
O El Niño seca a Amazônia ao deslocar para o leste a região do Pacífico onde o ar quente sobe e forma nuvens: com isso, o ar passa a descer sobre o norte da floresta, e a chuva diminui. Em boletim de 10 de setembro de 2026, o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA estimou mais de 90% de chance de um El Niño muito forte no outono e no inverno de 2026-27 do Hemisfério Norte.
O impacto no Brasil é provável, mas ainda não generalizado. O Painel El Niño, publicado em 1º de outubro de 2026 por INPE, Inmet, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil (SGB) e outros órgãos, afirma que não há, por ora, condição hidrológica excepcionalmente baixa e generalizada na Amazônia, como em 2023 e 2024.
Como o El Niño tira a chuva da Amazônia
No El Niño, segundo a NOAA, os ventos alísios enfraquecem, e as zonas de ar ascendente e descendente mudam de lugar: sobe mais ar e chove mais no Pacífico central e leste, e desce mais ar sobre a Indonésia. Esse circuito é a circulação de Walker.
O rearranjo chega à Amazônia. Em estudo na revista Scientific Reports, Jhan-Carlo Espinoza, José Antonio Marengo e colegas associam as secas extremas ligadas ao El Niño a mais subsidência, o ar descendente que inibe nuvens, ligada a anomalias das células de Hadley e de Walker.
Do déficit de chuva ao rio baixo e ao fogo
A nota técnica conjunta de INPE, Inmet, Funceme e Censipam, de junho de 2026, lembra que a chuva na Região Norte tende a diminuir em anos de El Niño sobretudo entre junho e março. O rio responde com atraso: há defasagem entre a chuva nas cabeceiras e seus efeitos ao longo das bacias. No rio Negro, em Manaus, a cota mínima anual ocorreu em outubro ou novembro em 79% dos anos da série, segundo nota do SGB de setembro de 2025.
Segundo a nota conjunta, estação seca longa, calor e ar seco favorecem os incêndios. Estudo de Aragão e colegas na Nature Communications (DOI 10.1038/s41467-017-02771-y) encontrou aumento de 36% na incidência de fogo na seca de 2015, em relação aos 12 anos anteriores, mesmo com queda de 76% no desmatamento.
O que 2015 e 2016 mostraram
O estudo de Juan Carlos Jiménez-Muñoz e colegas (DOI 10.1038/srep33130) descreve o El Niño de 2015-16 como recorde de calor e seca. Até 13% da floresta sofreu seca extrema em fevereiro e março de 2016, ante um máximo de 8% a 10% em eventos anteriores.
Só o leste da Amazônia teve a seca típica; o oeste ficou mais úmido que o normal. Os autores atribuem o contraste à posição do maior aquecimento do oceano, no Pacífico central. Em 1982-83 e 1997-98, com mais aquecimento no leste do Pacífico, a seca foi menos intensa e mais espalhada. Em agosto de 2026, segundo o CPC, o Niño 1+2, no leste, estava em +3,4 °C, e o Niño 4, no centro-oeste, em +0,1 °C. Os boletins oficiais não dizem que seca isso trará.
O que 2023 e 2024 mostraram
Em 26 de outubro de 2023, o rio Negro em Manaus chegou a 12,70 m, a menor cota desde 1902, abaixo dos 13,63 m de 2010, segundo Espinoza e colegas (DOI 10.1038/s41598-024-58782-5). O SGB registrou mínima de 12,13 m em 2024. Os autores ligam o recorde à transição da La Niña de 2022-23 para o El Niño.
O World Weather Attribution, em 24 de janeiro de 2024, pesou outro fator: o El Niño reduziu a chuva em montante semelhante ao da mudança climática, mas a forte tendência de secagem se deveu quase inteiramente à elevação das temperaturas globais. O SGB testou a relação: o índice Niño 3.4 de dezembro e a cota mínima do rio Negro no ano seguinte têm correlação negativa significativa, mas moderada (R de menos 0,21). O El Niño inclina a balança, sem decidir sozinho.
Entenda
El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial. Circulação de Walker é o circuito de ar leste-oeste sobre o Pacífico, enfraquecido pelo fenômeno. Cota é a altura da água na régua da estação, não a profundidade do rio.
O que esperar em 2026 e 2027
O CPC dá 75% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro de 2026, com índice RONI de 2,5 °C ou mais, acima de qualquer El Niño desde 1950. O RONI do evento de 2023-24 teve máximo de 1,5 °C, segundo tabela da nota conjunta com dados do CPC. Os impactos típicos são mais prováveis, mas não garantidos, ressalva o CPC. A próxima avaliação sai em 8 de outubro de 2026.
Para a Amazônia, o Censipam prevê chuva abaixo da média em Roraima, Amapá, grande parte do Amazonas e do Pará de outubro a dezembro. No norte, ainda no período menos chuvoso, o déficit pode retardar as chuvas, que costumam começar em dezembro, e limitar a recuperação dos rios, com vazões abaixo da média no rio Negro. Pelos cenários do SGB de 1º de setembro, um rio Negro como o de 2015 ficaria abaixo de 13 m em 31 de outubro; pelo padrão de 2023, 13,37 m; pelo de 2024, 16,32 m. Águas mais quentes no Atlântico tropical sul podem atenuar a estiagem no leste, mas a nota de junho vê como prematuro medir o efeito.
Perguntas frequentes
Como o El Niño afeta a Amazônia?
Ele desloca para o leste a área de ar ascendente do Pacífico. Sobre a Amazônia, o ar desce mais, as nuvens se formam menos e a chuva cai, sobretudo no norte e no leste.
Todo El Niño causa seca grave no rio Negro?
Não. A correlação medida pelo SGB é moderada, e em 2015 o oeste da floresta ficou mais úmido que o normal.
Por que o risco de fogo sobe com o El Niño?
O clima seco não acende o fogo, mas deixa a vegetação mais inflamável. O modelo do Cemaden combina atividade humana e previsão climática sazonal.
O que esperar de 2026 e 2027?
Os modelos do Painel El Niño indicam permanência do fenômeno ao menos até o início de 2027, com chuva abaixo da média e risco de fogo no centro-norte do país.
O que fazer a seguir
Quem depende de rio, roça ou pesca deve acompanhar o boletim semanal do SGB no Sistema de Alerta de Eventos Críticos (SACE) e as orientações da Defesa Civil. O próximo marco é o boletim do CPC de 8 de outubro de 2026.
Com informações de NOAA/CPC, INPE, Inmet, Cemaden, Censipam, Serviço Geológico do Brasil e World Weather Attribution.
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