Congresso vota contra agenda ambiental em 70% dos casos, e eleições de 2026 ganham duas ferramentas

Congresso vota contra agenda ambiental em 70% dos casos, e eleições de 2026 ganham duas ferramentas
Foto: Redação Envolverde

Farol Verde e Bússola 2026 cruzam o histórico dos parlamentares com compromissos que candidatos deverão assumir para 2027 a 2030.

Para quem vive em áreas expostas a secas, enchentes, queimadas e perda de produção, o voto ambiental deixou de ser uma escolha abstrata. É nesse ponto que o Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) concentra duas ferramentas lançadas em setembro de 2026: o Farol Verde, que permite consultar como deputados e senadores votaram, e a Bússola 2026, que organiza propostas para orientar programas de governo e mandatos no ciclo de 2027 a 2030.

O diagnóstico produzido pelo Farol Verde é direto. Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, o Congresso teve resultado desfavorável ao meio ambiente em 46 das 66 votações nominais sobre a agenda ambiental. Foram 44 votações na Câmara dos Deputados e 22 no Senado, com apenas 20 resultados classificados como vitórias da sustentabilidade.

O número que muda a leitura sobre o voto

Segundo o Instituto Democracia e Sustentabilidade, o Congresso Nacional registrou 70% de derrotas da agenda ambiental em votações nominais realizadas entre janeiro de 2023 e julho de 2026.

A plataforma não se limita a contabilizar placares. O Índice de Convergência Ambiental, chamado de ICAt, atribui uma pontuação de zero a 100 ao comportamento de partidos e parlamentares. A média ficou em 46,5 na Câmara e em 31,2 no Senado, resultado que indica maior distanciamento da pauta ambiental entre os senadores avaliados.

O recorte dos vetos presidenciais agrava o quadro. Nessa categoria, 83% das decisões foram consideradas derrotas ambientais. A leitura do IDS é que a análise do passado recente pode funcionar como uma espécie de ficha de desempenho para o eleitor, especialmente quando candidaturas apresentam novas promessas de proteção climática.

Amazônia Legal aparece abaixo da média nacional

O dado mais sensível para os leitores da região amazônica está na comparação territorial. Parlamentares da Amazônia Legal obtiveram ICAt de 38,8, abaixo da média registrada pelos representantes do restante do país, de 46,3.

A diferença chama atenção porque os impactos de decisões sobre desmatamento, regularização fundiária, terras indígenas, infraestrutura e fiscalização ambiental se concentram de maneira intensa nos territórios amazônicos. O resultado não permite concluir que todos os parlamentares da região votaram da mesma forma, mas mostra que o conjunto analisado apresentou menor convergência com a agenda ambiental.

O Farol Verde também identifica diferenças entre grupos. Na Câmara, Rede, PSOL e PCdoB aparecem com ICAt superior a 90. No Senado, PT e PDT lideram o indicador. Entre os piores desempenhos citados estão Novo, PL e União Brasil. Mulheres tiveram alinhamento ambiental maior do que homens nas duas Casas, enquanto o Nordeste liderou a convergência regional e o Centro-Oeste apresentou os menores índices.

Da consulta ao voto à cobrança de promessas

O lançamento do Farol Verde, em 21 de setembro, foi precedido pela apresentação da Bússola 2026, realizada no início do mês, em um espaço cultural de São Paulo. As duas iniciativas cumprem funções diferentes. Uma olha para decisões já tomadas; a outra tenta influenciar o que deverá entrar nos planos de governo de candidatos à Presidência, aos governos estaduais e ao Legislativo.

A Bússola propõe quatro frentes principais. A primeira é a transição ecológica, com metas de neutralidade de carbono, transição energética justa e estímulo à economia de baixo carbono. A segunda trata da adaptação das cidades, com prevenção de desastres, infraestrutura verde e prioridade para comunidades mais vulneráveis.

Congresso vota contra agenda ambiental em 70% dos casos, e eleições de 2026 ganham duas ferramentas
Foto: Redação Envolverde

As outras duas frentes são a proteção dos biomas, com combate a ilícitos, conservação e demarcação de terras indígenas e quilombolas, e a governança participativa. Nesse último eixo, o documento defende transparência, participação social e presença da sociedade civil nas decisões orçamentárias.

O que fica fora apenas da disputa partidária

A proposta do IDS também desloca o debate climático para além das metas de emissão. No encontro de lançamento, participaram a psicóloga e pesquisadora Cida Bento, o biólogo e especialista em mudanças climáticas Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo, a antropóloga e liderança indígena Naia Vitória Kariri e o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco.

A mensagem comum foi que políticas climáticas não podem ser separadas do enfrentamento ao racismo ambiental e da participação de povos originários e comunidades tradicionais. Para os estados amazônicos, essa abordagem é decisiva, porque a proteção de florestas e rios se relaciona ao acesso a serviços públicos, à segurança alimentar, à saúde e à permanência de comunidades em seus territórios.

Há, porém, uma tensão entre o roteiro proposto e o comportamento revelado pelo índice. Enquanto a Bússola pede compromissos de longo prazo, o Farol Verde mostra que a maioria das votações ambientais avaliadas caminhou na direção contrária. A diferença sugere que a cobrança eleitoral precisará verificar não apenas o discurso dos candidatos, mas também alianças, prioridades orçamentárias e posições assumidas no Legislativo.

Como o eleitor pode usar as plataformas

O Farol Verde permite conferir o voto de cada parlamentar nas pautas incluídas no levantamento. A consulta pode ser usada por eleitores, jornalistas, organizações da sociedade civil e grupos que pretendam comparar promessas futuras com a atuação registrada entre 2023 e julho de 2026.

Já a Bússola 2026 funciona como uma agenda de cobrança. Em vez de esperar propostas genéricas sobre sustentabilidade, o eleitor pode perguntar quais metas serão adotadas para reduzir emissões, proteger biomas, preparar cidades para eventos extremos e garantir participação social.

O relatório completo e os dados sobre os votos estão disponíveis no Farol Verde, plataforma de acompanhamento da agenda ambiental. A próxima etapa será levar essas diretrizes para o debate eleitoral e acompanhar se os compromissos apresentados para 2027 a 2030 serão convertidos em políticas públicas.

Respostas rápidas para a consulta

Quem pode usar o Farol Verde?

Qualquer eleitor pode consultar o desempenho de deputados e senadores nas votações ambientais analisadas. A ferramenta também foi criada para apoiar o trabalho da imprensa e de organizações da sociedade civil.

O índice mede apenas discursos de campanha?

Não. O ICAt é calculado a partir de votações nominais da agenda ambiental no Congresso, incluindo decisões sobre vetos presidenciais.

Para que serve a Bússola 2026?

O projeto reúne diretrizes para que eleitores cobrem compromissos socioambientais de candidaturas ao Executivo e ao Legislativo durante as eleições de 2026.

Com informações do Instituto Democracia e Sustentabilidade.

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