
Estudo mostra que a velocidade do aquecimento mudou em períodos diferentes conforme a região do planeta.
O calor do planeta não está aumentando como uma linha reta e igual em todos os mapas. Uma pesquisa internacional identificou regiões onde o aquecimento ganhou velocidade em diferentes momentos entre 1970 e 2024, um padrão que ajuda a explicar por que algumas áreas podem enfrentar uma escalada mais rápida de ondas de calor e recordes de temperatura.
O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, e contou com a participação da professora emérita Rebecca Killick, ligada à Lancaster University e à Clemson University. Os resultados foram publicados em 24 de setembro de 2026 na revista Nature Communications, com análise de diferentes bases de dados de temperatura da superfície terrestre.
O aquecimento mudou de ritmo conforme o lugar
Em vez de encontrar uma aceleração única e simultânea em todo o planeta, a equipe detectou assinaturas regionais. Partes das latitudes médias do Hemisfério Norte aparecem entre as áreas onde o aumento da temperatura se tornou mais veloz, incluindo o sudeste da China e o Golfo do México.
Outros sinais mais recentes foram observados no Mediterrâneo Oriental, na Bolívia, no Pacífico Norte e na Nova Zelândia. A lista mostra que o fenômeno não se limita a uma faixa continental ou a um único tipo de clima. Cada região passou por mudanças em seu próprio momento.
Segundo o estudo publicado na Nature Communications, as acelerações regionais do aquecimento surgiram em ondas entre a década de 1980 e a década de 2010, dependendo da área analisada.
Por que 2023 e 2024 aumentaram a atenção
A pesquisa chega depois de dois anos que ampliaram a preocupação de cientistas e gestores públicos. 2023 e 2024 foram os anos mais quentes desde o início dos registros de temperatura média da superfície, em 1850. A sequência alimentou o debate sobre a possibilidade de o aquecimento global estar acelerando.
O trabalho não responde, sozinho, se existe uma aceleração planetária uniforme. Seu objetivo foi mais específico: localizar onde as taxas de aquecimento mudaram e indicar quando essas mudanças começaram. Essa diferença é importante porque uma média mundial pode esconder comportamentos muito distintos entre continentes, oceanos e zonas climáticas.
Quando a temperatura de uma região sobe continuamente, o ponto de partida para eventos extremos também fica mais alto. Se, além disso, o ritmo de elevação se intensifica, aumenta a possibilidade de novos recordes de calor. O resultado pode pressionar sistemas de saúde, agricultura, energia, abastecimento de água e infraestrutura urbana.
A pista dos aerossóis, mas não uma causa fechada
Os pesquisadores apontam que fatores locais podem ter contribuído para algumas das mudanças observadas. Em partes da China, por exemplo, o momento em que a aceleração apareceu coincide com a redução das emissões de dióxido de enxofre de usinas movidas a carvão.
Esse poluente participa da formação de aerossóis, partículas que interferem na quantidade de radiação solar que chega à superfície. Com menos poluição atmosférica, mais luz pode alcançar o solo e contribuir para um aquecimento regional mais rápido. A hipótese, porém, não deve ser confundida com uma conclusão definitiva sobre todos os locais analisados.
O estudo identificou padrões no tempo e no espaço, mas não estabeleceu a causa física de cada aceleração. Para isso, serão necessários trabalhos adicionais que combinem os registros de temperatura com circulação atmosférica, oceanos, uso do solo, emissões e outros fatores ambientais.
O que a descoberta representa para a Amazônia
O resultado interessa diretamente ao planejamento climático na Amazônia, mesmo sem afirmar que a floresta ou qualquer estado amazônico esteja entre os pontos de aceleração destacados pela pesquisa. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins reúnem cidades, áreas rurais, rios e ecossistemas que respondem de maneira diferente ao calor e à alteração do regime de chuvas.
Para esses territórios, a principal contribuição do estudo está no método. Avaliar a velocidade do aquecimento em escala regional pode ser mais útil para decisões locais do que observar somente a média global. Um município amazônico precisa saber como sua própria temperatura está mudando, em quais períodos os extremos se tornam mais prováveis e quais setores estão mais expostos.
Na prática, esse tipo de informação pode orientar planos para proteger comunidades vulneráveis, ajustar calendários agrícolas, preparar serviços de saúde e definir prioridades de monitoramento ambiental. Também ajuda a evitar uma leitura simplificada de que toda a Amazônia enfrenta exatamente o mesmo clima ou os mesmos riscos.
Mapa interativo tenta aproximar os dados do público
Além do artigo científico, a equipe criou um painel interativo que permite consultar as taxas locais de aquecimento em um mapa. A proposta é transformar uma análise estatística complexa em uma ferramenta de consulta para pesquisadores, gestores e moradores interessados no comportamento climático de sua região.
Esse recurso pode ser especialmente útil para comparar áreas vizinhas e identificar diferenças que desaparecem quando os dados são agrupados em escalas muito amplas. Ainda assim, o mapa não substitui avaliações de risco. Temperatura é apenas uma das variáveis que determinam os impactos de uma onda de calor, junto com umidade, duração do evento, condição da população e capacidade de resposta dos serviços públicos.
O estudo foi assinado por Claudie Beaulieu e Adelicia Johnson, da UC Santa Cruz, Rebecca Killick, da Clemson University e Lancaster University, além de John Lanzante e Thomas Knutson, do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA. A pesquisa recebeu financiamento da National Science Foundation por meio da bolsa CAREER AGS-2143550.
Os próximos passos devem aprofundar as causas de cada padrão regional e transformar os sinais encontrados em avaliações de risco mais específicas para cidades, ecossistemas e populações expostas ao calor.
Com informações de Lancaster University.
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