Pescadores retiram 730 toneladas de resíduos do mar desde 2021 e transformam coleta em renda

Pescadores retiram 730 toneladas de resíduos do mar desde 2021 e transformam coleta em renda
Foto: Divulgação

Projeto da BVRio remunera comunidades pesqueiras no Brasil e em Moçambique e registra cada coleta com GPS e imagens.

Em vez de voltar do manguezal apenas com peixes, pescadores de comunidades costeiras passaram a registrar outro tipo de captura: garrafas, calçados, eletrodomésticos, sacolas, vidro, metal e outros resíduos retirados da água. A iniciativa Fishing for Litter já recolheu mais de 730 toneladas desde 2021 e transformou algumas horas semanais de trabalho ambiental em uma fonte complementar de renda para comunidades do Brasil e de Moçambique.

O programa é coordenado pela BVRio, organização que atua com gestão de resíduos e economia circular. A proposta combina o conhecimento tradicional de quem navega diariamente pelas áreas de pesca com ferramentas digitais de rastreamento. Os materiais são pesados, fotografados, classificados e encaminhados a cooperativas de reciclagem ou a aterros licenciados, conforme a possibilidade de reaproveitamento.

Quando o lixo passa a ocupar o lugar do pescado

A poluição afeta diretamente regiões onde a pesca artesanal depende da qualidade dos manguezais, estuários e baías. Resíduos transportados pelos rios chegam ao mar, enquanto áreas costeiras também podem ser usadas como depósitos irregulares. O resultado é a redução da produtividade dos pesqueiros e o aumento do custo e do risco para quem trabalha na água.

Para muitas famílias, a coleta remunerada não substitui a pesca, mas ajuda a reduzir a instabilidade provocada pela diminuição das capturas. O programa informa que 164 pessoas de comunidades pesqueiras recebem ganhos adicionais. Até 30 de junho de 2026, o investimento associado à iniciativa superava R$ 3,6 milhões.

Segundo a BVRio, o Fishing for Litter retirou mais de 730 toneladas de resíduos de áreas costeiras no Brasil e em Moçambique desde 2021, com dados registrados por local, data, tipo, peso e condição do material.

Pescadores retiram 730 toneladas de resíduos do mar desde 2021 e transformam coleta em renda
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Barcos tradicionais e rastreabilidade digital

As equipes realizam coletas duas vezes por semana, usando embarcações tradicionais ou participando de ações organizadas de limpeza de praias. A rotina começa com a retirada do material e termina com a separação, a pesagem e o registro da carga no aplicativo KOLEKT, plataforma de gestão e rastreamento de resíduos.

O sistema associa imagens e coordenadas de GPS às informações fornecidas por quem coleta e por quem recebe o material. Com isso, a ferramenta cria um histórico da cadeia, desde o ponto de retirada até a cooperativa, reciclador ou operador de aterro. O painel online também permite acompanhar transações, verificar volumes e reduzir o risco de contagem duplicada.

Há ainda um limite para o volume financiado por cada equipe. A medida distribui os recursos entre mais pescadores e evita que uma única operação concentre o pagamento. Parte do financiamento é destinada a salários e coordenação local; outra parcela cobre equipamentos de segurança e higiene, cuja necessidade aumenta em áreas com objetos cortantes, contaminados ou de difícil manejo.

O impacto na Baía de Guanabara

No Brasil, a operação se concentra em comunidades da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O trabalho alcança áreas como manguezais e ilhas, onde a circulação das embarcações pode ser dificultada pela vegetação e pelo acúmulo de resíduos flutuantes. A BVRio desenvolve a iniciativa com apoio de financiadores e parceiros locais, entre eles Ogyre e Ocyan.

O programa também evidencia uma mudança na forma de reconhecer uma atividade que já era realizada informalmente. Pescadores relatam que frequentemente retiravam lixo das redes e do entorno das embarcações sem remuneração específica. Com o projeto, essa tarefa passou a ser planejada, monitorada e associada a uma compensação financeira.

Pescadores retiram 730 toneladas de resíduos do mar desde 2021 e transformam coleta em renda
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O modelo tem como referência um custo de R$ 4 mil por tonelada na Baía de Guanabara. A BVRio afirma que a maior parte dos recursos é direcionada diretamente aos trabalhadores e coordenadores locais, enquanto auditorias independentes ajudam a acompanhar a aplicação do dinheiro e os resultados ambientais.

Por que a experiência interessa à Amazônia

A experiência também oferece uma referência para o debate sobre resíduos na Amazônia. Comunidades ribeirinhas e costeiras dos estados do Pará, Amapá, Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso convivem com redes de drenagem que transportam materiais descartados em áreas urbanas e rurais. No caso amazônico, a distância entre comunidades, a sazonalidade dos rios e a presença de áreas de várzea tornam a logística de coleta especialmente complexa.

Isso não significa que o programa já esteja implantado nesses estados. A conexão está na possibilidade de adaptar uma metodologia que remunera o conhecimento local, registra o material coletado e encaminha os resíduos para cadeias de reaproveitamento. Para funcionar em rios e áreas costeiras amazônicas, seria necessário considerar as rotas fluviais, a infraestrutura disponível e a capacidade das cooperativas de receber e transportar os materiais.

Outro ponto relevante é a economia circular. Em vez de tratar todo resíduo como rejeito, o sistema tenta separar plásticos, vidros, metais, tecidos e equipamentos elétricos. A destinação depende da condição e do tipo de cada item, mas o registro padronizado permite identificar quais materiais aparecem com maior frequência e onde a prevenção do descarte deve ser priorizada.

Expansão depende de novos financiamentos

A BVRio afirma que o projeto foi desenhado para ser ampliado e replicado no Brasil, em Moçambique e em outros países onde existam relações com gestores de resíduos e conhecimento das cadeias locais. Novas comunidades pesqueiras aguardam recursos para iniciar operações semelhantes.

Além da retirada física, a proposta atende empresas interessadas em ações socioambientais mensuráveis e em mecanismos relacionados à responsabilidade estendida do produtor. O acompanhamento por aplicativo, a comprovação visual e a auditoria são usados para demonstrar o destino dos recursos e o volume efetivamente recuperado.

O próximo passo é ampliar o número de comunidades atendidas e manter o monitoramento das coletas, enquanto parceiros e financiadores avaliam novas áreas de operação.

Com informações de BVRio.

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