O rio desce 15 cm por dia na Amazônia: o que a régua revela

O rio desce 15 cm por dia na Amazônia: o que a régua revela
Foto: James Martins, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0). Praia da Ponta Negra, às margens do rio Negro, em Manaus (AM). Imagem de arquivo, de 22 de janeiro de 2009, sem relação com a vazante de 2026.

O rio Amazonas desce cerca de 15 centímetros por dia em Itacoatiara, e o rio Negro chegou a perder 23 centímetros em 24 horas em Manaus, em 22 de setembro de 2026. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), os níveis ainda estão na faixa esperada para a época, mas a descida é acentuada: bem acima da média histórica de Manaus, de cerca de 8 centímetros por dia. A vazante costuma terminar entre outubro e novembro.

A cota atual e a taxa de descida

De acordo com o 39º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas, do SGB, divulgado em 29 de setembro, o rio Negro marcava 18,97 metros em Manaus, com queda de 18 centímetros em 24 horas. Em Itacoatiara, no rio Amazonas, a cota era de 5,72 metros, com queda de 17 centímetros.

A média de 15 centímetros por dia vem de dois registros do SGB para Itacoatiara: 10,06 metros em 31 de agosto e 5,72 metros em 29 de setembro, uma descida de 4,34 metros em 29 dias. O BNC Amazonas publicou em 30 de setembro que um técnico que monitora o rio há 30 anos relata queda de 14 a 15 centímetros por dia na cidade.

Em Manaus, o Porto de Manaus registrou 18,88 metros em 30 de setembro, queda de 16 centímetros. O rio começou setembro em 24,09 metros, com descida de 10 centímetros no dia 1º, e chegou a 23 centímetros no dia 22, a maior do mês. O pico do ano foi de 28,51 metros, entre 21 e 28 de junho.

Vazante normal ou evento extremo?

Na mesma data de 2024, o rio Negro marcava 13,36 metros em Manaus, segundo o SGB: 5,61 metros a menos que em 2026.

A mínima histórica da série do SGB, que começa em 1903, é de 12,13 metros e ocorreu em 2024. Em 2023, foi de 12,70 metros, em 26 de outubro. A média das mínimas anuais é de 17,46 metros, patamar que o rio ainda não alcançou. Em 1º de setembro, o SGB projetou para Manaus cotas entre 12,31 e 16,50 metros no pico da seca. No pior cenário, com descidas como as de 2015, o rio ficaria abaixo de 13 metros em 31 de outubro.

Como se mede a cota

Cota é a leitura do nível da água em uma régua na margem. O zero da régua não é o fundo do rio nem o nível do mar. O próprio SGB explica no boletim que as cotas são valores associados a uma referência de nível local e arbitrária, válida para a régua de cada estação. Por isso, 18,97 metros em Manaus não é profundidade, e a cota de menos 18 centímetros registrada em Itacoatiara em 1º de novembro de 2024 indica apenas água abaixo do zero daquela régua.

Cota também não é vazão. Cota é a altura da água; vazão é o volume que passa pela seção do rio. Segundo publicações técnicas do SGB, as estações relacionam as duas por meio de campanhas periódicas de medição de vazão.

Por que o rio desce em ritmos diferentes

Em Manaus, o rio Negro se encontra com o Solimões, e o nível da capital responde ao que acontece nos dois. Em janeiro de 2026, o gerente de Hidrologia do SGB, André Martinelli, atribuiu uma oscilação em Manaus a um movimento de recessão no Alto Solimões. O boletim de 29 de setembro mostra a diferença entre trechos: no alto Negro e no alto Solimões as cotas oscilam, e o SGB vê provável fim da vazante; em Manaus e no Amazonas a descida segue acentuada.

A chuva ajuda a explicar. Entre 30 de agosto e 29 de setembro, segundo o SGB, choveu abaixo da média nas bacias dos rios Negro e Juruá (índice de menos 1,2) e Purus (menos 1,0), classificadas como secas. Nas bacias do Marañon e do Ucayali, com cabeceiras nos Andes, a chuva ficou próxima do normal. O Inmet apontou em 29 de junho a chance de um El Niño muito forte na primavera e chuva abaixo da média no centro-norte do país.

E por que 15 centímetros por dia é rápido? Na série do SGB, a cheia média em Manaus chega a 27,94 metros e a vazante média termina em 17,46 metros. O rio leva em média 239 dias para subir e 125 para descer. Feita a conta, a descida média fica perto de 8 centímetros por dia.

O que a descida leva junto

Na navegação, a Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, da Marinha, publicou em 14 de julho o Comunicado Inicial da estiagem de 2026. Segundo o Guia Marítimo, o documento projeta as primeiras restrições de calado a partir da segunda quinzena de setembro, sobretudo entre Itacoatiara e Manaus, com estimativas preliminares de 8,00 metros para navios de combustíveis e 8,30 metros para porta-contêineres.

Nas cargas, o Grupo Chibatão deslocou um píer flutuante para Itacoatiara em setembro, informou a Transporte Moderno em 30 de setembro. Um estudo da Abac com a A&M Infra, divulgado pela Gazeta da Amazônia em 19 de setembro, estima que uma restrição de 2 metros de calado reduz em 35% a capacidade dos navios e eleva em 63% o custo por contêiner.

Na energia, a Operação Vazante da Âmbar Energia enviou 1.350 toneladas de materiais ao interior, informou A Crítica em 21 de setembro. O governo do Amazonas decretou emergência nos 62 municípios em 21 de setembro, por 180 dias. No boletim da Defesa Civil de 26 de setembro, 18 municípios estavam em emergência e 19 em alerta.

Entenda

  • Cota: altura da água numa régua local, em metros. Não mede volume nem profundidade.
  • Zero da régua: referência arbitrária de cada estação. Cota negativa é água abaixo desse zero.
  • Vazão: volume de água que passa pelo rio, calculado por medições em campo.
  • Vazante: descida anual do rio, que em Manaus termina em outubro ou novembro em 91% dos anos.

O que vem a seguir

O SGB alerta que a falta de chuva entre setembro e novembro pode prolongar a vazante nas calhas dos rios Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós. Os próximos boletins dirão se a descida perde ritmo antes de tocar as mínimas de 2023 e 2024.

Com informações do Serviço Geológico do Brasil, do Porto de Manaus, do BNC Amazonas, do Inmet, do Governo do Amazonas, do Guia Marítimo, da Transporte Moderno, da Gazeta da Amazônia e de A Crítica.

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