
Alta de focos ocorre mesmo com índice abaixo da média histórica, enquanto fumaça já afeta cidades fora do estado.
O fogo que avança por áreas rurais do Amazonas já deixou de ser apenas um problema de municípios isolados. Até 12 de outubro de 2026, a fumaça alcançou Porto Velho, onze aeronaves foram mobilizadas para o combate e parte da Terra Indígena Paraná do Arauató, onde vive o povo Mura, foi atingida pelas chamas em Itacoatiara. O estado acumulou 7.815 focos desde janeiro, 116% acima dos 3.611 registrados no mesmo período de 2025.
O número ajuda a dimensionar a emergência, mas também exige cautela na leitura. A quantidade de focos está 12% abaixo da média histórica da série do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, iniciada em 1998. Em relação ao intervalo equivalente de 2024, quando uma seca associada ao El Niño favoreceu uma temporada excepcional de fogo, a queda chega a 67%.
O mapa do fogo se divide entre Manaus e o sul do estado
A distribuição mais recente mostra duas frentes de pressão. Na Região Metropolitana de Manaus, quase um terço dos focos registrados nos 30 dias anteriores a 14 de outubro se concentrou em municípios próximos à capital. Autazes liderou com 313 ocorrências, seguida por Itacoatiara, com 200, Careiro da Várzea, com 134, e Manacapuru, com 133.
O outro eixo está no sul e no sudeste do Amazonas, justamente a faixa mais desmatada do estado. Lábrea registrou 379 focos no período, o maior número entre os municípios citados. Depois aparecem Novo Aripuanã, com 311, Boca do Acre, com 298, Manicoré, com 153, Humaitá, com 118, e Apuí, com 95.
Segundo o Programa Queimadas do INPE, o Amazonas registrou 7.815 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 12 de outubro de 2026. O dado é 116% maior que o observado no mesmo intervalo de 2025, mas permanece 12% abaixo da média histórica calculada desde 1998.

Fogo chega a território Mura enquanto governo amplia operação
Em Itacoatiara, a situação ganhou uma dimensão territorial e social mais grave. O fogo alcançou parte da Terra Indígena Paraná do Arauató, onde vivem indígenas Mura. A presença das chamas em área protegida aumenta os riscos para comunidades, florestas e modos de vida que dependem diretamente dos recursos naturais.
Após sobrevoar a região, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, classificou o cenário como crítico. Ele também afirmou que a presença de focos em áreas preservadas indica ação humana intencional. A declaração aponta para a possibilidade de incêndios criminosos, mas a responsabilização depende das vistorias e das apurações conduzidas pelos órgãos competentes.
A resposta federal reúne IBAMA, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar e Polícia Federal. A frota mobilizada tem seis aviões de lançamento de água, três helicópteros, um avião de apoio logístico e um cargueiro da Força Aérea Brasileira.
Quatro aviões foram destinados a Autazes e ao entorno de Manaus. Outros dois passaram a atuar na região de Itacoatiara, onde o fogo avançou sobre a vegetação e atingiu a terra indígena. A estrutura aérea revela a tentativa de conter as chamas em pontos diferentes, mas também expõe a dificuldade logística de operar em um estado de grandes distâncias e acesso frequentemente limitado.
Fiscalização tenta interromper a propagação antes da autuação
O IBAMA notificou previamente 725 propriedades rurais consideradas sob alto risco de propagação do fogo. A estratégia busca obrigar responsáveis por áreas ameaçadas a adotar medidas de controle antes que as chamas se espalhem para terrenos vizinhos, unidades de conservação ou territórios indígenas.

Equipes do órgão realizam vistorias para verificar o cumprimento das determinações. Parte dos responsáveis já foi autuada por descumprimento. O movimento muda o foco da resposta: além de apagar incêndios, a fiscalização tenta identificar as condições que permitem que queimadas escapem do controle e avancem por paisagens fragmentadas.
Há uma contradição importante nos números. O total de 2026 está abaixo do recorde recente e da média histórica, mas a alta em relação a 2025 é suficientemente grande para produzir impacto regional. Em outras palavras, o fato de o estado ainda não ter repetido a escala de 2024 não elimina a pressão atual sobre comunidades, equipes de emergência e áreas protegidas.
A fumaça atravessa a divisa e expõe o impacto regional
O episódio também mostra como os incêndios não respeitam limites administrativos. Na terça-feira, 13 de outubro, Porto Velho amanheceu com o céu turvo devido à fumaça vinda do Amazonas. A plataforma IQAir registrou índice de qualidade do ar de 107 na capital de Rondônia. Em Manaus, o índice chegou a 103. Os dois valores ficaram na faixa considerada insalubre para grupos sensíveis, como crianças, idosos e gestantes.
Para os demais estados amazônicos, a conexão é direta: a circulação atmosférica pode transportar fumaça de áreas rurais para centros urbanos e cidades de outros estados, alterando a qualidade do ar mesmo onde o incêndio não ocorre. Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso também enfrentam, em diferentes períodos, os efeitos combinados de estiagens, queimadas e deslocamento de partículas, embora os dados desta ocorrência estejam concentrados no Amazonas e em Porto Velho.
A comparação com 2024 ajuda a entender por que a série exige acompanhamento contínuo. Naquele ano, o Amazonas registrou 23.475 focos entre janeiro e 12 de outubro, em meio a uma seca histórica agravada pelo El Niño. A cifra atual é menor, porém o avanço territorial do fogo e o alcance da fumaça indicam que o risco não pode ser avaliado apenas pelo ranking anual de focos.
As próximas etapas são a conclusão das vistorias nas 725 propriedades notificadas, a identificação de eventuais responsáveis por incêndios provocados e a continuidade da operação aérea e terrestre nas áreas mais críticas do Amazonas.
Com informações de ClimaInfo.
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