
Relatório do serviço europeu Copernicus mostra que o aquecimento acelerou nos polos e já altera habitats, costas e ecossistemas marinhos.
O desaparecimento do gelo marinho já está mudando o lugar onde espécies polares vivem, caçam e se reproduzem. Um relatório divulgado em 30 de setembro de 2026 mostra que o Ártico aqueceu muito acima da média global e que a perda de gelo na Antártida coincidiu com o primeiro grande fracasso registrado na reprodução de pinguins-imperadores.
Os dados fazem parte da décima edição do Copernicus Ocean State Report, publicação anual do Serviço Marinho Copernicus, da União Europeia. O documento reúne indicadores sobre temperatura, gelo, acidez, ondas de calor e transformações nos ecossistemas dos oceanos.
O Ártico está aquecendo em ritmo muito superior ao global
Entre 1982 e 2024, a temperatura combinada da superfície do mar e do gelo marinho no Ártico aumentou 4,2°C. O ritmo equivale a aproximadamente 1°C por década, enquanto a temperatura média da superfície dos oceanos do planeta avançou 0,12°C por década.
A diferença fica ainda mais evidente no mar de Kara, ao norte da Sibéria. Desde 1982, a região registrou aumento de 6,7°C, uma elevação média de 1,68°C por década.
Segundo o Copernicus Ocean State Report, o Ártico registrou aumento de 4,2°C na temperatura combinada do mar e do gelo entre 1982 e 2024. O dado ajuda a dimensionar por que os polos são considerados áreas de transformação acelerada do sistema climático.
Quase meio milhão de quilômetros quadrados de gelo somem por década
A extensão do gelo marinho no Ártico diminui em quase 500 mil quilômetros quadrados por década desde 1979. A área perdida a cada dez anos é comparável ao território da Espanha.
Quando o gelo recua, a superfície escura do oceano fica exposta. Ela absorve mais radiação solar do que o gelo branco, o que reforça o aquecimento e cria um ciclo de perda de cobertura congelada.
O recuo também deixa as costas mais expostas à ação das ondas. Segundo o relatório, cerca de 60% da infraestrutura costeira do Ártico está vulnerável à erosão e à elevação do nível do mar. Comunidades, estradas, instalações portuárias e outras estruturas construídas perto da água ficam mais sujeitas a danos.
Na Antártida, a perda de gelo atingiu a reprodução dos pinguins
O efeito sobre a fauna aparece de forma dramática na Antártida. Em 2022, a região teve uma extensão de gelo marinho excepcionalmente baixa. No mesmo período ocorreu o primeiro fracasso reprodutivo de grande escala já registrado entre pinguins-imperadores.
A espécie depende do gelo estável para formar colônias, capturar alimento e criar os filhotes. Os jovens precisam permanecer sobre a superfície congelada até desenvolverem penas impermeáveis. Se o gelo se rompe antes disso, eles podem cair na água gelada e morrer.

Em abril de 2026, a União Internacional para a Conservação da Natureza, conhecida pela sigla IUCN, elevou o pinguim-imperador da categoria “quase ameaçado” para “em perigo”. A avaliação indica que mais de 90% das colônias podem estar próximas da extinção até 2100 se a perda de gelo continuar no ritmo atual.
O que a mudança nos polos revela sobre os oceanos
O relatório não trata apenas de regiões congeladas. O documento descreve mudanças em diferentes mares, incluindo ondas de calor recordes no Mediterrâneo e no mar Negro, alterações nos ecossistemas e aumento da acidez da água.
Para Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, organização responsável pela operação do Serviço Marinho Copernicus, a tendência é direta. “The message is very clear. The ocean is changing rapidly”, afirmou durante a apresentação do estudo.
Os polos ocupam cerca de 20% da superfície global dos oceanos. Por isso, a transformação nessas áreas não fica restrita à vida selvagem local. O gelo influencia a circulação oceânica, as trocas de calor entre a água e a atmosfera e a dinâmica de ecossistemas que sustentam cadeias alimentares inteiras.
Por que o alerta também interessa à Amazônia
A Amazônia não possui ambientes polares, mas seus estados costeiros e ribeirinhos fazem parte de um país diretamente ligado ao Atlântico. A elevação do nível do mar e o avanço da erosão interessam especialmente ao Pará, Amapá e Maranhão, onde comunidades vivem próximas de estuários, ilhas, manguezais e áreas de várzea.
As mudanças no oceano também têm importância para cidades portuárias, pescadores e cadeias de abastecimento que dependem do transporte marítimo. No caso amazônico, a ligação entre rios e mar torna a zona costeira particularmente sensível a alterações na maré, na erosão e na salinidade, embora o relatório não apresente uma medição específica para cada estado da região.
O mesmo vale para Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins. Mesmo sem litoral, esses estados estão conectados à dinâmica climática continental e às redes de transporte, alimentos e comércio influenciadas pelo Atlântico. O relatório reforça que o oceano deve ser tratado como parte do sistema climático que alcança todo o Brasil, não como um ambiente distante dos rios amazônicos.
O ponto que ainda depende das próximas décadas
A projeção para os pinguins-imperadores está condicionada à manutenção do ritmo atual de perda de gelo. Isso significa que o futuro das colônias dependerá da evolução do aquecimento, da redução das emissões e da capacidade de proteger áreas críticas.
O próximo passo é acompanhar se os recordes recentes se consolidam como tendência permanente. A série histórica do Copernicus continuará sendo usada para medir temperatura, gelo e condições dos oceanos em diferentes regiões do planeta.
O relatório completo está disponível no Copernicus Ocean State Report 10.
Com informações de Mercator Ocean International e Serviço Marinho Copernicus.
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