
Série histórica baseada em dados do GISS revela como o calor se espalhou pela Terra desde 1880.
Uma sequência de mapas da NASA transforma 145 anos de registros de temperatura em uma linha do tempo visual do aquecimento global. A série acompanha o período de 1880 a 2025 e mostra como as anomalias térmicas se tornaram mais frequentes e intensas em várias áreas do planeta, embora o avanço não aconteça no mesmo ritmo em todos os lugares.
O levantamento é produzido por cientistas do Goddard Institute for Space Studies, conhecido pela sigla GISS. Em vez de apresentar a temperatura absoluta de cada local, os mapas comparam cada período com a média registrada entre 1951 e 1980.
O mapa não mostra o calor de um dia
Essa diferença é essencial para interpretar a imagem. Quando uma área aparece mais quente, isso significa que ela ficou acima ou abaixo da referência histórica, e não que aquela seja a temperatura medida no momento.
A média global do período de referência foi de 14°C, ou 57°F, com uma margem de incerteza de alguns décimos de grau. A partir desse padrão, a NASA calculou a distância térmica de cada ano e organizou os resultados em intervalos de cinco anos.
Segundo a NASA, a temperatura média da superfície do planeta em 2025 ficou 1,19°C acima da média de 1951 a 1980. O ano de 2024 continuava, até então, como o mais quente desde o início dos registros, em 1880.
Por que o aquecimento aparece primeiro em algumas regiões
O aumento não é uniforme. Uma área pode registrar uma elevação de 5°C enquanto outra apresenta queda de 2°C no mesmo período. Invernos excepcionalmente frios em uma parte do mundo também podem coincidir com períodos muito quentes em outra.
As diferenças têm relação com a circulação atmosférica, os oceanos e a capacidade de cada superfície de absorver e liberar energia. Em geral, as áreas continentais aquecem mais rapidamente do que os oceanos, porque a água demora mais para ganhar e perder calor.
Esse comportamento é especialmente importante para a leitura dos mapas na Amazônia. Estados como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão estão em uma região continental extensa, mas o resultado observado em uma cidade ou comunidade não deve ser confundido automaticamente com a média do planeta.
A pausa no meio do século tem uma explicação
A animação da NASA indica temperaturas geralmente mais baixas entre 1880 e 1939. Depois, os registros tendem a se estabilizar por algum tempo, inclusive durante parte do século 20. Esse intervalo não significa que o aquecimento provocado por atividades humanas tenha desaparecido.
A explicação envolve dois efeitos que atuaram em sentidos diferentes. O uso de combustíveis fósseis aumentou depois da Segunda Guerra Mundial, elevando a concentração de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, fábricas, usinas e veículos lançavam aerossóis capazes de produzir um efeito de resfriamento mais rápido.

Os gases de efeito estufa se acumulam lentamente e permanecem na atmosfera por muito mais tempo. Já o efeito de resfriamento dos aerossóis pode diminuir rapidamente quando entram em vigor controles de poluição. Para James Hansen, ex-diretor do GISS, a forte tendência de aquecimento das últimas quatro décadas reflete justamente a mudança de equilíbrio entre esses dois fatores.
Um grau global não equivale a um grau no termômetro
A temperatura local pode variar vários graus entre o dia e a noite ou entre uma estação e outra. Também pode mudar rapidamente conforme os ventos, as chuvas e a cobertura de nuvens. A média global funciona em outra escala: ela representa a energia acumulada no conjunto dos oceanos, da atmosfera e das áreas terrestres.
Por isso, uma alteração de 1°C na média do planeta não é pequena. É necessário acrescentar uma quantidade enorme de calor a sistemas naturais muito diferentes para produzir essa mudança. O resultado pode aparecer de forma desigual, mas indica uma transformação no balanço energético da Terra.
A energia recebida do Sol varia pouco de um ano para outro. Já a quantidade de energia que o planeta devolve ao espaço depende, entre outros fatores, da composição química da atmosfera. Quanto maior a concentração de gases que retêm calor, mais difícil é o restabelecimento desse equilíbrio.
O que a história do clima revela
As comparações históricas ajudam a dimensionar o número. No passado, uma redução de 1°C a 2°C na média global foi suficiente para contribuir para a Pequena Era do Gelo. Uma queda de aproximadamente 5°C, por sua vez, esteve associada a uma época em que grandes áreas da América do Norte ficaram cobertas por uma extensa camada de gelo, cerca de 20 mil anos atrás.
Esses exemplos não significam que o clima atual esteja repetindo exatamente aqueles períodos. Eles mostram por que variações aparentemente pequenas na média planetária podem estar ligadas a mudanças amplas no ambiente.
Para quem vive na Amazônia, a série também oferece uma ferramenta de contexto. O calor sentido em Manaus, Belém, Rio Branco, Macapá, Porto Velho, Boa Vista, Palmas ou nas cidades maranhenses não é uma cópia direta da média global. Mas os mapas ajudam a separar oscilações locais de uma tendência que atravessa décadas e continentes.
Por que os registros começam em 1880
A NASA inicia a comparação em 1880 porque, antes disso, as observações não cobriam uma área suficientemente grande do planeta. A série não é uma fotografia completa de cada ponto da Terra no século 19, mas uma reconstrução baseada no conjunto de medições disponíveis e em métodos de análise contínuos.
O valor do levantamento está justamente na duração. Um ano isolado pode ser influenciado por eventos naturais e variações regionais. Décadas sucessivas permitem identificar tendências mais amplas, medir períodos de estabilidade e observar quando o aquecimento passa a predominar.
A série de mapas da NASA continua sendo atualizada à medida que novos dados são processados. A evolução dos registros deve manter o foco sobre a diferença entre o tempo de uma cidade e o clima de um planeta inteiro.
Com informações da NASA.
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