
Para a visão arhuaca apresentada por Izquierdo, a Terra não é um cenário neutro. O território possui vida e uma essência que sustenta sua identidade. Uma pesquisa que considere apenas o material corre o risco de ignorar justamente a relação que dá sentido àquele espaço.
Essa discussão interessa diretamente à Amazônia brasileira. Em estados como Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, pesquisas sobre ocupação humana, patrimônio e biodiversidade também se relacionam com territórios indígenas e com conhecimentos transmitidos entre gerações. A experiência arhuaca não pode ser copiada automaticamente para esses contextos, mas ajuda a formular uma pergunta essencial: quem define o que deve ser pesquisado e de que maneira?
O debate também amplia a ideia de patrimônio. Quando a cultura é vista apenas como vestígio antigo, os povos que mantêm aquela tradição no presente podem ser afastados da interpretação de sua própria história. Quando são reconhecidos como participantes da pesquisa, seus conhecimentos deixam de aparecer como complemento e passam a orientar decisões sobre o território.
Uma ponte ainda em construção
A trajetória de Izquierdo não elimina as diferenças entre a academia e a tradição arhuaca. Seu trabalho parte justamente da necessidade de conciliar linguagens sem transformar uma delas em mera ilustração da outra. A universidade oferece procedimentos para documentar e analisar; a comunidade oferece referências sobre a origem, o sentido e os limites de cada lugar.
O resultado é uma atuação que combina formação técnica e pertencimento. O menino que vendia produtos da finca para comprar cadernos tornou-se um profissional capaz de circular entre a comunidade indígena e as instituições acadêmicas sem tratar esses espaços como mundos que precisam ser separados.
Os próximos passos dessa proposta dependem de que universidades e órgãos de pesquisa reconheçam métodos construídos com participação indígena e respeitem as formas próprias de conhecimento de cada povo.
Com informações de El Tiempo.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














