
O rio Amazonas desce cerca de 15 centímetros por dia em Itacoatiara, e o rio Negro chegou a perder 23 centímetros em 24 horas em Manaus, em 22 de setembro de 2026. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), os níveis ainda estão na faixa esperada para a época, mas a descida é acentuada: bem acima da média histórica de Manaus, de cerca de 8 centímetros por dia. A vazante costuma terminar entre outubro e novembro.
A cota atual e a taxa de descida
De acordo com o 39º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas, do SGB, divulgado em 29 de setembro, o rio Negro marcava 18,97 metros em Manaus, com queda de 18 centímetros em 24 horas. Em Itacoatiara, no rio Amazonas, a cota era de 5,72 metros, com queda de 17 centímetros.
A média de 15 centímetros por dia vem de dois registros do SGB para Itacoatiara: 10,06 metros em 31 de agosto e 5,72 metros em 29 de setembro, uma descida de 4,34 metros em 29 dias. O BNC Amazonas publicou em 30 de setembro que um técnico que monitora o rio há 30 anos relata queda de 14 a 15 centímetros por dia na cidade.
Em Manaus, o Porto de Manaus registrou 18,88 metros em 30 de setembro, queda de 16 centímetros. O rio começou setembro em 24,09 metros, com descida de 10 centímetros no dia 1º, e chegou a 23 centímetros no dia 22, a maior do mês. O pico do ano foi de 28,51 metros, entre 21 e 28 de junho.
Vazante normal ou evento extremo?
Na mesma data de 2024, o rio Negro marcava 13,36 metros em Manaus, segundo o SGB: 5,61 metros a menos que em 2026.
A mínima histórica da série do SGB, que começa em 1903, é de 12,13 metros e ocorreu em 2024. Em 2023, foi de 12,70 metros, em 26 de outubro. A média das mínimas anuais é de 17,46 metros, patamar que o rio ainda não alcançou. Em 1º de setembro, o SGB projetou para Manaus cotas entre 12,31 e 16,50 metros no pico da seca. No pior cenário, com descidas como as de 2015, o rio ficaria abaixo de 13 metros em 31 de outubro.
Como se mede a cota
Cota é a leitura do nível da água em uma régua na margem. O zero da régua não é o fundo do rio nem o nível do mar. O próprio SGB explica no boletim que as cotas são valores associados a uma referência de nível local e arbitrária, válida para a régua de cada estação. Por isso, 18,97 metros em Manaus não é profundidade, e a cota de menos 18 centímetros registrada em Itacoatiara em 1º de novembro de 2024 indica apenas água abaixo do zero daquela régua.
Cota também não é vazão. Cota é a altura da água; vazão é o volume que passa pela seção do rio. Segundo publicações técnicas do SGB, as estações relacionam as duas por meio de campanhas periódicas de medição de vazão.
Por que o rio desce em ritmos diferentes
Em Manaus, o rio Negro se encontra com o Solimões, e o nível da capital responde ao que acontece nos dois. Em janeiro de 2026, o gerente de Hidrologia do SGB, André Martinelli, atribuiu uma oscilação em Manaus a um movimento de recessão no Alto Solimões. O boletim de 29 de setembro mostra a diferença entre trechos: no alto Negro e no alto Solimões as cotas oscilam, e o SGB vê provável fim da vazante; em Manaus e no Amazonas a descida segue acentuada.
A chuva ajuda a explicar. Entre 30 de agosto e 29 de setembro, segundo o SGB, choveu abaixo da média nas bacias dos rios Negro e Juruá (índice de menos 1,2) e Purus (menos 1,0), classificadas como secas. Nas bacias do Marañon e do Ucayali, com cabeceiras nos Andes, a chuva ficou próxima do normal. O Inmet apontou em 29 de junho a chance de um El Niño muito forte na primavera e chuva abaixo da média no centro-norte do país.
E por que 15 centímetros por dia é rápido? Na série do SGB, a cheia média em Manaus chega a 27,94 metros e a vazante média termina em 17,46 metros. O rio leva em média 239 dias para subir e 125 para descer. Feita a conta, a descida média fica perto de 8 centímetros por dia.
O que a descida leva junto
Na navegação, a Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, da Marinha, publicou em 14 de julho o Comunicado Inicial da estiagem de 2026. Segundo o Guia Marítimo, o documento projeta as primeiras restrições de calado a partir da segunda quinzena de setembro, sobretudo entre Itacoatiara e Manaus, com estimativas preliminares de 8,00 metros para navios de combustíveis e 8,30 metros para porta-contêineres.
Nas cargas, o Grupo Chibatão deslocou um píer flutuante para Itacoatiara em setembro, informou a Transporte Moderno em 30 de setembro. Um estudo da Abac com a A&M Infra, divulgado pela Gazeta da Amazônia em 19 de setembro, estima que uma restrição de 2 metros de calado reduz em 35% a capacidade dos navios e eleva em 63% o custo por contêiner.
Na energia, a Operação Vazante da Âmbar Energia enviou 1.350 toneladas de materiais ao interior, informou A Crítica em 21 de setembro. O governo do Amazonas decretou emergência nos 62 municípios em 21 de setembro, por 180 dias. No boletim da Defesa Civil de 26 de setembro, 18 municípios estavam em emergência e 19 em alerta.
Entenda
- Cota: altura da água numa régua local, em metros. Não mede volume nem profundidade.
- Zero da régua: referência arbitrária de cada estação. Cota negativa é água abaixo desse zero.
- Vazão: volume de água que passa pelo rio, calculado por medições em campo.
- Vazante: descida anual do rio, que em Manaus termina em outubro ou novembro em 91% dos anos.
O que vem a seguir
O SGB alerta que a falta de chuva entre setembro e novembro pode prolongar a vazante nas calhas dos rios Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós. Os próximos boletins dirão se a descida perde ritmo antes de tocar as mínimas de 2023 e 2024.
Com informações do Serviço Geológico do Brasil, do Porto de Manaus, do BNC Amazonas, do Inmet, do Governo do Amazonas, do Guia Marítimo, da Transporte Moderno, da Gazeta da Amazônia e de A Crítica.
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