
Coalizão Brasil defende integração entre crédito, seguro rural e assistência técnica para reduzir perdas no campo.
O risco climático da próxima safra já começa a pressionar decisões que normalmente ficariam para depois do plantio. A possibilidade de um El Niño mais intenso pode trazer chuvas fortes e concentradas para o Sul e o Sudeste e ampliar os períodos de escassez hídrica no Norte e no Nordeste, com efeitos que chegam aos preços dos alimentos, ao emprego e ao crédito rural.
O alerta é da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que defende uma mudança na forma de proteger a produção. Para a rede, não basta indenizar o prejuízo depois da quebra. É preciso unir planejamento climático, assistência técnica, financiamento e seguro antes que o evento extremo atinja as lavouras.
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Uma safra menor reduz a renda de quem planta, mas seus efeitos se espalham rapidamente. A menor oferta pode elevar custos para a pecuária, encarecer o transporte, pressionar as carteiras de crédito e aumentar a exposição das seguradoras agrícolas.
O impacto também alcança armazéns, indústrias de processamento, comércio e consumidores. Por isso, a Coalizão Brasil trata a adaptação climática como uma política de produtividade, e não apenas como uma resposta ambiental ou emergencial.
Segundo a Coalizão Brasil, o setor agropecuário responde por cerca de 23% do Produto Interno Bruto brasileiro e sustenta uma cadeia que inclui produtores, trabalhadores, transportadores, empresas de processamento e varejistas.
O que o El Niño pode mudar na próxima safra
O fenômeno climático costuma alterar a distribuição de chuva e temperatura em diferentes partes do país. No cenário descrito pela rede, o Sul e o Sudeste podem enfrentar precipitações mais intensas em intervalos curtos, enquanto o Norte e o Nordeste ficam mais expostos à irregularidade hídrica.
Essa combinação dificulta o planejamento de plantio, manejo e colheita. Chuva em excesso pode provocar erosão, encharcamento e atraso nas operações. Já a falta de água compromete o desenvolvimento das plantas, reduz a produtividade e aumenta a disputa por recursos para irrigação e abastecimento.
O problema é agravado quando o produtor recebe a informação tarde demais ou não consegue transformá-la em uma decisão prática. A previsão climática só reduz riscos se estiver conectada a calendário agrícola, orientação técnica, crédito adequado e mecanismos de proteção financeira.
ONU projeta pressão sobre a produção de alimentos
O alerta brasileiro ocorre ao mesmo tempo em que um relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente aponta a possibilidade de redução de até 14% na produção global de alimentos até 2050.
O documento relaciona o avanço das temperaturas médias à queda da produtividade em grande parte das regiões agrícolas. Cada fração adicional de aquecimento tende a aumentar a dificuldade de manter o rendimento das lavouras, especialmente onde já existem problemas de água, solo degradado ou baixa capacidade de investimento.
Segundo o Pnuma, a projeção de queda de até 14% na produção global de alimentos até 2050 reforça a necessidade de preparar os sistemas agrícolas antes que os extremos se tornem ainda mais frequentes.
Pequenos produtores enfrentam o maior obstáculo
Grandes empresas já utilizam previsões climáticas em estratégias de gestão de risco. O desafio mais amplo está em levar esse tipo de planejamento para pequenos e médios produtores, que muitas vezes têm menos acesso a dados, assistência especializada e recursos para alterar o sistema produtivo.
Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil e diretor de País da Fundação Solidaridad, afirma que o país ainda reage mais aos danos do que trabalha para evitá-los.
“Nenhum segmento da sociedade encarou o problema com a gravidade que ele pede. Precisamos de soluções de médio e longo prazos, porque a temperatura vai continuar subindo e os eventos extremos tendem a se intensificar”, afirma Rodrigo Castro.
Na avaliação do especialista, o crédito agrícola e o seguro rural também perdem eficiência quando funcionam isoladamente. Sem acompanhamento contínuo, o financiamento pode não ser convertido em técnicas capazes de proteger o solo, diversificar a produção ou reduzir a dependência de uma única cultura.
“Seguro safra e crédito agrícola, diante de cenários climáticos como esse, se tornam insuficientes”, alerta Castro.
Práticas que reduzem a vulnerabilidade no campo
A rede aponta os sistemas agroflorestais, a integração lavoura, pecuária e floresta e o manejo regenerativo do solo como caminhos para aumentar a estabilidade das propriedades. Essas alternativas podem diversificar a produção, melhorar a condição do solo e ajudar a manter a produtividade diante de períodos de calor, chuva irregular ou estiagem.
A proposta não é retirar escala ou eficiência da agropecuária. O objetivo é fazer com que a produção mantenha capacidade de gerar renda mesmo quando as condições climáticas se afastam do padrão esperado.
“A agricultura regenerativa é um caminho sem volta e tende a ganhar escala à medida em que se intensifica a crise climática. O futuro da produção de alimentos passa por sistemas que conciliam resiliência e adaptação climática com a redução de emissões”, diz Castro.
Por que a Amazônia precisa entrar no planejamento
Na Amazônia, o alerta tem relação direta com a dependência de ciclos de chuva para a agricultura, a pecuária, o transporte e o abastecimento. Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins estão entre os territórios da região que precisam considerar a irregularidade hídrica na organização das atividades rurais. Maranhão e Mato Grosso, estados incluídos na Amazônia Legal, também enfrentam o desafio de conciliar produção e adaptação.
Para agricultores familiares e médios produtores da região, a assistência técnica pode ser decisiva para escolher variedades, ajustar calendários, manejar o solo e combinar atividades. Sem esse suporte, até mesmo uma linha de crédito voltada à adaptação pode não produzir o efeito esperado.
A preparação também interessa às cidades amazônicas. Quando a produção cai ou o transporte fica mais caro, os efeitos chegam às feiras, aos mercados e às cadeias que dependem de alimentos produzidos no campo.
Próximos passos dependem de ação antecipada
A Coalizão Brasil reúne mais de 400 organizações dos setores agropecuário, empresarial, financeiro, acadêmico e da sociedade civil. A rede defende que pesquisa, investimento e políticas públicas sejam direcionados para sistemas produtivos capazes de enfrentar extremos climáticos e, ao mesmo tempo, reduzir emissões.
O próximo passo é transformar previsões sobre o El Niño em decisões concretas para a safra, com acesso a informação, orientação e proteção financeira antes do plantio e durante o ciclo produtivo.
Com informações da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
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