
Estudo indica que pequenas forças gravitacionais conseguem acelerar o deslizamento de falhas quando coincidem com seu ritmo natural.
As mesmas forças que levantam e baixam o nível do mar também deformam, em pequena escala, as rochas sob nossos pés. Um novo estudo indica que essa influência combinada do Sol e da Lua pode ativar terremotos lentos quando o ritmo das marés coincide com o tempo de resposta de uma falha geológica. O fenômeno foi investigado por cientistas em um modelo publicado em 28 de setembro de 2026 na revista JGR Solid Earth.
Esses eventos não correspondem ao tipo de terremoto que costuma derrubar construções ou ser percebido pelas pessoas. Nos terremotos lentos, partes de uma falha deslizam durante horas, dias ou períodos ainda mais longos, liberando energia gradualmente. Por isso, muitos deles passam despercebidos na superfície, embora possam ser registrados por instrumentos sísmicos.
O pequeno empurrão que encontra o momento certo
A gravidade da Lua e do Sol provoca marés nos oceanos, mas o efeito não termina na água. A crosta terrestre também sofre deformações periódicas, chamadas marés terrestres. O estresse produzido é pequeno, geralmente da ordem de alguns quilopascais, equivalente à pressão de um toque suave com a mão.
O ponto central do estudo é que a força aplicada não precisa ser grande para produzir uma resposta. Ela pode funcionar como um empurrão dado em um balanço: se ocorrer no intervalo adequado, aumenta progressivamente o movimento. Na falha, o resultado depende de quanto tempo a superfície leva para reagir e de como muda o atrito entre os blocos de rocha.
Segundo o estudo publicado na revista JGR Solid Earth, em 28 de setembro de 2026, perturbações das marés podem desencadear terremotos lentos quando sua duração se aproxima da escala natural de resposta da falha.
Como os pesquisadores representaram uma falha
Para testar essa hipótese, a equipe usou um modelo conhecido como spring block, ou modelo de bloco e mola. Ele representa uma pequena porção de uma falha como um bloco preso a uma mola. A simulação acompanha o deslizamento, a resistência e as mudanças de contato entre as superfícies rochosas.
O modelo também considera a chamada fricção de estado e velocidade. Em termos simples, isso significa que o atrito não é fixo. Ele varia conforme a rapidez do movimento e conforme as superfícies permanecem em contato. Uma falha que desliza lentamente pode perder resistência quando é acelerada, criando condições para um deslocamento maior.
Esse comportamento ajuda a explicar por que uma tensão equivalente a um toque pode ter efeito em uma falha que já está próxima de mudar de regime. O gatilho externo não cria sozinho toda a energia do terremoto. Ele apenas altera o instante em que a energia acumulada na própria falha começa a ser liberada.
Amplitude e duração mudam o tipo de evento
As simulações indicaram que dois aspectos das marés são decisivos: a amplitude, que corresponde à intensidade da perturbação, e o período, que indica sua duração e repetição. Quando a amplitude é baixa, a falha pode continuar deslizando de forma lenta e silenciosa.
Se a força ultrapassa determinado limite e o período coincide com a resposta natural da estrutura, o deslizamento pode se intensificar. O modelo produziu tanto eventos lentos quanto episódios de movimento rápido, dependendo das propriedades de atrito atribuídas à falha.
O resultado também mostra que não existe uma única regra para o momento do disparo. Em alguns casos, a atividade aparece perto do ponto máximo da força da maré. Em outros, ocorre quando a pressão está aumentando mais rapidamente. A simulação ainda admite situações sem uma relação temporal simples.
O que Japão e Cascadia ajudam a explicar
O comportamento calculado se aproxima de observações feitas no sudoeste do Japão e em Cascadia, região do noroeste do Pacífico. Nessas áreas, tremores e terremotos lentos costumam apresentar picos associados a ciclos de aproximadamente 12 e 24 horas, períodos ligados às marés.
Cascadia é uma zona de subducção, local onde uma placa tectônica mergulha sob outra. Essas estruturas concentram tensão por longos períodos e estão entre os ambientes mais importantes para o estudo dos chamados megaterremotos, os eventos sísmicos mais potentes conhecidos.
A ligação com as marés, porém, não significa que o Sol ou a Lua determinem quando ocorrerá um grande terremoto. O estudo analisou uma única porção isolada de uma falha. Por isso, o modelo representa melhor eventos locais e repetidos de baixa frequência do que tremores extensos, que envolvem várias partes da zona de contato.
Por que a descoberta interessa ao monitoramento
Uma possível aplicação está na leitura reversa dos sinais sísmicos. Como o comportamento das marés pode ser calculado com precisão, os pesquisadores poderiam comparar o horário dos eventos com os ciclos gravitacionais para estimar características ocultas da falha.
Entre essas características estão a resistência do atrito, a distância que o bloco precisa percorrer antes de perder força e o tempo necessário para a estrutura mudar de comportamento. É como observar uma porta ranger em diferentes momentos para descobrir onde está a dobradiça que oferece mais resistência.
Essa abordagem pode contribuir para modelos de previsão e avaliação de risco, mas não representa um sistema capaz de anunciar terremotos com data e hora. O trabalho oferece uma estrutura para interpretar padrões já observados e entender melhor como a tensão se acumula e se dissipa nas zonas de contato entre placas.
O que isso significa para a Amazônia
As áreas destacadas pelo estudo ficam no Japão e no Pacífico Noroeste, não na Amazônia brasileira. Portanto, os resultados não permitem afirmar que as marés do Sol e da Lua estejam acionando terremotos lentos nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
A conexão regional está no método. O trabalho reforça que o risco sísmico não depende apenas da força percebida na superfície, mas também das propriedades internas das rochas e do modo como uma falha responde a estímulos pequenos. Essa distinção é importante para interpretar corretamente registros sísmicos em qualquer território.
Também ajuda a separar fenômenos diferentes. Um tremor detectado por sensores na Amazônia não pode ser automaticamente associado à influência lunar ou solar. Seria necessário conhecer sua profundidade, localização, mecanismo e relação com estruturas geológicas locais, além de comparar os registros com os ciclos de maré.
O próximo passo é testar falhas mais complexas
O principal limite reconhecido pelos pesquisadores é a simplificação do modelo. Uma falha real é formada por várias áreas, com diferentes níveis de atrito, pressão e capacidade de deslizamento. Essas partes podem interagir de maneira que uma representação isolada não consegue reproduzir completamente.
O estudo sugere que análises futuras devem combinar modelos mais amplos com observações de terremotos lentos em zonas de subducção do Anel de Fogo do Pacífico. O objetivo é avaliar como esses eventos revelam o acúmulo de tensão e a possível extensão de rupturas maiores, que podem gerar tsunamis.
Com informações de JGR Solid Earth.
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