Jumentos perdem 94% da população no Brasil, e cientistas defendem colágeno sem abate

Jumentos perdem 94% da população no Brasil, e cientistas defendem colágeno sem abate
Foto: Divulgação

Mobilização internacional marcada para 30 de setembro relaciona o comércio de peles a riscos sanitários, genéticos e econômicos.

Se a população brasileira de jumentos fosse representada por cem animais em 1996, apenas seis permaneceriam em 2024. A queda de 94% está no centro de uma mobilização de cientistas, médicos-veterinários, advogados e especialistas do Brasil e do exterior contra o abate dos animais para exportação de peles, principalmente para a China.

A ação está marcada para 30 de setembro de 2026. Participantes publicarão vídeos simultaneamente nas redes sociais para explicar, a partir de diferentes áreas, por que o comércio ligado ao ejiao, produto da medicina tradicional chinesa feito com colágeno de pele de jumento, envolve mais do que uma discussão sobre proteção animal.

Uma cadeia que começa sem histórico conhecido

Segundo dados compilados a partir da FAO, do IBGE e do Agrostat, o número de jumentos no Brasil caiu 94% entre 1996 e 2024. Pesquisadores envolvidos na mobilização afirmam que a atividade depende da captura ou do recolhimento de animais em diferentes localidades do Nordeste, seguido por transporte, confinamento, abate e exportação das peles.

O ponto considerado crítico é a dificuldade de saber de onde os animais vieram, qual é a idade de cada um, por quais áreas passaram e qual era sua condição sanitária antes de chegarem às fazendas de confinamento. Sem reprodução planejada ou reposição regular do rebanho, a cadeia é descrita pelos especialistas como extrativista, porque retira animais das populações existentes sem garantir a renovação delas.

A biologia da espécie também limita a possibilidade de expansão rápida. A gestação dura aproximadamente 12 meses, a taxa reprodutiva é baixa e o desenvolvimento ocorre mais lentamente do que em espécies tradicionalmente criadas para produção animal. Para Roberto Arruda de Souza Lima, professor associado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, essas características tornam inviável produzir peles em escala suficiente para atender à demanda chinesa.

“Produzir peles em escala suficiente para atender à demanda chinesa é inviável devido às limitações biológicas, como o longo período de gestação e a baixa produtividade. Também não há agregação significativa de valor no Brasil, já que a maior parte dos ganhos econômicos ocorre no exterior”, afirma Roberto Arruda de Souza Lima.

O que a redução da população pode apagar

Além da diminuição numérica, os pesquisadores alertam para a perda de diversidade genética. Com menos animais disponíveis para reprodução, características desenvolvidas ao longo de gerações podem desaparecer. Isso reduz a variedade genética das populações brasileiras e pode comprometer sua capacidade de adaptação às condições do território.

A discussão também envolve a presença histórica do jumento no Nordeste. Bárbara Goloubeff, médica-veterinária, afirma que os animais estão ligados à formação cultural da região há cerca de cinco séculos. Adroaldo Zanella, médico-veterinário e professor da Universidade de São Paulo, avalia que esse valor histórico e cultural supera o benefício econômico gerado pelo abate para o mercado de peles.

Em 2024, os 55 países da União Africana aprovaram uma moratória de 15 anos contra o abate de jumentos destinado ao comércio de peles. Para Janneke Merkx, gerente de Campanhas da organização The Donkey Sanctuary, a redução brasileira faz parte de uma crise internacional provocada pela demanda por ejiao.

“Os jumentos sustentam os meios de vida de milhões de pessoas em diversas partes do mundo, mas agora enfrentam uma crise. Milhões de animais são abatidos todos os anos para atender à demanda por ejiao. As populações nacionais despencaram em diversos países, incluindo o Brasil. Precisamos agir antes que seja tarde demais”, afirma Janneke Merkx.

Risco sanitário depende de rastreabilidade

Na abordagem conhecida como Saúde Única, a saúde humana, animal e ambiental são tratadas como partes de um mesmo sistema. É nesse ponto que os especialistas concentram uma das principais críticas à cadeia dos jumentos: a circulação de animais sem identificação confiável e sem diagnóstico adequado pode dificultar a detecção de agentes infecciosos.

Marcelo Beltrão Molento, professor da Universidade Federal do Paraná e especialista em parasitologia veterinária, cita a exposição de trabalhadores a sangue, vísceras, secreções e aerossóis durante o processamento. A preocupação inclui o mormo, doença infecciosa que afeta equídeos e pode ser transmitida às pessoas.

Jumentos perdem 94% da população no Brasil, e cientistas defendem colágeno sem abate
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Segundo os pesquisadores, estudos feitos em outros países também encontraram metais pesados, como chumbo e arsênio, em tecidos de jumentos expostos ao longo da vida a áreas contaminadas, estradas e locais de descarte de resíduos. Ainda não há estudos suficientes para definir a presença e a concentração dessas substâncias nos animais abatidos no Brasil. Por isso, a possibilidade é apresentada como uma questão a ser investigada, não como contaminação comprovada na produção brasileira.

José Roberto Pinho de Andrade Lima, médico-veterinário e epidemiologista, afirma que a falta de informações sobre a origem e a movimentação dos animais cria riscos microbiológicos, químicos e epidemiológicos ainda desconhecidos. Ele também questiona o impacto que um produto sem histórico sanitário completo pode ter sobre a credibilidade do sistema brasileiro de inspeção agropecuária.

Colágeno produzido por microrganismos

A mobilização não se limita à denúncia dos problemas. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná trabalham com fermentação de precisão, uma tecnologia que pode produzir colágeno sem o abate de jumentos.

O processo utiliza a sequência de DNA responsável pela produção do colágeno e a insere em microrganismos, como leveduras. Depois, esses microrganismos passam a fabricar a proteína durante seu próprio crescimento. Carla Forte Maiolino Molento, professora da UFPR e coordenadora da pesquisa, explica que a proposta aproveita apenas a informação genética necessária para produzir o colágeno, sem retirar a pele dos animais.

“É possível utilizar apenas a sequência do DNA do jumento que codifica o colágeno e inseri-la em uma levedura. À medida que o microrganismo se multiplica e produz suas próprias proteínas, ele também passa a produzir colágeno exatamente como é produzido no organismo do animal”, explica Carla Forte Maiolino Molento.

A alternativa ainda aparece no debate como uma frente de pesquisa, enquanto o comércio tradicional envolve animais capturados e reunidos em diferentes pontos antes do abate. A diferença entre os dois modelos está justamente na origem do insumo: um depende da exploração de populações vivas; o outro busca fabricar a proteína em laboratório.

Decisão judicial e próximos passos

O debate também chegou à Justiça. Em 13 de abril de 2026, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia determinou a proibição do abate de jumentos, mulas e bardotos no estado, conforme informou Yuri Fernandes Lima, coordenador jurídico da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos.

A mobilização reúne pesquisadores ligados a instituições como USP, UFPR e UFBA, além de profissionais de saúde pública, epidemiologia, bem-estar animal, economia e Direito. Para Chiara Albano de Araújo Oliveira, professora da UFBA, a participação acadêmica deve ajudar a transformar uma reivindicação em evidências que possam ser verificadas.

Para leitores da Amazônia, a discussão oferece uma referência sobre como rastreabilidade, inspeção e Saúde Única se conectam sempre que animais circulam por longas distâncias e entram em cadeias comerciais. O material da mobilização não apresenta dados específicos sobre a população de jumentos nos estados amazônicos, mas coloca em debate um princípio aplicável à região: sem origem conhecida e acompanhamento sanitário, a fiscalização perde capacidade de prevenir riscos.

Os vídeos dos especialistas serão publicados simultaneamente em 30 de setembro de 2026, quando a campanha pretende ampliar o debate sobre o futuro dos jumentos e sobre alternativas ao uso de suas peles.

Com informações da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos.

Respostas rápidas

Quando acontece a mobilização?

A publicação simultânea dos vídeos está marcada para 30 de setembro de 2026, nas redes sociais dos participantes.

Por que as peles são exportadas?

As peles são usadas na produção do ejiao, produto da medicina tradicional chinesa feito com colágeno extraído de peles de jumentos.

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