
Incêndios no Amazonas elevaram a poluição a níveis críticos e ampliaram o risco para grupos vulneráveis.
A rotina de milhares de pessoas foi interrompida pela fumaça que encobriu Manaus e municípios da região metropolitana pelo segundo dia consecutivo. Na quinta-feira (24), escolas públicas de Manacapuru suspenderam as aulas, a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) interrompeu atividades acadêmicas e administrativas e médicos reforçaram o alerta para problemas respiratórios e oculares.
A origem do episódio está nos incêndios florestais registrados no Amazonas, agravados por dias de calor e tempo seco. O resultado foi uma concentração de poluentes capaz de colocar Manaus no topo do ranking mundial de pior qualidade do ar durante a semana.
Manaquiri registrou o nível mais alto entre os municípios monitorados
Os dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), mostraram que o problema não ficou restrito à capital. Dos 13 municípios acompanhados pelo sistema, quatro apresentaram qualidade do ar classificada como péssima.
O maior registro ocorreu em Manaquiri, onde o sensor apontou 385 microgramas de material particulado por metro cúbico. Em Careiro, a concentração chegou a 301 µg/m³. Em Manaus, o pior índice da manhã foi identificado no bairro Distrito Industrial I, com 148 µg/m³ por volta das 7h30.
Segundo o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da UEA, quatro dos 13 municípios monitorados registraram qualidade do ar péssima em 24 de setembro de 2026, com Manaquiri atingindo 385 µg/m³ de material particulado.
O material particulado é formado por partículas muito pequenas suspensas no ar. Dependendo do tamanho e da concentração, elas podem alcançar regiões profundas do sistema respiratório e agravar quadros de asma, bronquite e outras doenças crônicas. A fumaça também pode irritar olhos, nariz e garganta.
Ranking internacional expôs a dimensão da crise
Na quarta-feira (23), Manaus chegou a registrar 324 µg/m³ e ultrapassou Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, no ranking diário da plataforma IQAir. A posição variou conforme o horário e a medição, mas serviu como retrato da intensidade da poluição observada na cidade.
O episódio também revelou uma diferença importante entre os números da capital e os registrados no interior. Embora Manaus tenha concentrado a atenção por aparecer no ranking global, Manaquiri e Careiro apresentaram níveis ainda mais altos nos sensores do SELVA na manhã seguinte.
A comparação internacional não significa que todas as áreas da cidade tenham apresentado a mesma concentração. A qualidade do ar pode mudar entre bairros, conforme a direção do vento, a proximidade das queimadas, a umidade e a capacidade de dispersão da atmosfera.
Fumaça fechou escolas e alterou a rotina da universidade
Em Manacapuru, o avanço da fumaça levou à suspensão das aulas na rede pública. O aumento da procura por atendimento médico acompanhou a piora das condições atmosféricas, segundo informações divulgadas sobre o município.

Na UFAM, a interrupção atingiu tanto as atividades acadêmicas quanto as administrativas. A reitoria informou que se reuniria com especialistas para orientar as próximas providências, uma medida que pode definir critérios para o retorno presencial e para a proteção de estudantes, professores e servidores.
As decisões mostram como um incêndio distante pode produzir efeitos em serviços essenciais. A fumaça não precisa atingir diretamente uma escola ou um campus para afetar a rotina. Basta que os poluentes se acumulem sobre a área urbana e elevem o risco da exposição prolongada.
Quem precisa redobrar os cuidados
O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CREMAM) recomendou que a população evite a exposição à fumaça. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos que exigem maior atenção durante a crise.
A orientação médica também alcança pessoas sem diagnóstico prévio. Irritação nos olhos, tosse, falta de ar, chiado no peito e piora de sintomas respiratórios são sinais que devem ser observados. Em caso de agravamento, a recomendação é buscar atendimento de saúde.
Evitar atividades físicas ao ar livre durante os períodos de maior concentração de fumaça reduz o tempo de contato com o poluente. A permanência em ambientes fechados, quando possível, também diminui a exposição, especialmente para quem já apresenta problemas respiratórios.
Quase 14,9 mil focos foram combatidos desde julho
O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas informou ter atuado no combate a quase 14,9 mil focos de incêndio urbanos e florestais entre 1º de julho e 22 de setembro. O número inclui ocorrências em diferentes áreas do estado e ajuda a dimensionar a pressão sobre as equipes durante o período de estiagem.
O governador do Amazonas, Roberto Cidade, determinou o reforço das ações de fiscalização, prevenção e combate ao fogo. A resposta envolve a atuação dos bombeiros e dos órgãos responsáveis pelo monitoramento ambiental, mas a extensão das áreas atingidas dificulta o controle rápido das chamas.
Para a população amazônica, o episódio reforça uma conexão direta entre queimadas, clima e saúde pública. Manaus concentra serviços, escolas, hospitais e instituições que atendem moradores de diferentes municípios, enquanto a fumaça pode se deslocar por longas distâncias. O impacto, portanto, ultrapassa o local onde o incêndio começou.
Pedido de intervenção federal pode ampliar a disputa
O defensor público Carlos Almeida Filho, titular da Defensoria Pública Especializada em Atendimento de Interesses Coletivos, afirmou que pretende pedir intervenção federal no Amazonas por causa do descontrole das chamas. Ele também indicou a intenção de solicitar à Justiça Federal a criação de uma mesa de situação com a participação de órgãos públicos.
O pedido ainda representa uma iniciativa anunciada, não uma decisão judicial. Caso seja apresentado, deverá provocar discussões sobre responsabilidades, coordenação entre governos e medidas emergenciais para enfrentar os incêndios e seus efeitos sobre a população.
Enquanto a fumaça permanecer concentrada, as autoridades deverão acompanhar os sensores de qualidade do ar e avaliar novas medidas para escolas, universidades e serviços públicos nos próximos dias.
Com informações do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas, da Universidade Federal do Amazonas, do Conselho Regional de Medicina do Amazonas e do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas.
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