Oeste da Europa tem verão mais quente já registrado, 13 dias de estresse extremo e colheitas perdidas

Oeste da Europa tem verão mais quente já registrado, 13 dias de estresse extremo e colheitas perdidas
Foto: Divulgação

Relatório do Copernicus mostra como calor, seca, incêndios e baixa vazão dos rios ampliaram os impactos no continente em 2026.

Plantações secas, rios com os menores volumes do verão em mais de três décadas e cidades submetidas a uma sequência prolongada de calor formam o retrato deixado pelo verão de 2026 na Europa. No oeste do continente, as temperaturas do ar ficaram 2,5°C acima da média da década mais recente entre junho e agosto, no período classificado pelo serviço europeu Copernicus como o mais quente já registrado para a região.

O impacto não veio de um único episódio. O calor começou cedo, ainda no fim de maio, persistiu durante o verão e continuou em níveis elevados até setembro. A combinação de altas temperaturas, estiagem e incêndios atingiu a agricultura, os sistemas de energia, o transporte, os ecossistemas e a saúde da população.

O calor passou a ocupar mais dias do calendário

Ao menos 60% do oeste europeu enfrentou temperaturas acima de 30°C durante 17 dias neste verão. Para comparação, o mesmo limite foi registrado durante 11 dias em 2003, ano marcado por uma onda de calor letal, e em apenas sete dias em 2025.

O indicador mais severo também bateu recorde. Foram 13 dias de “estresse térmico muito forte”, uma medida que considera não apenas a temperatura, mas o efeito do calor sobre o corpo humano. Nessa faixa, a sensação térmica ultrapassou 38°C, elevando o risco para idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol.

Segundo o Serviço Copernicus de Monitoramento das Mudanças Climáticas, o oeste da Europa registrou temperaturas do ar 2,5°C acima da média da última década entre junho e agosto de 2026.

Seca e fogo transformaram o calor em crise regional

A estiagem ampliou os danos. O relatório aponta que os rios europeus atingiram, no verão, os menores níveis de vazão em mais de 30 anos. Quando a água diminui, os efeitos aparecem em cadeia: o abastecimento fica mais vulnerável, a navegação pode ser prejudicada e as usinas que dependem de rios enfrentam dificuldades para operar ou resfriar seus equipamentos.

As plantações também sofreram. O solo ressecado e a falta de água reduziram as condições para o desenvolvimento de culturas agrícolas, enquanto o calor intenso agravou as perdas nas áreas rurais. Uma das imagens associadas ao balanço mostra um campo de milho castigado pela onda de calor na região francesa de Tarn-et-Garonne.

Os incêndios encontraram, nesse cenário, uma paisagem mais inflamável. Dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais indicam que as condições meteorológicas para a propagação do fogo em 2026 foram as piores já registradas. Até o fim de setembro, 680 mil hectares haviam sido queimados.

A fumaça também amplia o risco nas cidades

A área destruída pelos incêndios colocou 2026 como o terceiro pior ano da série até aquele momento. O volume ficou abaixo dos 1 milhão de hectares queimados até setembro de 2025 e dos 768 mil hectares registrados no mesmo período de 2022.

Oeste da Europa tem verão mais quente já registrado, 13 dias de estresse extremo e colheitas perdidas
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O fogo não termina quando as chamas são controladas. A fumaça liberou 30% mais material particulado fino na atmosfera do que a média das duas décadas anteriores. Essas partículas podem penetrar profundamente no sistema respiratório e aumentar os riscos para pessoas com asma, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde.

As ondas de calor também foram associadas a dezenas de milhares de mortes no continente. A dimensão exata da mortalidade costuma ser calculada depois, por meio da comparação entre o número de óbitos observado e o esperado para cada período. Por isso, o balanço climático aponta o efeito letal do calor, mas não apresenta neste momento um total definitivo de vítimas.

O papel das mudanças climáticas e do El Niño

O relatório relaciona a maior frequência e intensidade desses episódios ao aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. Em um planeta mais quente, uma onda de calor natural parte de uma linha de base mais elevada e pode alcançar temperaturas, duração e extensão maiores.

O El Niño em desenvolvimento também aparece no cenário global. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, estava quebrando recordes meses antes do pico esperado para o fim de 2026. A influência sobre a Europa tende a ser indireta, mas pode aparecer em preços de alimentos, inflação e alterações nos padrões climáticos de outras regiões.

Uma estimativa citada no balanço aponta que o episódio poderá contribuir para quase 500 mil mortes adicionais relacionadas ao calor até fevereiro. Trata-se de uma projeção, não de um número já observado, e ela se refere ao efeito global esperado do fenômeno.

O que o verão europeu ensina para a Amazônia

O relatório não transforma a experiência europeia em uma previsão automática para os estados da Amazônia. Os climas, os ecossistemas e os padrões de ocupação são diferentes. Ainda assim, os riscos descritos são conhecidos na região: calor intenso afeta a saúde, a seca reduz a disponibilidade de água, incêndios degradam a qualidade do ar e alterações no nível dos rios interferem no transporte e no abastecimento.

Essa conexão ajuda a interpretar por que a adaptação precisa combinar medidas urbanas e ambientais. Sombra nas ruas, áreas verdes, prédios mais preparados para o calor, protocolos para hospitais e escolas e sistemas de alerta podem reduzir a exposição da população. Na Amazônia, a proteção de florestas e a prevenção de queimadas acrescentam uma camada essencial, porque a fumaça atravessa municípios e pode atingir áreas distantes do ponto de origem.

Especialistas citados no relatório defendem que governos reduzam a queima de combustíveis fósseis, ampliem a arborização das cidades e preparem hospitais, escolas e instituições de longa permanência para períodos de calor intenso. As medidas não substituem a redução das emissões, mas diminuem a vulnerabilidade enquanto o aquecimento global continua.

Uma sequência de recordes com efeitos conectados

Além do calor do ar, as temperaturas da superfície do mar ao redor da Europa também quebraram recordes. A sobreposição entre calor, seca e fogo explica por que os impactos foram mais amplos do que uma simples marca nos termômetros. Água, energia, produção de alimentos, transporte e saúde passaram a disputar recursos em um mesmo período.

O verão de 2026 foi o terceiro mais quente da Europa como um todo, embora o oeste tenha atingido o pior resultado de sua série histórica. A evolução dos incêndios, da temperatura e das condições dos rios continuará sendo acompanhada pelos sistemas europeus de monitoramento nos próximos meses.

Com informações do Serviço Copernicus de Monitoramento das Mudanças Climáticas.

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