Antártica deve perder mais gelo neste século mesmo com limite de 1,5°C, elevando risco para áreas costeiras

Antártica deve perder mais gelo neste século mesmo com limite de 1,5°C, elevando risco para áreas costeiras
Foto: Divulgação

Estudo com centenas de milhares de cenários indica que a neve extra não compensará o derretimento provocado pelo aquecimento.

A neve que cai sobre a Antártica pode aumentar com o aquecimento do planeta, mas não será suficiente para repor todo o gelo levado ao oceano. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado em 30 de setembro de 2026 na revista Nature Geoscience, que aponta perda líquida de gelo no continente ao longo deste século, inclusive no cenário em que o aquecimento global fica limitado a 1,5°C.

O resultado importa muito além do continente congelado. Quando a massa de gelo antártica diminui, parte dessa água chega aos oceanos e contribui para a elevação do nível do mar, somando-se ao derretimento da Groenlândia, das geleiras de montanha e à expansão da água aquecida.

O que os satélites ajudaram a esclarecer

A previsão do futuro da Antártica sempre foi difícil porque depende de uma sequência de processos conectados. As emissões de gases de efeito estufa aquecem o ar e o oceano ao redor do continente. O oceano mais quente pode derreter as plataformas de gelo, estruturas que avançam sobre o mar e funcionam como uma espécie de barreira para as geleiras que estão no interior.

Quando essas plataformas afinam ou se rompem, o gelo continental pode deslizar mais rapidamente sobre a rocha e alcançar o oceano. Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente consegue carregar mais umidade e pode produzir mais neve sobre a superfície antártica. O balanço entre esses ganhos e perdas determina se a camada de gelo cresce ou encolhe.

Segundo o estudo publicado na Nature Geoscience em 30 de setembro de 2026, os cenários que conseguem reproduzir as observações feitas por satélites desde 2002 indicam que a Antártica perderá mais gelo do que ganhará até o fim deste século, mesmo com o aquecimento global limitado a 1,5°C.

Milhões de combinações em vez de poucos cenários

Parte da divergência entre os estudos anteriores vinha do custo computacional. Cada simulação detalhada do comportamento do gelo pode ocupar um supercomputador durante dias. Por isso, os pesquisadores normalmente precisam escolher um conjunto limitado de hipóteses sobre emissões, temperatura do oceano, deslizamento das geleiras e resistência das plataformas de gelo.

A equipe formada por cientistas de dados, glaciologistas e oceanógrafos adotou outro caminho. Os pesquisadores treinaram um modelo de aprendizado de máquina orientado por princípios da física usando o arquivo de simulações do Ice Sheet Model Intercomparison Project, conhecido como ISMIP6.

O sistema aprendeu a relacionar diferentes condições físicas com a resposta da camada de gelo. Assim, conseguiu fazer em uma fração de segundo cálculos que antes levavam dias. Com essa velocidade, os autores testaram milhões de combinações e filtraram centenas de milhares de futuros possíveis por meio das medições feitas por satélites, incluindo dados sobre pequenas alterações no campo gravitacional da Terra.

Antártica deve perder mais gelo neste século mesmo com limite de 1,5°C, elevando risco para áreas costeiras
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O efeito dominó que pode acelerar a elevação do mar

Em um cenário de emissões muito altas, o estudo estima que a Antártica poderia acrescentar até 25 centímetros ao nível global do mar até 2100. A contribuição isolada do continente seria suficiente para inundar permanentemente as moradias de mais de 10 milhões de pessoas, segundo a análise.

Esse processo não acontece de uma só vez. O oceano aquecido enfraquece as plataformas de gelo, que passam a conter menos as geleiras. O fluxo de gelo para o mar aumenta, o que reduz ainda mais a proteção das áreas interiores. Cada etapa facilita a seguinte, criando um efeito dominó capaz de acelerar a perda de massa.

Os pesquisadores destacaram três fatores como os mais importantes para melhorar as projeções: a forma como as plataformas reagem ao aquecimento do oceano, a velocidade com que o gelo desliza sobre a rocha e o ritmo de aquecimento do ar e da água ao redor da Antártica.

Por que isso interessa à Amazônia

O nível do mar não sobe exatamente da mesma forma em todos os lugares, porque correntes oceânicas, ventos, gravidade e movimentos da crosta alteram a distribuição da água. Ainda assim, a elevação média global amplia o risco para áreas costeiras baixas, estuários, manguezais, portos e comunidades que dependem de rios próximos ao mar.

Na Amazônia, essa discussão alcança especialmente as áreas costeiras do Pará e do Amapá, além do litoral do Maranhão, estado incluído na Amazônia Legal. Cidades, comunidades ribeirinhas, ilhas e zonas de mangue podem enfrentar mais alagamentos quando a maré alta coincide com chuvas intensas, ressacas ou cheias de rios. O estudo não apresenta uma projeção específica para cada município amazônico, mas ajuda a explicar por que decisões de planejamento costeiro precisam considerar mudanças que acontecem a milhares de quilômetros da região.

Para quem vive no interior dos estados amazônicos, o tema também tem efeitos indiretos. Portos, estradas, cadeias de abastecimento e áreas urbanas conectadas ao litoral podem sofrer impactos quando inundações costeiras se tornam mais frequentes. A elevação do mar é lenta, mas pode alterar a linha de segurança de obras e ocupações planejadas para décadas.

Neve extra não elimina a necessidade de reduzir emissões

A conclusão não significa que todos os cenários terão o mesmo resultado. Os autores afirmam que ainda faltam processos importantes nas simulações, como a maneira pela qual o gelo se parte e a influência de rios e lagos sob a camada antártica. Essas lacunas podem mudar as estimativas sobre a velocidade com que o gelo chegará ao oceano e o tempo disponível para adaptação das comunidades.

Mesmo com essas limitações, a análise reforça uma mensagem prática: reduzir cada tonelada de gás de efeito estufa emitida hoje diminui a quantidade de gelo perdida pela Antártica e desacelera a elevação do nível do mar durante centenas de anos. A neve adicional pode amenizar parte da perda, mas não funciona como uma proteção capaz de reverter a tendência identificada.

Os próximos passos dependem de observações mais precisas do oceano, das plataformas de gelo e do terreno sob a camada congelada, além do aperfeiçoamento dos modelos usados para orientar planos de adaptação costeira.

Com informações de The Conversation.

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