Água doce do Amazonas viaja centenas de quilômetros mar adentro, deixa o Atlântico 9% menos salgado e ajuda o oceano a puxar CO₂ do ar

Água doce do Amazonas viaja centenas de quilômetros mar adentro, deixa o Atlântico 9% menos salgado e ajuda o oceano a puxar CO₂ do ar
Pluma escura de água rica em nutrientes do rio Amazonas avançando sobre o Atlântico, vista pelo satélite Aqua. Imagem: NASA Goddard Space Flight Center, domínio público.

O rio Amazonas despeja no mar cerca de um quinto de toda a água doce que chega aos oceanos do planeta. Essa massa de água não se mistura de imediato: forma a pluma do Amazonas, que as correntes levam a centenas de quilômetros da foz. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) mediu pela primeira vez, com dados reais, o tamanho desse efeito na química do oceano.

A pluma reduz a salinidade média do Atlântico Tropical Oeste em cerca de 9%. E essa diluição favorece a absorção de dióxido de carbono, o CO₂, da atmosfera pelo oceano.

O trabalho foi publicado em 30 de setembro de 2026 na revista científica Global Biogeochemical Cycles, com colaboração da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Sorbonne, na França.

28 anos de dados de navios

A equipe reuniu medições feitas entre 1991 e 2019 por pesquisadores de vários países e guardadas em bancos de dados internacionais. Parte veio de cruzeiros científicos, parte de equipamentos instalados em navios mercantes que cruzam o Atlântico.

Com dados de salinidade, temperatura e quantidade de CO₂ na superfície do mar e no ar, os cientistas compararam as condições médias do Atlântico com as da área diretamente influenciada pela pluma, nos períodos seco e chuvoso. Assim estimaram a contribuição do rio para variáveis como alcalinidade, pH e carbono inorgânico dissolvido.

Segundo o professor Thiago Monteiro, da UFBA e coautor, estudos anteriores usavam modelos de computador que simulavam como seria a região sem o rio. Este é o primeiro a quantificar o efeito a partir de observações.

Mais forte na época das chuvas

A influência cresce no período chuvoso da Amazônia, quando a descarga de água doce aumenta. Nessa fase, a salinidade cai até 11%, e diferentes componentes da química do carbono diminuem entre 8% e 10%.

A pluma também é rica em nutrientes e alimenta o fitoplâncton, organismos microscópicos que fazem fotossíntese, capturam CO₂ e formam a base da cadeia alimentar marinha. Na estação seca, com menos influência do rio, o fitoplâncton fica menos abundante e tende a absorver menos carbono.

As correntes marítimas carregam essa assinatura química para além da área de descarga, ampliando a região do Atlântico que se beneficia do rio.

A primeira variável a mudar

Segundo Matheus Batista, autor do trabalho, derivado de sua dissertação de mestrado orientada pelos professores Eunice Machado e Rodrigo Kerr, a salinidade é a primeira propriedade do oceano afetada pelo Amazonas, já que a água doce dilui a salgada. O estudo não avaliou efeitos diretos sobre a vida marinha, mas a queda da salinidade está ligada a mudanças no pH, importantes para organismos que formam conchas e esqueletos, como corais e moluscos.

Para Monteiro, o resultado mostra que o que acontece na foz do Amazonas e na margem equatorial brasileira tem impacto sobre uma área muito grande do Atlântico.

Próximos passos

A equipe quer entender a influência da pluma abaixo da superfície, ao longo da coluna d’água, e verificar se os percentuais mudam com o tempo. Ainda não se sabe se a contribuição do rio está aumentando ou diminuindo, algo que pode depender de secas e cheias cada vez mais extremas na bacia amazônica.

Perguntas frequentes

O que é a pluma do rio Amazonas?

É a grande massa de água doce, barrenta e rica em nutrientes que o Amazonas lança no Atlântico e que as correntes espalham por centenas de quilômetros.

Por que a pluma ajuda a absorver CO₂?

Porque reduz a salinidade e alimenta o fitoplâncton, que captura CO₂ na fotossíntese. As duas coisas aumentam a capacidade do oceano de puxar carbono do ar.

Com informações da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do estudo publicado na Global Biogeochemical Cycles.

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