Um tubarão de poeira no céu vence o prêmio de astrofotografia

Nebulosa escura LDN 1235, a Nebulosa do Tubarão, em tons de laranja e azul

Feita do Kuwait com 28,5 horas de exposição, a imagem da Nebulosa do Tubarão levou o principal prêmio do concurso do Observatório Real de Greenwich. As cinco fotos mais celebradas do ano vão de uma estrela que explodiu há 10 mil anos a um planeta sumindo atrás da Lua.

Fotos: Ali Alobaidly, Cédric Humbert, Radoslav Sviretsov, Phil Halper e Petr Horalek

Foram 28,5 horas de exposição para que uma nuvem de poeira interestelar a 650 anos-luz da Terra virasse um tubarão.

A imagem, batizada The Quiet Predator, o predador silencioso, é de Ali Alobaidly e venceu a categoria principal do ZWO Astronomy Photographer of the Year 2026, concurso promovido pelo Observatório Real de Greenwich, em Londres. É a 18ª edição da disputa, e Alobaidly se torna o primeiro fotógrafo do Kuwait a levar o prêmio maior, de 10 mil libras. Os vencedores foram anunciados em cerimônia on-line no dia 17 de setembro.

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O objeto retratado tem um nome de catálogo bem menos sugestivo, LDN 1235, e fica na constelação de Cefeu. É uma nebulosa escura, ou seja, uma nuvem de poeira densa o bastante para barrar a luz das estrelas que estão atrás dela. As áreas azuladas são nebulosas de reflexão, onde a poeira espalha a luz de estrelas próximas. O contraste entre o vazio escuro e esses tons frios é o que desenha o animal. Para o autor, há um sentido a mais: um predador marinho no céu acima do deserto kuwaitiano aproxima o gosto pelo cosmos da paisagem em que ele cresceu.

“Às vezes uma fotografia ganha vida pela apresentação impecável, pelo detalhe nítido e pelo contraste dinâmico entre luz e sombra. Esta é uma dessas imagens”, escreveu o jurado Steve Marsh. “A Nebulosa do Tubarão já é um objeto marcante, mas quando ela é resolvida a ponto de se enxergarem galáxias distantes e cheias de detalhe através dela, você sabe que está diante de algo muito especial.”

Abell 85, menção honrosa em Estrelas e Nebulosas. O casco de gás é o que sobrou de uma estrela que explodiu há cerca de 10 mil anos, na constelação de Cassiopeia.
Abell 85, menção honrosa em Estrelas e Nebulosas. O casco de gás é o que sobrou de uma estrela que explodiu há cerca de 10 mil anos, na constelação de Cassiopeia. Foto: Cédric Humbert

Na mesma categoria, Cédric Humbert recebeu menção honrosa por Abell 85, um casco luminoso e fino que parece flutuar entre as estrelas. É o que sobrou de uma estrela que explodiu há cerca de 10 mil anos, na constelação de Cassiopeia, a 9.780 anos-luz da Terra, num remanescente de supernova com uns 98 anos-luz de diâmetro. Humbert acumulou 88 horas de exposição para revelar essa estrutura extremamente fraca. O resultado tem algo de paradoxal: uma explosão violenta aparece ali como coisa serena, quase sem peso.

The Crown, vencedora da categoria Auroras. A igreja de madeira isolada na paisagem islandesa sob a aurora boreal, durante a tempestade geomagnética de 20 de janeiro de 2026.
The Crown, vencedora da categoria Auroras. A igreja de madeira isolada na paisagem islandesa sob a aurora boreal, durante a tempestade geomagnética de 20 de janeiro de 2026. Foto: Radoslav Sviretsov

Depois da profundidade das nebulosas, The Crown traz o olhar de volta ao chão. Uma igreja de madeira escura, com porta branca e uma cruz simples no telhado, se planta numa paisagem aberta da Islândia enquanto o céu inteiro se enche de verde. Radoslav Sviretsov fez a foto durante uma forte tempestade geomagnética em 20 de janeiro deste ano e venceu a categoria Auroras. A exposição durou 2,5 segundos.

“Esta foto maravilhosa vai encantar muita gente. O cenário é fantástico: a pequena igreja resiste firme na imensidão”, comentou o jurado Alan Sparrow. “O fotógrafo capturou o momento em que a aurora boreal banhou a capela com um magnífico brilho verde, presente da tempestade geomagnética.”

Aurora Between Two Continents, segunda colocada em Auroras. O riacho de Þingvellir, na Islândia, devolve as cores do céu na noite de 12 de novembro de 2025.
Aurora Between Two Continents, segunda colocada em Auroras. O riacho de Þingvellir, na Islândia, devolve as cores do céu na noite de 12 de novembro de 2025. Foto: Phil Halper

Phil Halper também fotografou a aurora na Islândia, e ficou em segundo lugar na mesma categoria. Em Aurora Between Two Continents, um riacho vem do fundo da imagem trazendo as cores do céu. O verde se deita sobre o horizonte, e acima dele sobem feixes vermelhos e rosa no azul profundo. Segundo o autor, as cores estavam vívidas até a olho nu, e o vermelho intenso vinha do oxigênio emitindo luz no alto da atmosfera. A foto foi feita em 12 de novembro de 2025, em Þingvellir, no ponto em que as placas tectônicas norte-americana e euroasiática se separam, o que explica o título.

Venusian Pearl on the Moon, vencedora de Nossa Lua. A sequência mostra Vênus encolhendo até desaparecer atrás da borda lunar, em 19 de setembro de 2025, vista da Chéquia.
Venusian Pearl on the Moon, vencedora de Nossa Lua. A sequência mostra Vênus encolhendo até desaparecer atrás da borda lunar, em 19 de setembro de 2025, vista da Chéquia. Foto: Petr Horalek

A composição mais silenciosa do conjunto acontece em pleno dia. Em Venusian Pearl on the Moon, Petr Horalek alinhou uma sequência de finas foices lunares contra o céu azul. Ao lado da borda da Lua há um ponto branco que, da esquerda para a direita, encolhe até desaparecer. O ponto é Vênus. Em 19 de setembro de 2025, visto do território da Chéquia, a Lua passou na frente do planeta, e a imagem reúne momentos diferentes dessa ocultação. Horalek venceu a categoria Nossa Lua.

As demais categorias percorrem o resto do céu. Em Galáxias, venceram Yan Zhipeng e Xinran Li, com as faixas de poeira da NGC 4753, a 60 milhões de anos-luz. Stefano Pellegrini levou Paisagens Celestes com um rastro de estrelas registrado em Botsuana. Miguel Claro ganhou Nosso Sol com a região ativa 4122, e Tom Williams venceu Planetas, Cometas e Asteroides com Saturno e a sombra da lua Tétis projetada sobre o planeta. Max Inwood levou Pessoas e Espaço com petróglifos sob a Via Láctea. O prêmio de melhor estreante ficou com Haocheng Zhu e a categoria aberta Annie Maunder, com Paweł Paweł. Na competição jovem venceu o grego Nikolaos Strimpoulis, de 15 anos.

As imagens premiadas ficam em exposição no Museu Marítimo Nacional, em Londres, a partir de 18 de setembro, e foram reunidas no livro Astronomy Photographer of the Year, Collection 15.

O conjunto deste ano acaba dizendo algo sobre tempo. Humbert acumulou 88 horas de luz para recuperar o que restou de uma estrela morta há 10 mil anos. Sviretsov teve 2,5 segundos diante de uma aurora que já estava mudando. Fotografar o céu é, antes de tudo, decidir quanto tempo se pode esperar.

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