
Estudo publicado em 12 de setembro de 2026 mostra que a região, fora do arco do desmatamento, lidera a piora dos extremos climáticos na Amazônia.
Em setembro de 2024, avançar pelo igarapé Tiaracá, no Parque Nacional do Jaú, exigia remar: a água estava tão baixa que o motor de popa não podia ser usado. A cena registrada no Amazonas ajuda a traduzir um resultado publicado em 12 de setembro de 2026: o centro-norte da Amazônia, região com florestas extensas, áreas de savana e territórios indígenas, passou a concentrar a maior aceleração dos extremos de calor e falta de água do bioma.
A conclusão vem de um estudo liderado pela Lancaster University, com participação do WWF-UK e de mais de 50 pesquisadores. A equipe analisou temperaturas, chuvas e déficit hídrico entre 1981 e 2023 em toda a Amazônia, com resolução de 11 quilômetros. O trabalho foi publicado na revista Communications Earth & Environment e pode ser consultado no estudo científico completo.
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O dado que muda a leitura tradicional sobre o aquecimento amazônico é a diferença entre médias e extremos. Quando os pesquisadores observaram a temperatura média, o sul da Amazônia, marcado por desmatamento e transformação do uso da terra, continuou aparecendo como a área de aquecimento mais rápido.
Mas o resultado se inverteu quando o foco passou para os anos mais quentes e secos. O centro-norte apresentou o crescimento mais veloz dos extremos climáticos, embora esteja distante do chamado arco do desmatamento. Isso indica que a piora não pode ser explicada apenas por mudanças locais na cobertura do solo, mas também pela influência das emissões globais.
Segundo a Lancaster University, 10% da bacia amazônica, área superior a 700 mil quilômetros quadrados, registrou aumento de pelo menos 0,75 °C por década nas temperaturas extremas da estação seca desde 1981. O avanço acumulado supera 3,22 °C nesse intervalo, em uma superfície maior que o Afeganistão.
Como os pesquisadores separaram a média dos anos críticos
O estudo não tratou a Amazônia como uma região climática uniforme. Para cada célula do mapa, os cientistas identificaram quando ocorria a estação seca local, considerando que as áreas ao norte e ao sul do Equador têm calendários diferentes de estiagem.
Depois, compararam duas tendências. A primeira acompanha a mudança média ao longo dos anos, método mais utilizado em avaliações climáticas. A segunda dá maior peso aos períodos excepcionais de calor e seca, justamente aqueles que provocam os danos mais severos à floresta, aos rios e às comunidades.
Essa distinção é central porque a temperatura média da Amazônia sobe cerca de 0,21 °C por década, em ritmo próximo ao aquecimento médio do planeta. Os extremos, porém, avançam mais depressa em algumas áreas. Em outras palavras, uma média relativamente moderada pode esconder temporadas muito mais perigosas para quem depende diretamente do ambiente.
Rios baixos, fogo e pressão sobre a fauna
O problema aparece primeiro na vida cotidiana. Rios com níveis reduzidos dificultam o transporte de pessoas, alimentos, remédios e produção. Em comunidades florestais, a navegação é parte da infraestrutura básica, e não apenas uma atividade econômica.
O calor e a seca também favorecem incêndios florestais, pioram a qualidade do ar e pressionam árvores e animais. Manaus já sofreu episódios de fumaça associados a grandes queimadas, enquanto estudos recentes relatam mortes de mamíferos, redução de populações de aves e alterações no tempo de vida, na aparência e no comportamento de espécies.
A pressão alcança ainda produtos que sustentam famílias e cadeias da bioeconomia. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, apontou que eventos extremos podem afetar o açaí e reduzir a rede de segurança oferecida pela floresta. Quando a produção cai e os rios ficam menos navegáveis, a insegurança alimentar cresce e políticas de restauração e desenvolvimento sustentável enfrentam obstáculos adicionais.
O que a previsão de 2026 acrescenta ao alerta
O estudo foi divulgado em um momento de atenção especial para o próximo ciclo climático. Há previsão de que o El Niño de 2026 seja o maior já observado na memória recente, o que pode combinar temperaturas muito altas e seca severa apenas dois anos depois da estiagem extrema de 2024. A previsão é um cenário de risco, não uma confirmação de que todas as áreas terão o mesmo comportamento.
Segundo a Lancaster University, o centro-norte da Amazônia apresentou entre 1981 e 2023 o crescimento mais rápido dos extremos de calor e estresse hídrico, enquanto o sul liderou a elevação da temperatura média. A diferença ajuda governos a planejar respostas mais precisas para cada parte do bioma.
Para os estados amazônicos, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, a principal lição é que políticas baseadas apenas na média regional podem deixar áreas vulneráveis fora do foco. O resultado reforça a necessidade de combinar prevenção de incêndios, proteção de florestas, monitoramento de rios e apoio direto às populações afetadas.
O alerta tem limites e aponta para adaptação
Os autores não afirmam que todo extremo climático será causado por um único fator nem que a mesma tendência ocorrerá com igual intensidade em cada município. A análise identifica padrões espaciais em escala amazônica e mostra onde a velocidade de mudança foi maior. A resposta concreta dependerá de informações locais, políticas públicas e capacidade de atendimento.
Entre as medidas indicadas estão conter novos desmatamentos, fortalecer o combate ao fogo, preparar comunidades para períodos de navegação difícil e apoiar atividades econômicas que dependem da floresta em pé. Os mapas interativos de temperatura, déficit de pressão de vapor e precipitação podem ajudar a detalhar os pontos de maior risco.
Com a previsão do El Niño de 2026 no horizonte, pesquisadores defendem que governos e comunidades usem os dados para antecipar ações antes que rios baixem, a fumaça se espalhe e a produção florestal seja afetada.
Com informações de Lancaster University.
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