
Revisão internacional mostra que a biodiversidade dos insetos influencia abrigo, reprodução, higiene e sobrevivência de vertebrados.
Quando uma ave encontra material para construir o ninho, um réptil deposita ovos em um abrigo com temperatura estável ou uma preguiça mantém algas no próprio pelo, há insetos envolvidos nessa história. Uma revisão internacional publicada em 30 de setembro de 2026 mostra que a biodiversidade dos insetos sustenta vertebrados de maneiras que vão muito além da alimentação, da polinização e da decomposição.
O trabalho foi publicado na revista Nature Reviews Biodiversity por pesquisadores de oito países, com participação da Binghamton University, nos Estados Unidos. O estudo reuniu centenas de pesquisas produzidas ao longo de décadas para organizar funções pouco lembradas dos insetos, como oferecer abrigo, ajudar na higiene, fornecer substâncias usadas por outros animais e influenciar o período de reprodução de diferentes espécies.
Uma relação que começa muito antes da cadeia alimentar
A associação mais conhecida entre insetos e vertebrados é a de presa e predador. Beija-flores, aves, morcegos e outros animais consomem insetos diretamente, enquanto espécies maiores também dependem deles de forma indireta, porque muitos insetos participam da formação de outras fontes de alimento.
Mas a revisão mostra que o vínculo é mais amplo. Chimpanzés usam insetos para limpar e esterilizar ferimentos. Garças podem empregar esses animais como isca para atrair peixes. Mais de 200 espécies de aves usam formigas trituradas durante a limpeza do corpo, um comportamento conhecido como “formicar”.
Há também relações que parecem improváveis. Mariposas vivem no pelo de preguiças-de-dois-dedos de Hoffmann, na Costa Rica. A presença delas contribui para a manutenção das algas que crescem na pelagem, e essas algas são consumidas pelas próprias preguiças. Nesse caso, o inseto participa de uma cadeia que conecta abrigo, alimento e camuflagem.
O abrigo construído por formigas e cupins
Insetos sociais também modificam o ambiente a ponto de criar condições para outros vertebrados. A revisão cita aves e répteis que colocam ovos dentro de cupinzeiros, aproveitando o controle de temperatura oferecido por essas estruturas.
Em regiões desérticas, algumas rãs ocupam ninhos de formigas porque encontram ali umidade mais favorável. A arquitetura produzida pelos insetos passa a funcionar como extensão do habitat de animais que não conseguiriam enfrentar as condições externas com a mesma segurança.
O mesmo princípio aparece nos ninhos. Aves usam seda de aranhas e de insetos na construção, e algumas instalam suas estruturas próximas a vespas que picam possíveis predadores. A presença desses insetos pode funcionar como uma barreira de proteção para os filhotes.
O efeito do declínio sobre aves, anfíbios e mamíferos
Segundo a Binghamton University, a revisão publicada em 30 de setembro de 2026 aponta que existem entre 14 milhões e 30 milhões de espécies de insetos no mundo e que a redução de suas populações pode alterar o funcionamento dos ecossistemas.
A estimativa apresentada pela bióloga Eliza Grames indica uma perda de cerca de 1% a 2% ao ano em populações de insetos. O percentual pode parecer limitado quando observado em apenas 12 meses, mas se acumula durante décadas e modifica a disponibilidade de alimento, abrigo e serviços ecológicos para os vertebrados.
Um dos problemas identificados pelos autores é que muitos estudos avaliam o declínio dos insetos apenas como diminuição da oferta de presas. Essa leitura deixa de fora consequências como a falta de materiais para ninhos, a perda de abrigo em cupinzeiros e formigueiros, a interrupção de comportamentos de higiene e a alteração do calendário reprodutivo de espécies que acompanham os períodos de maior abundância de insetos.
Para conservar vertebrados, também é necessário considerar a conservação dos insetos, segundo a conclusão defendida pelos pesquisadores.
Por que isso importa para a Amazônia
Na Amazônia, a conexão é especialmente relevante porque a sobrevivência de aves, répteis, anfíbios e mamíferos depende de redes ecológicas complexas. O estudo não apresenta uma medição específica para os estados amazônicos, mas oferece uma chave para interpretar impactos que não aparecem quando os insetos são vistos apenas como pragas ou como alimento de animais insetívoros.
Para quem vive no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins, a mensagem é prática: proteger vertebrados exige preservar também os ambientes onde os insetos se alimentam, se reproduzem e constroem suas estruturas. A conservação de uma ave ou de um mamífero não se resume à proteção direta do animal. Ela inclui os organismos menores que fornecem recursos e alteram o espaço ao redor.
Essa abordagem também ajuda a evitar respostas incompletas. Uma estratégia voltada somente à criação de áreas para grandes animais pode falhar se não considerar a diversidade de insetos que mantém o alimento disponível, participa da polinização ou oferece abrigo a outras espécies. A pesquisa recomenda aproximar especialistas que estudam vertebrados daqueles dedicados aos insetos.
Uma rede internacional para preencher lacunas
O trabalho começou em 2022, com a criação da rede internacional de coordenação de pesquisas Status of Insects, financiada pela National Science Foundation. A iniciativa surgiu a partir da trajetória de Grames como doutoranda no laboratório de Chris Elphick, professor de Ecologia e Biologia Evolutiva da University of Connecticut.
Grames e Rob Cooke, modelador ecológico do UK Centre for Ecology and Hydrology, lideraram a revisão ao lado de Elphick. Também participaram Lindsey Swierk, professora assistente de Ciências Biológicas da Binghamton University, e as ex-alunas Julianna Yager e Suyeon Jang. Jang criou a ilustração principal do artigo durante um projeto independente de estudos.
A rede reúne pesquisadores interessados em compreender o papel dos insetos e pode ser consultada no site do Status of Insects. O próximo passo apontado pelo estudo é transformar esse conhecimento em políticas de conservação capazes de acompanhar não apenas a perda de vertebrados, mas também a queda dos organismos que sustentam suas vidas.
Com informações de Binghamton University.
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