Estudo avalia 57 ondas famosas em oito países e conclui que 89% têm risco médio ou alto por causa da fragilidade do litoral

Estudo avalia 57 ondas famosas em oito países e conclui que 89% têm risco médio ou alto por causa da fragilidade do litoral
Foto: acervo

Pesquisa na revista Climatic Change aponta que maré, areia e obras na costa ameaçam picos de surfe que movimentam até US$ 65 bilhões por ano.

Uma onda perfeita depende de um encaixe delicado entre o fundo do mar, a forma da costa e o nível da água. É justamente esse arranjo que a mudança climática e a ocupação do litoral colocam em risco: uma nova análise concluiu que 89% de 57 picos de surfe de importância internacional enfrentam risco médio ou alto por causa da resiliência da própria costa.

O trabalho foi publicado na revista Climatic Change e avaliou o que os autores chamam de surf breaks: áreas próximas à costa em que características do litoral e do fundo marinho se combinam para produzir ondas icônicas. Os 57 locais estão em oito países.

O que torna uma onda tão sensível

Para o professor associado Dan Reineman, da California State University Channel Islands e coautor do estudo, a explicação está na raridade do fenômeno.

“Surf breaks are incredibly unique oceanographic phenomena, a confluence of all these factors that fit together just right to make the wave happen, and so those processes are really sensitive”, disse Dan Reineman, coautor do estudo.

Em outras palavras, basta que um dos elementos mude, como a profundidade, a posição dos bancos de areia ou a altura da maré, para que a onda perca a forma que a tornou conhecida.

Três fatores, três percentuais

Os pesquisadores examinaram vários fatores de vulnerabilidade. Segundo o estudo, os perfis variam bastante de um pico para outro, mas três fatores concentram os maiores riscos:

  • resiliência da linha de costa: 89% dos picos têm risco médio ou alto;
  • sensibilidade à elevação do nível do mar: 79% têm risco médio ou alto;
  • composição do fundo marinho: 75% têm risco médio ou alto.

A análise incluiu reservas mundiais de surfe, consideradas um modelo de padrão para preservar ondas e seus entornos. Mesmo assim, dezenas de ondas famosas dentro dessas reservas aparecem em alto risco, por conta de mudanças nos níveis de maré, deslocamento de areia e costas endurecidas, isto é, trechos artificialmente protegidos com estruturas rígidas.

Entre os locais mais ameaçados estão Noosa, na Austrália, Santa Cruz, na Califórnia, a praia de Croyde, no Reino Unido, e Oriente Salvaje, em El Salvador.

Quanto dinheiro está em jogo

O surfe é também um motor econômico. Segundo o estudo, o turismo de surfe no mundo vale até US$ 65 bilhões. Só em Santa Cruz, a atividade tem valor econômico de pelo menos US$ 194,7 milhões, atraindo 783 mil visitantes de surfe por ano.

Os autores concluem que a mudança climática e a gestão costeira têm implicações negativas para o futuro de vários picos de relevância global e, portanto, para as comunidades, culturas e economias locais que dependem deles.

Ondas que também ajudam o clima

A proteção dessas ondas não beneficia só quem pega onda. Um estudo de 2024 mostrou que os surf breaks costumam estar dentro ou perto de ecossistemas prioritários para conservação, como recifes de coral e manguezais.

Eles também abrigam estoques de carbono classificados como “irrecuperáveis”: aquele que, se perdido, não poderia ser reposto em 30 anos. Esse sequestro de carbono é considerado essencial para amenizar os efeitos da mudança do clima.

O que isso significa para a Amazônia

O estudo não analisou picos brasileiros nem amazônicos, e por isso não cabe projetar seus percentuais para a região. Ainda assim, o raciocínio vale como alerta para o litoral amazônico, onde manguezais, praias e ondas fazem parte da economia e da cultura locais, como no Pará e no Amapá, e onde o mesmo conjunto de fatores, nível do mar, sedimentos e intervenções na costa, determina o que se preserva.

O resultado sugere que proteger o litoral com obras rígidas, sem considerar a dinâmica natural de areia e maré, pode custar caro a quem vive do mar. Os autores indicam que a gestão costeira será decisiva para saber quais dessas ondas continuarão rebentando nas próximas décadas.

Com informações de California State University Channel Islands e da revista Climatic Change.

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