
Método da Universidade de Bonn combina satélites e boias e mostra que o Índico absorveu calor acima do esperado entre 2005 e 2015.
Quando a água esquenta, ela se expande, e é essa dilatação, medida em milímetros por ano, que pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha, usaram para calcular quanto calor os oceanos do planeta estão guardando. O método combina satélites e boias de perfilagem e, segundo a instituição, revelou em bacias individuais desvios de dois dígitos percentuais em relação às simulações dos modelos climáticos.
O mar como um termômetro de coluna
A lógica lembra a de um termômetro de mercúrio: o líquido sobe no tubo conforme esquenta. No oceano, o “tubo” é a própria superfície do mar, cuja altura é medida com grande precisão por satélites com altímetros de radar.
O problema é que o nível do mar também sobe pelo derretimento de geleiras e mantos de gelo. Para separar os dois efeitos, a equipe recorreu aos satélites GRACE, que permitem descontar a água que vem do gelo e isolar o que se deve apenas ao aquecimento.
As boias que derivam livremente pelo oceano completam o quadro. Elas medem a temperatura nas camadas superiores e ajudam a estimar como o calor extra se distribui em diferentes profundidades. Sozinhas, porém, não cobrem todo o oceano de forma completa.
A novidade: o coeficiente de dilatação muda de lugar para lugar
Segundo os pesquisadores, a principal inovação é calcular, pela primeira vez, o coeficiente de expansão térmica do oceano para diferentes regiões. Em estudos semelhantes, esse valor costumava ser tratado como igual em toda parte, o que pode gerar erros significativos.
O trabalho também exigiu reunir conjuntos de dados grandes e muito diversos, analisados de forma consistente. Métodos computacionais modernos foram usados para compensar diferenças na distribuição das medições e reduzir interpretações equivocadas.
Com isso, o grupo reconstruiu mapas mensais e o aquecimento médio de toda a coluna d’água, em todas as profundidades.
O que os números mostram
Segundo a Universidade de Bonn, a Terra absorve atualmente mais calor do que irradia para o espaço, e cerca de 90% desse excedente fica nos oceanos. Isso influencia o nível do mar, as ondas de calor marinhas e fenômenos como o El Niño.
Considerados todos os oceanos juntos, os resultados são em grande parte compatíveis com os modelos climáticos. A divergência aparece nas bacias isoladas, com diferenças na faixa de dois dígitos percentuais.
Nos últimos 20 anos, Pacífico, Atlântico e Índico absorveram cada um cerca de um terço do calor adicional. O Índico, em especial, captou uma quantidade incomum entre 2005 e 2015. Para a equipe, o padrão sugere transferência de calor entre os oceanos.
O que isso significa para a Amazônia
A região amazônica sente o oceano de perto. O El Niño, citado pelos pesquisadores entre os fenômenos influenciados pelo calor oceânico, costuma estar associado a secas severas na bacia, como as que reduziram o nível dos rios e isolaram comunidades ribeirinhas. O aquecimento do Atlântico também pesa sobre o regime de chuvas, e o aumento do mar afeta a costa do Amapá, do Pará e do Maranhão.
O estudo não analisa a Amazônia diretamente. Mas, ao mostrar que a distribuição do calor entre as bacias pode mudar bastante em poucos anos, reforça a necessidade de monitorar o oceano para entender os extremos que chegam à região.
Recomendações e limites do conhecimento
Os autores afirmam que a absorção e a redistribuição de calor podem mudar de forma drástica em poucos anos, e que causas e consequências ainda não são totalmente compreendidas. Por isso, defendem medições confiáveis por satélites e sistemas de observação no mar, com financiamento de longo prazo por cooperação global e menor dependência dos Estados Unidos.
Eles também argumentam que a política climática não deve se basear apenas nas tendências da temperatura média da superfície terrestre. O oceano, e em particular a elevação do nível do mar, seria um “termômetro do sistema terrestre” melhor, por oscilar muito menos.
Próximos passos
A equipe pretende estender a análise a décadas anteriores, recorrendo a medições históricas, já que há menos dados de satélite antes de 1993. No futuro, também planeja incorporar informações dos satélites GRACE-C e NGGM, ainda por entrar em operação.
Os detalhes estão no comunicado da Universidade de Bonn.
Com informações de Universidade de Bonn.
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