
Modelos para cinco países europeus indicam que cortar carros, aquecimento fóssil e produtos de origem animal será decisivo.
Trocar tecnologias poluentes por alternativas mais limpas pode reduzir uma parte importante das emissões, mas não resolve sozinho o problema climático. Para tentar limitar o aquecimento global a 1,5°C, será necessário combinar mudanças na indústria com transformações no cotidiano das famílias, segundo uma pesquisa da Universidade de Leiden, nos Países Baixos.
O estudo foi elaborado pela ecologista industrial Stephanie Cap e analisa cenários para 2030 e 2050 em Alemanha, Espanha, Letônia, Hungria e Suécia. A pesquisa mostra que as escolhas individuais têm peso real, mas também evidencia que ninguém consegue mudar de forma consistente quando governos e empresas não oferecem infraestrutura, produtos e serviços compatíveis com uma economia de baixo carbono.
O que precisa mudar dentro de casa
Entre as medidas com maior potencial de redução das emissões aparecem três grupos de escolhas: diminuir o uso de automóveis com motor a combustão, abandonar sistemas de aquecimento movidos a combustíveis fósseis e ampliar a participação de alimentos de origem vegetal na dieta.
Essas ações não devem ser interpretadas apenas como uma lista de sacrifícios pessoais. Na prática, deixar o carro em casa depende de transporte público confiável, de trajetos possíveis e de horários de trabalho compatíveis. Da mesma forma, trocar o sistema de aquecimento exige acesso a equipamentos, energia e financiamento.
A pesquisa também considera que a indústria avançaria rapidamente na descarbonização. O termo descreve a redução das emissões de gases de efeito estufa associadas à produção de bens, à geração de energia e aos serviços. Mesmo nesse cenário favorável, a indústria mais limpa não eliminaria a necessidade de mudanças no consumo.
Como os pesquisadores calcularam a pegada de carbono
Cap utilizou modelos baseados na base de dados EXIOBASE, que relaciona o consumo final às etapas anteriores da cadeia produtiva. Assim, o cálculo não olha apenas para a emissão direta de uma atividade, mas também para a energia, os materiais, o transporte e os processos envolvidos antes de um produto chegar ao consumidor.
Uma compra de alimentos, um computador ou uma viagem de trem, por exemplo, pode ser associada a diferentes volumes de gases de efeito estufa. Essa abordagem é chamada de pegada de carbono. Ela funciona como uma conta ampliada: além do que acontece no ponto de consumo, considera o que foi emitido durante a produção e a distribuição.
Os cenários foram organizados em diferentes combinações de medidas. A intenção foi observar o que aconteceria caso parcelas da população adotassem mudanças de maior impacto enquanto setores industriais também reduzissem suas emissões.
O peso da adesão varia entre os países
Para 2030, os modelos apontam que o limite de 1,5°C ainda seria teoricamente alcançável nos cinco países analisados. O resultado, porém, dependeria da participação de uma parcela muito ampla da sociedade. Em países com emissões relativamente elevadas, pelo menos 87% da população precisaria aderir a um conjunto abrangente de mudanças.
Na Espanha e na Hungria, a proporção estimada seria menor, entre 50% e 60%. A diferença está ligada ao ponto de partida de cada país, incluindo a infraestrutura de energias renováveis, a dependência de combustíveis fósseis, a renda das famílias e as políticas públicas existentes.
O horizonte de 2050 apresenta uma dificuldade ainda maior. Nos cenários avaliados, Alemanha, Letônia e Suécia não conseguem atingir o objetivo de 1,5°C. Apenas Espanha e Hungria alcançam esse resultado de forma teórica, e ainda assim com a adoção quase completa das medidas de maior impacto.
O resultado não transforma consumidores em únicos responsáveis
Os números de adesão podem dar a impressão de que a crise climática será resolvida apenas com decisões individuais. A conclusão da pesquisa segue em direção oposta. Segundo a Universidade de Leiden, os cenários para limitar o aquecimento global a 1,5°C exigem simultaneamente descarbonização industrial e mudanças amplas no consumo das famílias.
Essa divisão de responsabilidades é importante porque muitas escolhas dependem de condições que estão fora do controle doméstico. Uma pessoa pode desejar reduzir o uso do automóvel, mas encontrar poucas opções de transporte coletivo. Uma família pode querer substituir uma caldeira a combustível fóssil, mas não ter recursos para fazer a troca. O consumidor também não controla sozinho a matriz energética, a oferta de produtos ou as regras de construção das cidades.
Por isso, empresas e governos precisam criar as condições para que opções menos emissoras sejam acessíveis, disponíveis e economicamente viáveis. A pesquisa defende uma pressão maior por aquecimento sem combustíveis fósseis, transporte de baixa emissão e políticas que estimulem mudanças de estilo de vida sem transferir todo o custo para os cidadãos.
O que a conclusão significa para a Amazônia
Embora os cálculos tenham sido feitos para cinco países europeus, a lógica é útil para a Amazônia brasileira. Nos estados da região, decisões sobre transporte, eletricidade, moradia, alimentação e produção também dependem da infraestrutura disponível e das distâncias entre comunidades e centros urbanos.
Isso significa que campanhas para mudar hábitos precisam caminhar junto com políticas públicas adequadas à realidade de Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. Uma mesma recomendação pode ser viável em uma capital e impraticável em uma área rural ou ribeirinha. A transição climática, portanto, precisa considerar renda, território, acesso a serviços e as diferenças entre os estados amazônicos.
O estudo não apresenta uma previsão do futuro nem uma avaliação específica do Brasil. Seus cenários são exploratórios, foram construídos a partir de uma base de referência de 2015 e utilizam trajetórias de descarbonização desenvolvidas alguns anos atrás. Essas limitações impedem que os percentuais sejam transportados diretamente para outros países.
Ainda assim, os resultados ajudam a dimensionar a escala do desafio. A mensagem central é que a modernização das fábricas e do setor energético não basta, assim como não bastaria exigir que as famílias mudassem sem oferecer alternativas. O caminho depende da combinação entre decisões públicas, escolhas empresariais e participação social.
A pesquisa de Stephanie Cap será defendida em 1º de outubro, quando o trabalho sobre os cenários de descarbonização para 2030 e 2050 deverá ser apresentado formalmente na Universidade de Leiden.
Os dados e modelos utilizados no estudo podem ser consultados na base EXIOBASE, que reúne informações econômicas e ambientais.
Com informações de Leiden University.
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