Extrato de laranja moro vendido como suplemento para emagrecer protege o estômago de ratos e cicatriza úlcera crônica como o omeprazol em estudo da UFPA

Extrato de laranja moro vendido como suplemento para emagrecer protege o estômago de ratos e cicatriza úlcera crônica como o omeprazol em estudo da UFPA
Foto: Divulgação

Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da UFPA testou o Morosil® em três modelos de lesão gástrica e abre caminho para estudos de uso combinado com medicamentos.

Um suplemento comercializado para quem quer perder peso mostrou, em laboratório, outra utilidade: proteger o estômago e cicatrizar lesões. Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal do Pará (UFPA) testaram o extrato padronizado da laranja moro, o Morosil®, em ratos com úlceras gástricas e observaram efeito gastroprotetor e cicatrizante. Na úlcera crônica, o resultado foi comparável ao do omeprazol, segundo a pesquisadora Allane Patrícia Santos da Paz.

O trabalho foi apresentado na edição 177 do Jornal Beira do Rio, da UFPA, e resultou na dissertação “Efeito gastroprotetor e cicatrizante do extrato padronizado de Citrus sinensis (L.) Osbeck (Morosil®)”, orientada pela professora Vanessa Jóia de Mello.

Por que o tratamento atual deixa a desejar para alguns pacientes

A úlcera é uma lesão na mucosa do trato digestivo e pode aparecer no estômago (gástrica), no início do intestino delgado (duodenal) e no esôfago. Os sinais mais comuns são queimação na boca do estômago, piora em jejum, náuseas, azia e vômitos, às vezes com sangue.

Existem medicamentos eficazes, mas parte dos pacientes convive com efeitos colaterais, como dor de cabeça, erupções na pele, tontura, náuseas, dores abdominais, gases, constipação e diarreia. É esse incômodo que motivou a busca por uma estratégia complementar, que não substitua o tratamento convencional, mas reduza a chance de efeitos adversos.

Como a úlcera surge e onde o extrato entra

Segundo o estudo, a doença aparece quando agressores da mucosa, como álcool, medicamentos, estresse ou infecções, superam as defesas naturais do estômago, entre elas a produção de muco. Com a barreira enfraquecida, surgem gastrites e úlceras.

A laranja moro é originária da Itália e tem cor avermelhada por conter antocianinas, pigmentos de forte ação antioxidante que, de acordo com a pesquisa, não são encontrados em outras frutas cítricas. A fruta já é associada à perda de peso, ao controle do colesterol e ao fortalecimento da imunidade. É por esse perfil antioxidante que compostos como os do extrato são considerados promissores contra lesões gástricas.

Do teste em células aos ensaios em ratos

A equipe trabalhou em etapas. Primeiro, fez um ensaio in vitro com células epiteliais de rim de macaco verde africano para avaliar o potencial cicatrizante do extrato. Essa fase seguiu o princípio dos 3Rs, que orienta a redução, a substituição e o refinamento do uso de animais em experimentos.

Com os resultados iniciais favoráveis, os testes passaram para a fase in vivo. Em ratos, as úlceras foram induzidas por três métodos:

  • etanol, que simula lesões ligadas ao estresse oxidativo ou ao consumo excessivo de álcool;
  • indometacina, que representa o uso crônico de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs);
  • ácido acético, que provoca lesões crônicas e profundas.

As substâncias foram administradas por uma cânula que as levava diretamente ao estômago dos animais, com dose ajustada ao peso corporal. Os pesquisadores verificaram que o efeito do extrato foi dose-dependente, ou seja, variou conforme a quantidade administrada, o que ajudou a definir as concentrações com melhor resposta.

Resultado comparável ao de remédios conhecidos

Segundo a UFPA, o Morosil® apresentou eficácia semelhante à de medicamentos amplamente usados no tratamento de úlceras. Na lesão crônica, induzida por ácido acético, o grupo de comparação recebeu omeprazol. Nas lesões agudas, causadas por etanol ou anti-inflamatório, o controle foi o sucralfato.

“No caso da úlcera crônica, induzida com ácido acético, comparamos com o omeprazol, e os resultados foram tão bons quanto. E na úlcera aguda, causada por etanol ou anti-inflamatórios, usamos o sucralfato como controle, e o efeito também foi positivo”, relata Allane Paz.

Por que usar um extrato já vendido

Em vez da fruta in natura, a equipe escolheu o extrato padronizado, que garante composição uniforme. O pó foi adquirido de uma distribuidora oficial. “A escolha do extrato dessa laranja foi por ser um produto já comercializado. O Morosil® (nome comercial) já é usado para perda de peso. Seu potencial biológico, em especial suas características antioxidantes, nos fez apostar nessa outra aplicação”, explica a pesquisadora.

O que isso significa para quem vive no Pará

A pesquisa foi feita em Belém, na principal universidade pública do estado. Para os autores, compostos naturais acessíveis podem ser úteis em contextos de saúde pública, como o Sistema Único de Saúde (SUS), e em regiões com menor acesso a medicamentos industrializados, realidade comum em municípios distantes da capital paraense.

É preciso cautela: os resultados vêm de testes em células e em animais. O estudo não indica que a laranja moro ou o suplemento possam ser usados por conta própria no lugar do tratamento prescrito. Quem tem sintomas persistentes de úlcera deve procurar atendimento médico.

Próximo passo: combinar com o omeprazol

A equipe planeja uma nova frente de investigação para avaliar a associação do extrato com medicamentos convencionais, como o omeprazol. “A gente testou o extrato sozinho, mas também seria interessante estudar o uso combinado. Será que, tomando junto com esse suplemento, o omeprazol teria seu efeito potencializado? Isso também ajudaria a reduzir os efeitos colaterais e, consequentemente, o abandono do tratamento”, afirma Allane Paz.

Dúvidas comuns

Já posso tomar o suplemento de laranja moro para tratar úlcera?

Não. O estudo foi feito em células e em ratos e propõe o extrato apenas como possível complemento futuro. O uso em pessoas depende de novas pesquisas e de orientação médica.

O extrato substitui o omeprazol?

Não. Segundo a pesquisa, a proposta é uma estratégia complementar, sem substituir os tratamentos convencionais.

Com informações de Universidade Federal do Pará (UFPA), Jornal Beira do Rio.

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