Agricultura mundial produz mais usando mais recursos, e produtividade cai ao menor ritmo em 50 anos

Agricultura mundial produz mais usando mais recursos, e produtividade cai ao menor ritmo em 50 anos
Foto: Photo by Sam Dean Photography

Relatório da Virginia Tech mostra por que ampliar a oferta de alimentos sem pressionar terra, água e solo virou um desafio global.

Colher mais não significa necessariamente produzir melhor. Em várias partes do mundo, o aumento da produção agrícola vem acompanhado de maior uso de terra, fertilizantes, máquinas e outros recursos. Essa dependência ajuda a explicar por que a produtividade agrícola mundial avançou apenas 0,63% ao ano entre 2015 e 2024, o ritmo mais baixo dos últimos 50 anos, segundo dados da Virginia Tech.

O alerta está no Global Agricultural Productivity Report 2026, elaborado pela Global Agricultural Productivity Initiative. O documento relaciona a desaceleração ao risco de que a agricultura precise ocupar novas áreas e consumir mais insumos para atender à demanda projetada até 2050.

Mais produção, mas com uma conta maior

A produtividade agrícola mede quanto é produzido em relação ao conjunto de recursos empregados. Quando ela cresce, o campo consegue entregar mais alimentos, fibras, ração e combustíveis sem aumentar na mesma proporção o uso de terra, trabalho, capital, fertilizantes e alimentação animal.

O problema identificado pelos pesquisadores não é que a produtividade tenha parado de crescer. Ela ainda aumenta, mas em velocidade insuficiente. Se o ritmo atual continuar, a oferta necessária para abastecer a população nas próximas décadas dependerá de uma expansão mais intensa dos recursos usados na produção.

Na prática, isso pode elevar os custos dos produtores e ampliar o risco financeiro das propriedades. Para os consumidores, a pressão não aparece apenas no preço dos alimentos. A agricultura também fornece matérias-primas para roupas, medicamentos, combustíveis e refeições vendidas por restaurantes.

O contraste dos Estados Unidos

Os Estados Unidos apresentam um resultado mais favorável em um dos principais indicadores do relatório. Na última década analisada, todo o crescimento da produção agrícola norte-americana veio de ganhos de produtividade, enquanto o uso total de terra, mão de obra, capital, fertilizantes e ração diminuiu.

Isso não significa, porém, que o país esteja imune à desaceleração. Entre 2015 e 2024, a produtividade agrícola dos Estados Unidos cresceu 0,63% ao ano. Na década de 1980, a taxa havia sido de 2,09% ao ano.

A comparação mostra que produzir mais com menos recursos continua sendo possível, mas os ganhos obtidos no passado estão mais difíceis de repetir. Para Tom Thompson, diretor da CALS Global e editor executivo do relatório, o desafio é acelerar a produtividade sem voltar a depender da expansão de áreas e insumos.

Por que os ganhos estão mais lentos

Os autores apontam uma combinação de fatores, e não uma causa isolada. Entre eles estão a redução dos investimentos públicos em pesquisa agrícola, as dificuldades para que produtores adotem tecnologias já comprovadas, a perda de eficiência de alguns insumos convencionais e o aumento do estresse climático em diferentes regiões.

O intervalo entre uma descoberta científica e sua aplicação no campo também pesa. Uma pesquisa pode levar anos ou décadas até resultar em uma variedade, equipamento, técnica de manejo ou sistema de produção acessível aos agricultores. Parte da desaceleração observada hoje, portanto, pode refletir decisões de investimento tomadas muito antes.

Jessica Agnew, diretora da Global Agricultural Productivity Initiative, destaca que o custo adicional de produzir com mais recursos pode chegar a diferentes cadeias de consumo. O efeito passa pelo supermercado, mas também alcança setores que dependem de produtos originados nas fazendas.

O que isso representa para a Amazônia

Na Amazônia, o debate é especialmente relevante porque a expansão da produção precisa ser conciliada com a conservação de florestas, solos e recursos hídricos. Para estados como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, aumentar a produtividade em áreas já utilizadas pode ser uma alternativa mais compatível com a redução da pressão por novas áreas, desde que as tecnologias sejam adequadas a cada cultivo e sistema produtivo.

O relatório não apresenta, neste material, uma taxa específica para cada estado amazônico. Ainda assim, sua lógica ajuda a organizar uma questão decisiva para a região: investimentos em pesquisa, assistência técnica, infraestrutura, crédito e recuperação da qualidade do solo precisam chegar juntos ao produtor. Uma tecnologia isolada não resolve o problema se o agricultor não puder comprá-la, aprender a utilizá-la ou escoar a produção.

Segundo a Virginia Tech, a produtividade agrícola mundial cresceu 0,63% ao ano entre 2015 e 2024, o menor ritmo registrado em 50 anos.

Dados reunidos para orientar investimentos

Uma das dificuldades para definir prioridades é que as informações agrícolas costumam estar espalhadas em estatísticas nacionais, pesquisas com produtores, imagens de satélite e outras bases que não foram criadas para funcionar em conjunto.

Para enfrentar essa fragmentação, a Virginia Tech trabalhou com a Google Public Sector e a Appnovation na criação do GAP IQ, uma plataforma gratuita e aberta que reúne seis décadas de dados agrícolas globais. A ferramenta permite comparar países e regiões e examinar como investimentos em pesquisa, capacitação de agricultores, irrigação e saúde do solo podem influenciar a produtividade.

O portal da Global Agricultural Productivity Initiative apresenta a plataforma e outros conteúdos do projeto. A proposta é oferecer uma base para governos, pesquisadores, investidores e organizações agrícolas identificarem onde determinados recursos podem produzir maior efeito.

Inovação precisa chegar ao campo

Para reverter a tendência, o relatório defende uma combinação de pesquisa e condições práticas de adoção. Isso inclui financiamento, treinamento, infraestrutura e políticas públicas capazes de transformar uma solução desenvolvida em laboratório em uma prática incorporada à rotina das propriedades.

A prioridade, segundo os pesquisadores, não será igual em todos os lugares. O investimento mais útil dependerá do cultivo, do clima, do tipo de produtor e do sistema de produção de cada região. O ponto central é fazer com que o aumento da oferta venha principalmente de eficiência, e não de uma pressão crescente sobre terra, água e solo.

Governos, instituições de pesquisa, empresas e organizações do setor terão de usar os dados reunidos no relatório para definir prioridades e acompanhar se os investimentos estão acelerando a produtividade nos próximos anos.

Com informações de Virginia Tech.

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