
Estudo da Universidade de Aberdeen sugere que o risco de fogo pode durar muito além do pico de calor, um alerta para florestas como as da Amazônia.
Pedaços minúsculos de carvão guardados por 65 milhões de anos no fundo de um antigo lago indicam que o fogo pode continuar intenso por muito tempo depois que a temperatura do planeta para de subir. A conclusão vem de um estudo da Universidade de Aberdeen, na Escócia, publicado na revista Scientific Reports, que reconstituiu a atividade de incêndios durante o evento de aquecimento natural conhecido como hipertermal do Daniano.
Segundo a Universidade de Aberdeen, é a primeira evidência detalhada de como os incêndios responderam a esse episódio de mudança climática do passado remoto. O artigo está disponível na página da Scientific Reports.
Como o fogo antigo foi lido no carvão
O método parte de uma ideia simples: quando uma vegetação queima, restos de carvão podem ser levados pelo vento e pela água e se depositar no fundo de lagos. Camada após camada, os sedimentos formam um arquivo do que aconteceu na paisagem ao redor.
A equipe analisou o carvão fóssil preservado nesses sedimentos para estimar quanto fogo houve em cada momento do hipertermal, um período de mudança climática significativa e bem delimitado no tempo geológico.
O material vem de uma perfuração científica feita em 2008 na parte mais profunda da cratera de impacto de Boltysh. A sondagem foi apoiada pelo Conselho de Pesquisa do Ambiente Natural do Reino Unido (NERC) e tinha outro objetivo: investigar se o impacto de Boltysh ocorreu antes, ao mesmo tempo ou depois do impacto de Chicxulub, na passagem do Cretáceo para o Paleógeno. O novo estudo, financiado pela própria universidade, reaproveitou as amostras daquele projeto.
Fogo em etapas e que não se apagou com o clima
Os resultados mostram que os incêndios se intensificaram em várias etapas e seguiram ativos mesmo depois que as temperaturas começaram a se estabilizar.
Os pesquisadores sugerem que, uma vez estabelecido, o regime de fogo pode persistir por longos períodos por causa de mudanças na vegetação e na quantidade de material disponível para queimar, e não apenas pelo clima em si.

“Os incêndios estão se tornando mais frequentes e severos em muitas partes do mundo. Ao estudar um evento de aquecimento semelhante do passado da Terra, descobrimos que os ecossistemas podem levar muito mais tempo para se recuperar do fogo do que se pensava”, disse Tom Theurer, da Universidade de Aberdeen.
Ele acrescentou: “O que é particularmente preocupante é que a atividade de incêndios permaneceu alta mesmo depois que o clima começou a se recuperar. Isso sugere que os efeitos da mudança climática sobre o risco de incêndio podem continuar por muito tempo no futuro, mesmo que as temperaturas se estabilizem.”
O que isso significa para a Amazônia
O estudo trata de um evento natural, em outro continente e em outra era, e não faz projeções para regiões específicas. Ainda assim, a lógica que ele aponta dialoga com a realidade amazônica: onde a floresta é degradada por secas e queimadas, a vegetação muda e o combustível disponível se altera, o que pode favorecer novos incêndios nos anos seguintes.
Para estados como Pará, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Acre, que convivem com temporadas de fogo, a mensagem é de cautela: reduzir o risco pode exigir ações de longo prazo, e não apenas o alívio da estiagem ou a queda da temperatura em um ano específico.
O que o estudo não diz
Os próprios autores tratam o resultado como evidência de que fogo e recuperação podem ser moldados por mudanças ambientais duradouras. Dave Muirhead, professor da universidade, afirmou: “Nossas descobertas fornecem novas evidências de que os incêndios e a recuperação dos ecossistemas podem ser moldados por mudanças ambientais de longa duração. Embora o hipertermal do Daniano tenha ocorrido de forma natural, este estudo destaca os desafios potenciais enfrentados pelos ecossistemas modernos à medida que a mudança climática causada pelo homem se intensifica.”
A comparação com o presente tem limites: o aquecimento de hoje é provocado por atividades humanas, e as paisagens do início do Paleógeno eram diferentes das atuais. O trabalho mostra um padrão no registro fóssil, não um prazo exato para a recuperação de florestas modernas.
A equipe espera que a pesquisa ajude a entender como as paisagens respondem à mudança do clima e subsidie esforços para reduzir o risco de incêndios e apoiar a recuperação ecológica, tema que deve continuar no centro de novos estudos sobre o passado e o futuro do fogo.
Com informações da Universidade de Aberdeen.
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